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Ciúme

A outra vida de Catherine M.

de Catherine Millet
Editor: Edições 70, outubro de 2025 ‧
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Em 2001, a aclamada e respeitadíssima crítica de arte Catherine Millet chocou o mundo ao publicar a Vida Sexual de Catherine M. — um relato intimista da sua vida sexual, vivida sem barreiras nem tabus, descrito pela revista Playboy como «um dos livros mais eróticos alguma vez escritos», imediatamente traduzido para mais de 40 línguas. na sequência do sucesso e da polémica desse livro, Catherine Millet decidiu voltar ao registo intimista para contar o outro lado da história e conduzir-nos numa vertiginosa viagem à interioridade feminina e ao inferno dos ciúmes.

Sem se poupar a detalhes escabrosos, Ciúme é uma autoanálise honesta e brutal, que mostra como o amor, assuma ele a forma que assumir, tem sempre um lado negro, obsessivo e destrutivo, mesmo para o mais inveterado dos libertinos.
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Literatura e ciúme: a paixão que inventa histórias

O ciúme é uma das paixões mais literárias porque raramente se contenta com o real. Ao contrário da dor, que se impõe, da alegria, que se expande, ou da saudade, que contempla uma ausência, o ciúme interpreta. Lê sinais, exagera pausas, transforma gestos banais em provas, faz da memória um tribunal e do olhar uma forma de vigilância. O ciumento sofre porque quer saber, possuir, decifrar, confirmar. A sua angústia nasce precisamente do intervalo entre aquilo que vê e aquilo que imagina. Por isso, o ciúme é uma máquina narrativa. Cria histórias onde talvez existam apenas lacunas. Produz suspeitas, monólogos, confissões, fantasmas. O ciúme é uma forma perversa de leitura. Lê-se o corpo do outro, o passado do outro, a vida secreta do outro. E quanto mais se lê, menos se sabe. A literatura, que também vive de ambiguidades, encontra nele um território privilegiado. O ciúme permite mostrar a sombra do amor e a degradação em posse; bem como o modo como a intimidade pode tornar-se violência.
Em Dom Casmurro, de Machado de Assis, A Sonata a Kreutzer, de Tolstói, Dias de Abandono, de Elena Ferrante, e Ciúme – A outra vida de Catherine M. , de Catherine Millet, esta paixão assume formas muito distintas. Em Machado, o ciúme é uma construção retórica, uma dúvida que se escreve a si mesma até parecer verdade. Em Tolstói, é uma febre moral e sexual, ligada à violência do casamento e à obsessão masculina pela pureza. Em Ferrante, é uma experiência de desagregação íntima e doméstica. Em Millet, surge como paradoxo moderno. A mulher que conheceu a liberdade sexual vê-se, inesperadamente, capturada pela tirania imaginária da exclusividade.
Em todos estes livros há um ponto comum. O ciúme nunca fala apenas do outro. Fala, sobretudo, daquele que o sente. Revela a sua insegurança, a sua vaidade, a sua dependência, a sua fome de controlo. O ciúme é uma paixão voltada para fora, mas que desmascara brutalmente o interior. Dom Casmurro, de Machado de Assis Poucos romances fizeram do ciúme uma forma tão refinada de ambiguidade como Dom Casmurro. À primeira vista, Bentinho narra a história de um amor traído: o romance com Capitu, a amizade com Escobar, o nascimento de Ezequiel, a suspeita de adultério. Mas Machado de Assis oferece-nos uma tragédia da interpretação.
Bentinho é o narrador, o juiz, a vítima e o acusador. A sua versão dos acontecimentos pretende reconstruir o passado, mas fá-lo sempre a partir de uma ferida narcísica. Ele quer convencer-nos, mas quanto mais tenta convencer, mais se denuncia. O seu discurso é elegante, irónico, culto, sedutor; mas é também sinuoso, interessado, contaminado pela necessidade de transformar a suspeita em destino. O ciúme, em Dom Casmurro, aparece como uma arquitetura. Bentinho constrói a culpa de Capitu como quem constrói uma casa, ou, mais precisamente, como quem reconstrói a antiga casa de Matacavalos para nela aprisionar os fantasmas da juventude. A célebre opacidade de Capitu é central para esse mecanismo. Os seus “olhos de ressaca” tornaram-se um dos maiores enigmas da literatura em língua portuguesa precisamente porque nunca sabemos se são sinal de dissimulação ou apenas invenção poética de um homem incapaz de suportar a autonomia da mulher que ama. Capitu é inteligente, viva, estratégica, socialmente mais hábil do que Bentinho. Talvez por isso mesmo se torne, para ele, intolerável. O ciúme de Bentinho nasce da impossibilidade de possuir inteiramente a consciência de Capitu.
Machado trabalha uma dimensão profundamente moderna do ciúme: a sua relação com a narrativa. Bentinho apresenta impressões, coincidências, semelhanças físicas, cenas reinterpretadas à luz de uma obsessão posterior. O ciumento, como o mau leitor, confunde indício com evidência. A semelhança entre Ezequiel e Escobar torna-se, para Bentinho, a confirmação final; mas para o leitor permanece como problema. O romance pergunta: “Capitu traiu?” Mas pergunta também: “O que faz uma mente ciumenta quando decide organizar o mundo em torno de uma suspeita?”
Machado não absolve nem condena Capitu de modo explícito. Em vez disso, coloca-nos dentro da retórica do ciúme e obriga-nos a experimentar o seu poder persuasivo. O leitor é seduzido e manipulado por Bentinho, tal como Bentinho foi manipulado pela própria imaginação. O ciúme torna-se, assim, uma forma de autoria. Bentinho escreve para dominar aquilo que nunca conseguiu compreender.
Dom Casmurro é a história de um homem que precisa que a mulher seja culpada. O ciúme, em Machado, é uma paixão que fabrica uma verdade à medida da sua dor. COMPRO NA WOOK! » A Sonata de Kreutzer, de Tolstói Se em Machado o ciúme é ambíguo, insinuante e retórico, em Tolstói surge como uma força brutal, quase apocalíptica. A Sonata de Kreutzer é uma narrativa de confissão, marcada por uma intensidade febril. Pozdnyshev, o narrador, conta a história do seu casamento, do seu tormento sexual, da suspeita em relação à mulher e do crime que nasce dessa suspeita. O ciúme é fúria metafísica.
Tolstói associa o ciúme a uma visão profundamente problemática do desejo. O casamento, longe de aparecer como espaço de harmonia, surge como campo de conflito entre corpo e ressentimento. Pozdnyshev vê a sexualidade como degradação e como armadilha. O seu discurso é atravessado por uma tensão moral extrema: ele condena o desejo, mas está dominado por ele; acusa a mulher, mas revela a sua própria obsessão; denuncia a sociedade, mas transforma essa denúncia numa justificação da violência. A música desempenha um papel decisivo. A sonata de Beethoven, tocada pela mulher de Pozdnyshev com outro homem, torna-se para ele a encenação intolerável de uma intimidade que o exclui. O ciúme nasce, nesse momento, de algo que não é propriamente físico, mas simbólico. A música cria uma comunhão invisível, uma espécie de erotismo espiritual que Pozdnyshev não consegue suportar. O que o destrói é ver a mulher partilhar com outro uma intensidade que escapa ao seu domínio.
Nesse sentido, Tolstói mostra com enorme acuidade uma das raízes mais obscuras do ciúme: a humilhação de não ser o centro absoluto da vida do outro. O ciumento não teme apenas perder o amor; teme descobrir que nunca o possuiu inteiramente. A liberdade interior da pessoa amada aparece-lhe como afronta.
Mas A Sonata de Kreutzer é também uma obra atravessada pelas contradições ideológicas do próprio Tolstói. A crítica à hipocrisia do casamento burguês convive com uma visão severa, muitas vezes misógina, da sexualidade feminina. A mulher de Pozdnyshev quase não tem voz própria; existe sobretudo como objeto da narrativa dele, como superfície onde se projetam medo, desejo e culpa. Essa ausência é perturbadora, mas literariamente significativa. O ciúme masculino apaga a mulher real para substituí-la por uma figura imaginária, culpada antes mesmo de qualquer prova.
Ao contrário de Bentinho, que escreve para nos convencer lentamente, Pozdnyshev fala como alguém já consumido pelo excesso. A sua confissão procura contágio. Ele quer que o ouvinte compreenda a lógica interna do seu horror. Mas o leitor percebe que essa lógica é precisamente o problema. O ciúme, em Tolstói, revela-se como uma paixão que moraliza a posse: em nome da virtude, legitima a destruição.
Se Dom Casmurro transforma o ciúme numa dúvida interminável, A Sonata de Kreutzer mostra o momento em que a dúvida se torna violência. O resultado é um dos retratos mais perturbadores da literatura sobre a ligação entre desejo reprimido, orgulho masculino e aniquilação do outro. COMPRO NA WOOK! » Crónicas do Mal de Amor, de Elena Ferrante Em Dias de Abandono, incluído em Crónicas do Mal de Amor, Elena Ferrante desloca o ciúme para um território visceralmente feminino, doméstico e corporal. Olga é abandonada pelo marido e, a partir desse acontecimento aparentemente comum (um homem que parte, uma mulher deixada para trás), Ferrante constrói uma das mais intensas narrativas contemporâneas sobre a desagregação psíquica provocada pela perda amorosa.
O ciúme neste livro é uma experiência de substituição. A outra mulher existe como ameaça concreta, mas também como fantasma que corrói a identidade da abandonada. Olga sofre porque a sua vida anterior, organizada em torno do casamento, da maternidade e da estabilidade doméstica, se revela subitamente frágil, talvez ilusória. O abandono reescreve o passado: aquilo que parecia amor passa a parecer engano; aquilo que parecia rotina passa a parecer servidão; aquilo que parecia identidade passa a parecer papel imposto. Ferrante é implacável na forma como descreve essa queda. O ciúme aparece como humilhação, raiva, sujidade, exaustão, descontrolo. O corpo de Olga torna-se campo de batalha. A casa, longe de ser refúgio, transforma-se em espaço claustrofóbico, quase infernal. Os filhos, o cão, os objetos quotidianos, o calor, a fechadura, os ruídos: tudo participa na decomposição da ordem. O mundo exterior encolhe, a mente expande-se em espirais de dor.
Uma das forças de Ferrante está em recusar a imagem nobre da mulher abandonada. Olga é cruel, obscena, desorientada, por vezes injusta, por vezes assustadora. Ferrante concede-lhe uma humanidade integral, sem a purificar. O ciúme torna-se, assim, também uma crise de linguagem e de civilidade. Olga perde as palavras certas, perde a compostura social, perde a versão de si mesma que aprendera a apresentar ao mundo.
Ao contrário de Machado e Tolstói, que nos dão narradores masculinos obcecados pela posse da mulher, Ferrante mostra o que acontece quando a mulher é confrontada com a sua própria substituibilidade dentro de uma ordem afetiva e social que a tornou dependente. O ciúme de Olga tem uma dimensão existencial: “Quem sou eu, se já não sou aquela que era amada?” Esta pergunta atravessa o livro.
No entanto, Dias de Abandono é também uma narrativa de sobrevivência. Ferrante mostra que a mulher abandonada precisa de atravessar uma espécie de inferno íntimo para recuperar uma relação menos ilusória consigo mesma. O ciúme, neste processo, é devastador, mas também revelador. Mostra a violência das dependências afetivas, a fragilidade das identidades conjugais, a brutalidade com que uma vida aparentemente estável pode ruir. COMPRO NA WOOK! » Ciúme – A Outra Vida de Catherine M., de Catherine Millet Com Catherine Millet, entramos num território diferente: o ciúme como paradoxo intelectual e erótico. Depois de se ter tornado conhecida por uma escrita franca sobre a liberdade sexual, Millet confronta-se, em Ciúme – A Outra Vida de Catherine M., com uma paixão que parece contradizer a imagem de si mesma. Como pode uma mulher que viveu o desejo fora dos moldes tradicionais da exclusividade ser devastada pelo ciúme? Como pode alguém que separou sexo, amor e posse descobrir-se prisioneira da fantasia de uma traição?
É precisamente essa contradição que torna o livro tão fascinante. Millet trata o ciúme como investigação. O livro é uma anatomia da imaginação ciumenta, uma tentativa de observar com lucidez uma paixão que, por definição, perturba a lucidez. A autora interroga os seus próprios fantasmas, a sua relação com o companheiro, a sua necessidade de saber, a sua inclinação para construir cenas mentais a partir de fragmentos. Aqui, mais do que a traição em si, importa a vida imaginada do outro. O subtítulo: “a outra vida de Catherine M.”, é particularmente expressivo: o ciúme cria uma existência paralela. Há a vida real e há a vida fantasmática, aquela em que a pessoa amada se move longe do nosso olhar, habitada por desejos, lembranças, cumplicidades e corpos que nos excluem. O ciúme inventa uma segunda vida para o outro, mas também uma segunda vida para quem sofre: uma vida subterrânea, feita de vigilância, comparação, pesquisa, cenas repetidas.
Millet aproxima-se do ciúme com uma precisão quase ensaística. A sua escrita procura compreender. Isso distingue o livro de muitas narrativas passionais. O sofrimento está presente, mas é submetido a uma inteligência analítica que não o diminui, antes o torna mais perturbador. Porque, em Millet, o ciúme resiste a tudo. Sobrevive à teoria, à experiência e até àquilo que julgávamos saber sobre nós próprios.
O livro revela uma verdade incómoda: que a liberdade erótica não elimina necessariamente o desejo de singularidade afetiva. Uma pessoa pode aceitar a multiplicidade dos corpos e, ainda assim, sofrer com a ideia de não ocupar um lugar único no imaginário do outro. O ciúme, nesse sentido, pode surgir mesmo onde as regras foram flexibilizadas, mesmo onde a sexualidade parece emancipada. Talvez porque o ciúme não diga respeito apenas ao sexo; mas também diga respeito ao lugar que acreditamos ter na memória, no desejo e na narrativa íntima de alguém.
Em Catherine Millet, o ciúme torna-se uma experiência de despossessão simbólica. “Quem és quando não estás comigo? Que parte de ti me escapa? Que imagens guardas que não me incluem?” É este o ciúme mais moderno e talvez o mais inquietante: o que sofre perante a impossibilidade de conhecer plenamente o outro. COMPRO NA WOOK! » Estes quatro livros mostram que o ciúme é uma forma de relação com a verdade, com o corpo, com a linguagem e com o poder. O ciumento quer saber, mas o seu desejo de saber está contaminado pelo medo. Quer amar, mas muitas vezes confunde amor com posse. Quer preservar a intimidade, mas acaba por destruí-la através da suspeita. Quer encontrar provas, mas frequentemente fabrica-as.
A diferença entre estas obras está no modo como cada uma encena a paixão ciumenta. Machado faz dela uma arte da ambiguidade; Tolstói, uma tragédia da possessividade; Ferrante, uma descida ao inferno da perda; Millet, uma investigação sobre os paradoxos do desejo contemporâneo. Mas todas parecem dizer-nos que o ciúme é uma paixão profundamente narrativa, que obriga quem o sente a contar histórias: sobre o outro, sobre si mesmo, sobre o passado, sobre aquilo que talvez tenha acontecido e sobre aquilo que se teme que aconteça.

Ciúme

A outra vida de Catherine M.

de Catherine Millet

Propriedade Descrição
ISBN: 9789724429182
Editor: Edições 70
Data de Lançamento: outubro de 2025
Idioma: Português
Dimensões: 155 x 236 x 12 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 210
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Biografias
EAN: 9789724429182

SOBRE O AUTOR

Catherine Millet

Catherine Millet (Bois-Colombes, França, 1 de abril de 1948) é uma curadora, crítica de arte e escritora francesa.
Fundadora e diretora da Art Press, uma das mais influentes revistas de arte francesas, Catherine Millet é autora de vários livros sobre arte contemporânea e especialista na obra do pintor espanhol Salvador Dalí e do artista plástico Yves Klein.
Em 2001, Catherine tornou-se mundialmente conhecida ao conquistar milhões de leitores com o polémico "A Vida Sexual de Catherine M.". A autora deixou cair a máscara de respeitada crítica de arte ao expor publicamente os detalhes da sua movimentada vida sexual, descrevendo de forma explícita uma irrefreável sequência de relações sexuais que envolviam desconhecidos, grupos de até 150 pessoas e os mais variados cenários, entre clubes, beiras de estradas, praças públicas ou casas de amigos. As descrições precisas de cenas sexuais e as fotos íntimas dividiram os críticos; seria a obra da autora Catherine Millet, autoficção? Se este for o caso, pode-se pensar a obra não como verdadeiro ou falso, mas como mera autobiografia ficcional. Autoficção combina dois estilos, paradoxalmente contraditórias: a de autobiografia e ficção. Neste sentido, alguns viram o livro como um marco da liberdade feminina, outros consideraram pornografia. O fato é que "A Vida Sexual..." vendeu mais de 2,5 milhões de exemplares em 47 países.
Em 2009, Catherine Millet lança "O Outro Lado de Catherine M.", uma obra que aborda as relações estáveis e as crises de ciúmes vividas pela escritora em paralelo às aventuras sexuais contadas no livro de 2001.

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