Ao Arrepio
EXCERTOS
«Suponho que todos os homens de letras sejam como eu, que nunca relêem as suas obras depois de publicadas. Na verdade, nada é mais decepcionante ou mais penoso do que olhar para essas frases passados uns anos. Elas foram, de certo modo, decantadas, criaram depósito no fundo do livro. E, na sua maioria, os livros não são como os vinhos que melhoram com a idade. Despojados pelo tempo, uma vez abertos, os capítulos alteram-se e o seu perfume evola-se.
Tive essa impressão com algumas das garrafas guardadas na adega de À Rebours, no momento em que as desarrolhei. [...]
[...] À Rebours caiu como um meteorito no local da feira literária e provocou estupefacção e revolta; a imprensa desconjuntou-se; nunca se leu tanta divagação nem tanta exorbitância junta. Depois de me terem chamado misantropo impressionista e de terem qualificado des Esseintes de maníaco e de imbecil complicado, os normalistas como Lemaître indignaram-se com o facto de eu não ter feito o elogio de Virgílio e declararam num tom peremptório que os decadentes latinos da Idade Média não passavam “de tontos e de cretinos”. Outros empreendedores da crítica acharam por bem aconselhar-me uma estância termal, uns bons açoites de duches. Não tardou, e os conferencistas lá se juntaram também à festa. Na Salle des Capucines, o arconte Sarcey gritava, horrorizado: “Diabos me levem se me entra uma só palavra deste romance!” Enfim, para que o quadro ficasse completo, as revistas sérias, como a Revue des Deux Mondes e o seu líder, o senhor Brunetière, encarregavam-se de comparar este romance aos vaudevilles de Waflard e Fulgence.
No meio desta barafunda, só um escritor foi capaz de conservar algum discernimento, Barbey d’Aurevilly, que não me conhecia de lado nenhum. Num artigo publicado no Constitutionnel com a data de 28 de Julho de 1884, e que foi incluído na sua recolha Le Roman Contemporain, aparecida em 1902, escreveu:
Depois de um tal livro, não resta mais nada ao seu autor senão escolher entre a boca de uma pistola e os pés da cruz.
Feito está.»
Joris-Karl Huysmans, "Prefácio escrito vinte anos após o romance", in Ao arrepio
DETALHES
| Propriedade | Descrição |
|---|---|
| ISBN: | 9789727952731 |
| Editor: | Cotovia |
| Data de Lançamento: | novembro de 2008 |
| Idioma: | Português |
| Dimensões: | 128 x 203 x 14 mm |
| Páginas: | 246 |
| Tipo de produto: | Livro |
| Classificação Temática: |
Livros em Português
>
Literatura
>
Romance
|
| EAN: | 9789727952731 |
OPINIÃO DOS LEITORES
"O quarto da reflexão"
Carlos Gonçalves
Esta obra representa brilhantemente o contraste ficção e realidade ao não apresentar um enredo lógico misturado com descrições reais. Des Esseintes molda um mundo à sua volta que dita o seu estado de espírito e impulsiona a sua capacidade de reflectir. Aconselho bastante
Decadente
EH
Quem leu "O retrato de Dorian Gray", recordar-se-á do protagonista que lê um livrinho amarelo. Pois bem, é este livro. Numa torrente de descrições barrocas, Huysmans escreve acerca de um aristocrata entediado. Não existe enredo no sentido comum, antes descrições de Des Esseintes, quase um monge com um sentido estético muito apurado. Linguagem, imagens e sensações magnifícas.
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