Altos Cumes

de Tiago Patrício
Editor: Editora Labirinto, dezembro de 2020 ‧
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Há quem diga que a poesia se propaga por fluxos e que aos poetas basta estar no lugar certo, à hora certa e com as antenas apontadas para anotar na sua língua essas transmissões. Por outro lado, há quem garanta que a poesia circula em correntes contínuas em todos os mundos possíveis e em tempos consecutivos. Se assim for, o trabalho dos poetas não será tão aparentado ao dos caçadores de lugares misteriosos, nem ao dos coleccionadores de fenómenos extraordinários, nem tampouco ao dos decifradores de mensagens encriptadas.

Estar receptivo a todas as coisas que aconteceram, que podiam ter acontecido e que poderão repetir-se a qualquer momento, não é bem um trabalho, nem um passatempo, nem tem correspondência na tabela de actividades. Talvez seja um pára-tempo ou um para-tempo porque supõe o convívio simultâneo de várias linhas de tempo e dispõe, no mesmo poema, paradoxos, objectos impossíveis e contradições.

A poesia põe a rodar o pião imaginário que traduz a infância, aproxima vozes e rostos, altera a densidade do ar e a temperatura que faz queimar os olhos marejados como último recurso para acalmar esse incêndio. Porém, a responsabilidade dos poetas não é tão pesada que os deixe paralisados em face do infinito, nem tão desmedida que os impeça de adormecer por longos meses. Deixaram de ser há muito os intermediários entre os deuses e os mortais, deixaram de estar sujeitos às tempestades e aos acenos nos altos cumes para os tornarem disponíveis envoltos numa linguagem humana.

No entanto, é justo dizer que não há poesia sem singularidade, sem a estranheza de não entendermos o arranjo de palavras conhecidas, nem conseguirmos extrair informações úteis. Os poemas são como sinais de trânsito que não indicam direcções, nem proíbem, nem sugerem, nem ajudam os condutores a encontrar o caminho certo, nem a sentirem-se seguros na estrada em que circulam.

Os poemas também são devedores de visões nubladas, de imitações de pressentimentos, de defeitos auditivos, como se fossem transcrições de conversas num telefone avariado, de mensagens trocadas por engano. Platão terá escrito que os poetas eram nocivos para a República Ideal, porque usavam formas de imitação que se afastavam três graus da verdade.

É possível que os poetas vejam as coisas pelo avesso e não percebam o modo como tudo se organiza. Mesmo assim, tentam dar uma aparência ao que passa pelas suas caixas de ressonância e acomodar esses erros a uma lógica possível, fazem por alargar as possibilidades ao nomearem o que lhes aparece em enunciados inviáveis, de modo que possam funcionar em alguma dimensão como se conseguissem pequenos saltos evolutivos. Como algumas mutações que aumentam os recursos dos seres em ecossistemas em mudança, como tantas outras coisas que continuaremos a desconhecer.

Altos Cumes

de Tiago Patrício

Propriedade Descrição
ISBN: 9789895490240
Editor: Editora Labirinto
Data de Lançamento: dezembro de 2020
Idioma: Português
Dimensões: 119 x 196 x 4 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 42
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Poesia
EAN: 9789895490240

SOBRE O AUTOR

Tiago Patrício

Nasceu no Funchal em 1979 e viveu em Carviçais (Torre de Moncorvo) até aos 19 anos.
É licenciado em Ciências Farmacêuticas e estuda Literatura e Filosofia na Universidade de Lisboa.
Começou a ser publicado entre 2007 e 2010, nas colectâneas Jovens Escritores, do Clube Português de Artes e Ideias.
Venceu vários prémios em poesia (Daniel Faria, Natércia Freire) e teatro (Luso-Brasileiro) e publicou O Livro das Aves, Cartas de Praga, Checoslováquia.
Escreve para as companhias Estaca Zero e Ponto Teatro (Porto) e para a companhia teatromosca (Sintra).
Alguns dos seus textos estão publicados em França, Egipto, Eslovénia e República Checa. Trás-os-Montes é o seu primeiro romance.

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