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Crónicas de Jerusalém

de Guy Delisle
Editor: Devir, outubro de 2024 ‧
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Ao acompanhar a esposa numa missão humanitária em Israel, Guy Deslile instala-se em Jerusalém com a família durante um ano.

Num passeio pelas ruas, à saída de uma igreja, na esplanada do café, o autor explora questões fundamentais da sociedade, mostrando-nos uma cidade imprevista, palco de conflitos e paixões, da forma perspicaz e divertida que já conhecemos.

Crónicas de Jerusalém recebeu o Prémio para Melhor Álbum de Banda Desenhada de Angoulême, em 2012.
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Que se passa na BD?

Parece caber de tudo lá dentro. Há narrativas muito díspares e a parte gráfica difere em igual medida. A banda desenhada é um mundo do tamanho do romance.
Há quem julgue que a banda desenhada é para crianças. E tem razão. É-o, mas é também para adultos. Sendo um género literário, tudo cabe lá dentro, desde A Turma da Mônica aos que vão ser citados aqui. Ultimamente, várias editoras em Portugal têm apostado neste género, criando uma legião de fãs, e aproximando gente de livros – gente que, muitas vezes, prefere este género a prosa, ou que simplesmente lê de tudo. A narrativa, claro, é diferente da do romance não-gráfico: aqui, desenho e texto competem pela atenção, com um a substituir-se ao outro nesta tirinha ou na outra. Hitler Do Japão, chega-nos Hitler, da autoria de Shigeru Mizuki. Num livro a preto e branco, neste livro que se lê de trás para a frente, da direita para a esquerda, e que acaba de chegar a Portugal (ainda cheira a papel novo), o autor japonês conta a história de Hitler, o que implica também contar a da Segunda Guerra Mundial. Ao longo da narrativa, as imagens impressionam: a preto e branco, mostrando-se judeus empilhados uns nos outros ou escondidos em sótãos ou à espera de gás. Tudo é violento, e tudo mostra o ódio insano pelo povo judeu: ao mostrá-lo, o autor mostra ainda as motivações nazis. Parte do início, do crescimento de Hitler, e vai pela sua ascensão a chanceler, pela batalha de Estalinegrado, pela relação com Eva Braun e, claro, pela guerra e a horrenda perseguição aos judeus. Contando a história de Hitler, com cenários altamente realistas e personagens mais embonecadas, não se conta a história de um só homem, antes a de um continente, antes a de grande parte de um século, das suas hordas de apoiantes e da herança que ficou não só para a Alemanha ou para a Europa, mas também para o resto do mundo – e, com essa herança, uma necessidade urgente de se estudar a História. COMPRO NA WOOK »
Crónicas de Jerusalém Com papel grosso e edição cuidada da Devir, Crónicas de Jerusalém, de Guy Delisle, surpreende logo de forma sensorial: o tato desperta só por se agarrar o livro. Numa narrativa autobiográfica, Delisle conta a história da sua ida para Jerusalém, onde se instalou com a família durante um ano. Tudo é carregado de sentido: logo no avião, o homem que lhe pega na filha tem uma sequência de algarismos tatuada no antebraço, por ter estado num campo de concentração. À medida que o autor descobre a cidade, o leitor vai com ele. Eis, de início, a sua surpresa: ruas esburacadas e sem passeios, carros mal estacionados, calor de doidos. E depois, em Jerusalém ocidental: passeios largos, caixotes do lixo que não estão a transbordar. Nessa zona, durante o Sabat, a cidade está transformada em cidade-fantasma. Noutra altura, e noutra parte, não passam despercebido os olhares sobre ele enquanto come uma maçã durante o Ramadão. Com perícia e leveza, Delisle encara um território politicamente denso, tanto dando pormenores, como lojas cristãs a vender cerveja e vinho e lojas muçulmanas sem álcool, como entra num universo de separação mais rígida, como quando refere o sistema de transporte urbano que funciona em paralelo: de um lado, os autocarros israelitas que servem toda a cidade exceto os bairros árabes; do outro, os miniautocarros árabes, que só servem esses bairros. Mais adiante, o autor mostra o muro de separação e os checkpoints, assim como israelitas que contestam as políticas do Estado de Israel. Tudo é contado com singular leveza, como quem descobre, e quase todos os quadrinhos têm texto. COMPRO NA WOOK »
Spirou – A Esperança Nunca Morre Do mesmo autor, e num estilo bem diferente, temos Spirou. São quatro volumes, e parece que tudo cabe lá dentro. Começamos no Inverno de 1940, em Bruxelas, frio como a neve. Às portas da guerra, Fantásio alista-se no exército belga, tendo a certeza de que França e Grã-Bretanha darão cabo do exército alemão. Já Spirou, o herói da história, é um paquete que vive de forma pacata. É ao conhecer Félix, um pintor judeu alemão, que ouve falar pela primeira vez da questão judia e que passa a começar a perceber a realidade internacional. No eclodir da guerra, Fantásio tenta cumprir o seu papel e Spirou tenta perceber a vida através de encontros com pessoas diferentes, como crianças cujo pai está na guerra e a mãe morreu no bombardeamento de Louvain, que lhe vão abrindo os olhos para o mundo. Assiste-se, por isso, à realidade como perda da inocência. Escrevendo a história nestes dois planos, mostrando estas duas personagens, Émile Bravo deu ao público uma imagem panorâmica do que se passava na Europa naqueles tempos tenebrosos. O desenho é simples, as páginas estão pejadas de cor, e há muito texto, muito diálogo. COMPRO NA WOOK »
Vampiros Vampiros, de Filipe Melo e Juan Cavia, arrebata desde a primeira página. E páginas inteiras sem texto estão pejadas de sentido. Quem abre o livro dá por si em 1972, caído na Guiné-Bissau, metido entre um grupo de comandos portugueses. No meio do mato, avançam em busca de uma base secreta no Senegal. Com pouco texto e muita imagem, vemos a vida acontecer num cenário extremo, e muitas vezes a vida a terminar sem complacência e sem hesitação. A guerra passa sempre por desumanizar o outro, e em vários momentos acompanhamos o grupo, entre conversas de circunstância para preencher as noites ou noutras que, sob o sol inclemente, são interrompidas com uma granada a rebentar no chão. Em termos gráficos, convém acrescentar que Vampiros é um banquete, e que a mão de Juan Cavia surpreende não a cada página, mas a cada quadrinho. COMPRO NA WOOK »
Lucky Luke: um cowboy sobre pressão E terminamos com este clássico, de origem franco-belga e ambientada no Velho Oeste norte-americano, que continua atual: afinal, os volumes continuam a sair, e este acabou de chegar às livrarias. O cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra é chamado para resolver um problema que parece pertencer à ficção (e pertence): devido a uma greve geral, há escassez... de cerveja. Lá se dirige Lucky Luke a Milwaukee, onde dezenas de fábricas produzem milhões de litros por ano, que dali vão para saloons de todo o país, tentando encontrar um acordo entre os sindicalistas marxistas e os barões industriais. Mas Lucky depressa aprende que, comparadas aos conflitos entre sindicatos, as guerras índias são um passeio no parque. Assim que se vira para os trabalhadores, eles tomam-no como um aliado dos patrões, um infiltrado na greve. Enfim, é agredido, agride de volta, chega a polícia e o cowboy acaba preso. O resto é melhor ler-se no livro, mas fica a consideração: com uma narrativa energética e divertida, não espanta que Lucky Luke, que nasceu em 1948, continue a viver, a nascer e a ser lido. COMPRO NA WOOK »
A Minha Mamã está na América e Encontrou o Buffalo Bill Comecemos por um livro que é horrível e magnífico. Ao lê-lo, não fica claro se é horrível por ser magnífico ou se é magnífico por ser horrível. O que não dá para ignorar é que se começa com um trago amargo na boca e se termina de coração partido. A A Minha Mamã está na América e Encontrou o Buffalo Bill é livro que dá para miúdos e adultos, e que a ambos deve perturbar da mesma forma. No centro, está um rapaz – dois rapazes, mas incide-se mais num – que perderam a mãe. Ao longo do livro, o miúdo – pequeno demais para ficar sem mão de mãe – não sabe da mãe, nem sabe bem se se lembra dela. Vamos, por isso, assistindo à sua ausência – e à sua indagação do seu paradeiro. É que ninguém lhe conta o que aconteceu, e ele cogita-lhe os destinos, ajudado pela vizinha que lhe escreve postais em nome da mãe, mantendo-lhe a chama acesa. Em vez de morta, a mãe é uma espécie de aventureira, entre a neve da Suíça ou no meio da floresta com o Buffalo Bill. O traço é simples, a história também – e o livro não precisa de mais para ir aos calos. COMPRO NA WOOK »
Blankets Blankets é uma beleza. Não é belo qualquer primeiro amor? Basta a capa, com o traço de Craiga Thomson, para ficarmos apanhados. A partir daí, abrir o livro é como cair numa vertigem. Os desenhos obrigam a ver, não se oferecem num olhar de soslaio: em vez disso, o leitor tem um papel de procurar e de absorver o sentido. Aos poucos, Thomson vai mostrando a sua infância, com o que tinha de terno ou violento ou costumeiro. E a partir daí entramos na vida adulta, sempre com o passado a fazer de sino que toca ao ouvido, uma memória que não larga e constitui. O traço é simples, e também isso garante a beleza. Logo nas primeiras cenas, com dois irmãos a partilhar cama, ora suando de calor, ora tremendo de frio sob um cobertor que, colado à janela, já tinha as pontas congeladas, entende-se que se abre um livro que é pejado de emoção. O livro é essa força bruta, transitando entre a ternura e a crueldade, mostrando a vida sem pó de arroz e mostrando a família como o território literário mais rico e mais forte de todos. Por muito que se possa associar a banda desenhada a super-heróis, são os pequenos traços do quotidiano que fazem as grandes obras, que são as que perduram. COMPRO NA WOOK »

Crónicas de Jerusalém

de Guy Delisle

Propriedade Descrição
ISBN: 9789895597031
Editor: Devir
Data de Lançamento: outubro de 2024
Idioma: Português
Dimensões: 174 x 247 x 26 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 336
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Banda Desenhada > Novela Gráfica
EAN: 9789895597031

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SOBRE O AUTOR

Guy Delisle

Guy Delisle nasceu no Quebeque em 1966. A sua experiência como supervisor de animação, na Ásia, forneceu o material a Shenzhen e Pyongyang (L’Association, 2001 e 2003, respetivamente). Editou em 2007 Chroniques Birmanes (Crónicas Birmanesas) e em 2011 Chroniques de Jérusalem, ambos pela editora Delcourt. Este último valeu-lhe em 2012 o Fauve D’Or, prémio de melhor álbum em Angoulême.

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