Manual de Sabotagem

Escritos sobre política, memória e capitalismo

de Elfriede Jelinek
Editor: Deriva Editores, dezembro de 2014 ‧
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A escritora procura levar o público, transido de medo pelo que o forçam a ver e que julgava ter esquecido, a repensar o que se tornou esta sociedade, a ver claramente a que ponto se encontra sequestrado pelos mitos, levando-o, por conseguinte, a que se reaproprie conscientemente dos instrumentos e intenções pelos quais se torna possível superar uma tranquilidade conseguida pela repressão. Só assim será possível imaginar uma catarse. O passo preliminar a uma superação é precisamente o choque que pode causar a visualização do capitalismo como um sistema de consumo de corpos, que literalmente traga os trabalhadores, a conscientização da publicidade como maquinismo de produção incessante de necessidades supérfluas, ou a representação da política como transacção simbólica que implica uma centralização do poder de convencimento pelos eleitos (em todas as acepções) e a sagração mística dos líderes políticos como entes transcendentes.

«Está algo continuamente à espreita atrás de mim, uma imagem imóvel. Noutros tempos, as massas humanas movimentavam-se, chamava-se a isso política. Agora apenas se movimentam os indivíduos, do passado para o presente. Muitos já não existem. A vítima já não é bonita. Nos crimes contam-se apenas as massas, mas já não existem movimentos de massas, porque as massas estão mortas e, por isso, já não se podem movimentar. Por isso, hoje não posso escrever sobre mais nada, quer dizer, claro que posso, mas não desta maneira. Não, assim não! O passado apresenta a conta, a peça já sai, quem paga? Aquele que já pagou! As massas querem vestir qualquer coisa, mas querem pagar pouco por isso, quase nada. Só os indivíduos são ainda obrigados a levar um destino vestido. As massas não têm destino nenhum e têm de levar com isso. Há muitas pessoas que não têm nada de novo para vestir. No fundo, é indiferente se elas vestem roupas ou um destino.»
In Introdução por Bruno Monteiro

Manual de Sabotagem

Escritos sobre política, memória e capitalismo

de Elfriede Jelinek

Propriedade Descrição
ISBN: 9789898701053
Editor: Deriva Editores
Data de Lançamento: dezembro de 2014
Idioma: Português
Dimensões: 137 x 199 x 11 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 164
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Memórias e Testemunhos
EAN: 9789898701053

SOBRE O AUTOR

Elfriede Jelinek

PREMIO NOBEL DA LITERATURA 2004

Elfriede Jelinek, de origem austríaca, marcou o panorama teatral e literário germânico e europeu do fim do século XX como nenhuma outra autora. Eminentemente política e feminista, ao mesmo tempo, soube forjar uma linguagem muito própria que utiliza como arma artística e estética contra os males e vícios das sociedades modernas - a exclusão das diferenças, os abusos de poder, os pesos sociais que asfixiam, esmagam e destroem.

Elfriede Jelinek inscreve-se na tradição literária austríaca junto de grandes e polémicos autores, tais como Karl Kraus e Thomas Bernhard. Tal como eles foi considerada pornográfica e traidora da pátria, tendo recebido ameaças e visto o seu nome arrastado para a lama. Autora mais do que reconhecida, galardoada com múltiplos prémios literários, não deixou, no entanto, de ser marginalizada. Considerada "degenerada" por parte da sociedade austríaca - supostamente a extrema direita - a condenação recai sobre toda a sua obra, tanto no teatro como na literatura.

Apesar de tudo isto (ou, exatamente por tudo isto) a escritora foi laureada com o prémio Nobel da Literatura 2004, tendo o comunicado da Academia Sueca destacado "o fluxo musical das vozes e contra-vozes presente nos romances e peças" da autora, que com "extraordinário zelo linguístico", revelam o "absurdo dos clichés da sociedade".

Nascida a 20 de outubro de 1946 na cidade de Murzzuschlag, na província austríaca de Styria, Elfriede Jelinek é filha de uma mestiçagem cultural e religiosa: a mãe era uma austríaca católica, pertencente a uma família da alta burguesia vienense; o pai, engenheiro químico e autodidata , era um judeu de origem checa oriundo de um meio pobre, mas culto. Trabalhou em produção industrial estratégica durante a Segunda Guerra Mundial, conseguindo com isso escapar à perseguição nazi.

Predestinada pela mãe a transformar-se num génio da música, ingressa em 1950 no jardim de infância de uma instituição religiosa, em Viena, onde, a partir dos 4 anos, estuda ballet e francês. É muito cedo submetida a pressões cada vez mais fortes: a partir dos 7 anos a mãe obriga-a a frequentar aulas de piano, alto e violino, para além dos estudos habituais na escola primária. Aos 16 anos entra para o Conservatório de Música de Viena. Ingressou igualmente na Universidade de Viena para estudar Teatro e História da Arte. Por fim, esgotada, acaba por adoecer e enfrentar uma grave crise psicológica.

Asfixiada pelo domínio materno, revolta-se contra a autoridade e direciona a sua atenção para as palavras e a linguagem, uma área descurada pela a mãe, mas estimulada pelo pai. A autora afirmaria mais tarde: "O meu pai estava praticamente ausente. Não gostava muito dele. Mas encorajou-me a afirmar-me através da linguagem e a servir-me dela contra os adultos. A fé no poder das palavras é uma característica da cultura judaica. Pergunto-me se, ao seguir o exemplo do meu pai, ao servir-me da linguagem em vez de mergulhar na música, como queria a minha mãe, não terei procurado salvá-lo dela e salvar-me a mim também. Não quero dizer que ela seja totalmente negativa: é muito inteligente, poderosa, impressionante. Sem ela o meu pai não teria sobrevivido". O pai de Elfriede Jelinek tem um fim dramático: morre enlouquecido, em 1968, num hospital psiquiátrico.

A partir do final dos anos 60 Elfriede Jelinek publica os seus primeiros textos e poemas, escreve para a rádio e recebe os seus primeiros prémios literários. Em 1970 surge o seu primeiro romance, "wir sind lockvogel baby!". É também no início da década de 70 que se casa com Gottfried Hungsberg, passando a viver entre Viena e Munique. Das suas novelas destacam-se "Die Liebhaberinnen" (1975), "Die Ausgesperrten" (1980) e "Die Klavierspielerin (1983, "A Pianista"), uma autobiografia que esteve na origem do filme de Michael Haneke, em 2001. Descrição alucinante das relações infernais entre mãe e filha, analisa de forma impiedosa a despersonalização de uma mulher em nome da música. Um romance perturbante e escandaloso. Não menos escandaloso foi o seu romance seguinte, "Lust", que surge em 1989. "Lust" é ao mesmo tempo o desejo, o gozo, o prazer, "o livro que sempre quis escrever", afirmaria a autora. Um texto pornográfico feminino, uma espécie de anti-história inspirada em George Bataille e Sade.

Tradução livre e adaptação de texto publicado em Lespetitsruisseaux.com.

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