Hoje é Tudo Falso
E outras crónicas
SINOPSE
António Souto escreve crónicas há muitos anos. Décadas. É uma forma de se obrigar a pensar e a escrever, ou, como assinala, «uma forma boa de me disciplinar no rigor de uma escrita que, sendo breve, me permite explorar as virtualidades da palavra e do discurso, de ao mesmo tempo me dizer e interpelar, provocando, com a graça possível, aqueles que me possam vir a ler».
Neste registo, onde é um dos mais admiráveis escritores portugueses, procura fixar e partilhar memórias e reflexões ocasionais. Estas últimas resultando sempre de um olhar atento sobre realidades que não consegue evitar - questões que boa parte das vezes se articulam com o seu ofício de professor, mas também outras que o inquietam, de tão inusitadas ou socialmente injustas.
Regressa frequentemente à infância, e sobre isso partilha: «Com o avançar da idade, vai-se-me atravessando cada vez mais na escrita (nas crónicas como na poesia). Não busco nem tento presentificar nostalgicamente um tempo que foi, o que acontece é que a infância que tive e soube, embora dura, me serve de contraponto e conforto para este presente acrítico de facilitismos, vacuidades, insolências e hipocrisias.»
EXCERTOS
No dia seguinte, pela hora tardia de almoço, numa pequena pastelaria do cimo de Beja, acerca-se de nós uma catraia, de uns cinco anitos, e fita-nos. Como é que te chamas? Diana. Ah, és muito linda, toda morenaça. E tens um nome muito giro, sabias, um nome de deusa. Nada. Silêncio. De supetão, alheia a divindades e floreios, O meu pai chega daqui a dois dias. Ai é, e vem de onde, da França, da Suíça… Não, o meu pai está preso. E aos saltitos, tão insondável como viera, afastou-se rua fora e deixou-nos sumidos num afogamento enorme. A senhora por detrás do balcão encolheu um sorriso, que era normal, o pai da menina até já vinha passar os fins-de-semana a casa, que ela andava muito contente por o pai vir agora de vez, isto se não voltar a meter-se de novo em sarilhos, coisa de drogas, e que a menina contava a toda a gente, não fizesse caso. Mas fizemos. Fizemos porque há perguntas que se não devem fazer quando se não podem adivinhar respostas, quando se não pode decifrar a inocência que brota do fundo dos olhos de uma criança. Fizemos caso, também, porque a alegria que juncou o ar naquele instante contrastou com a dolência da véspera, mas isso foi o menos importante. O que valeu mesmo a pena foi termos trazido connosco, no regresso a casa, a candura confiante de uma deidade.
DETALHES
| Propriedade | Descrição |
|---|---|
| ISBN: | 9789895433704 |
| Editor: | On y va |
| Data de Lançamento: | Janeiro de 2019 |
| Idioma: | Português |
| Dimensões: | 129 x 198 x 8 mm |
| Encadernação: | Capa mole |
| Páginas: | 128 |
| Tipo de produto: | Livro |
| Classificação Temática: |
Livros em Português
>
Literatura
>
Crónicas
|
| EAN: | 9789895433704 |
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