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Acreditar nas Feras

de Nastassja Martin
Editor: Antígona, setembro de 2023 ‧
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Acreditar nas Feras (2019) narra o encontro brutal entre uma antropóloga e um urso na Sibéria, em 2015. Ele desfigurou-a, mas poupou-lhe a vida. Ela sobreviveu para contar este esmagador recontro, esta história «de um colapso e de uma ressurreição». Carregará consigo para sempre a marca da fera, ao tornar-se, segundo os Evenos, uma miedka, uma criatura habitada pelo espírito do animal e que vive entre dois mundos cujas fronteiras se estilhaçaram.

Relato construído ao ritmo das estações do ano, do qual não está ausente a dimensão política - a guerra fria entre Leste e Ocidente, travada no corpo de uma mulher, em intermináveis cirurgias e pernoitas em hospitais russos e franceses -, Acreditar nas Feras questiona uma humanidade que, no ensejo de tudo normalizar e controlar, esqueceu uma ligação ancestral e a pertença ao mundo natural.

«Uma exploração fascinante e ambiciosa do animismo e da fronteira entre humano e animal.»
John Self, The Guardian

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Coração selvagem

O que significa encontrar o selvagem, seja ele um urso, um gato, uma barata ou uma ideia? Estes encontros literários não são apenas físicos, mas também filosóficos, emocionais e até espirituais. Os encontros entre humanos e animais na literatura revelam muito mais do que simples interações entre espécies. Eles levam-nos a questionar a nossa identidade, a nossa superioridade presumida e os nossos instintos mais básicos. Seja na brutalidade de um ataque de urso, na complexidade emocional de cuidar de gatos, na crise existencial diante de uma barata ou na filosofia de vida dos felinos, cada um destes livros convida-nos a repensar a nossa relação com o mundo animal e, por consequência, connosco mesmos. A literatura mostra-nos que os animais não são apenas companheiros ou obstáculos. Nestes quatro livros, o contacto entre humanos e animais assume formas muito diferentes. Em Acreditar nas Feras, há um embate físico e espiritual com o selvagem. Em Todos os Meus Gatos, há um amor que se torna fardo. Em A Paixão Segundo G.H., um colapso existencial que revela o que há além da linguagem. Em Filosofia Felina, uma aprendizagem serena.
Os protagonistas destes livros são confrontados com o mundo animal de maneira simbólica ou real, resultando em experiências transformadoras. Vamos do filosófico ao visceral, do amoroso ao assustador.
O encontro final é o nosso, como leitores. Ler também é um ato de domesticar o selvagem – ao tentarmos compreender, organizar e nomear aquilo que nos escapa.
A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector Este é um dos encontros mais radicais entre humano e animal na literatura. A protagonista, G.H., é uma mulher de classe alta que, ao limpar o quarto da empregada, se depara com uma barata. O que poderia ser um momento trivial desencadeia uma verdadeira experiência mística. G.H., ao matar o bicho, passa por um episódio existencial avassalador. O animal, aqui, é um catalisador para uma profunda crise de identidade, levando a personagem a um estado de dissolução do ego e de confronto com o que há de mais primitivo nela. O encontro é um encontro com o avesso, com o inominável, com o grotesco e o sublime. Todo o livro é, à semelhança da própria barata, sem contorno. A Paixão Segundo G.H. coloca-nos diante do terror do desconhecido e da repulsa pelo que não conseguimos compreender. O livro questiona a separação entre humano e não-humano e sugere que, ao tentar eliminar o que nos incomoda, acabamos por nos deparar com a nossa própria fragilidade. Acompanhamos um colapso de identidade e uma revelação sobre a matéria bruta da vida, ao mesmo tempo que várias perguntas aparecem. O que significa existir? O que há por trás das palavras, dos conceitos, da cultura? Somos confrontados também nós, como leitores, com a barata, somos obrigados a lidar com ela, ao mesmo tempo que GH, numa epifania agonizante.
Clarice Lispector fala do sentimento de lugar, de pertencer de caber. Fala do ódio, do amor, do desejo de matar. Dessa experiência minúscula gigante.
Ao contrário dos outros livros desta lista, A Paixão Segundo G.H. não trata os animais como companheiros ou seres protegidos, mas como representantes do indizível. A barata é o que está fora da ordem humana, o que não pode ser domesticado ou racionalizado. O romance é sobre o confronto com o que existe além da linguagem. COMPRO NA WOOK! » Acreditar nas Feras, de Nastassja Martin Em Acreditar nas Feras, a antropóloga francesa Nastassja Martin narra uma experiência real e transformadora: o seu encontro direto com um urso selvagem nas montanhas da Sibéria. Em 2015, Martin foi atacada por um urso que quase lhe tirou a vida – e que a desfigurou gravemente, mas que, por razões que apresenta como quase míticas, a poupou da morte.
Neste livro, o embate com o urso é literal e simbólico – uma fusão entre humano e animal que dissolve fronteiras. O encontro é brutal e o momento não se encerra no ataque – pelo contrário, torna-se um ritual de passagem que redefine a autora e a faz repensar os limites entre humanidade e animalidade.
Nos povos habitantes da região onde ocorreu o ataque, há uma crença de que quem sobrevive a um encontro tão próximo com um animal selvagem se torna um miedka – uma criatura que pertence a dois mundos, o humano e o animal. A autora vê-se dividida entre esses dois polos: enquanto a sua face mutilada se reconstrói aos poucos, a sua identidade também se fragmenta e se reconfigura. O urso marcou-a fisicamente e simbolicamente, tornando-se parte dela, que carrega para sempre a marca da fera. Acreditar nas Feras é ao mesmo tempo um estudo antropológico e uma jornada pessoal de metamorfose. Martin mistura memória, reflexão antropológica e poesia para narrar essa transformação. Acompanhamos as estações do ano e a sua recuperação dolorosa no hospital. O livro desafia a visão ocidental tradicional da separação entre Homem e Natureza, sugerindo que essa fronteira é ilusória. O texto, por vezes febril, evoca a selvageria e a espiritualidade, levando o leitor a um estado quase onírico. A obra é uma profunda meditação sobre o que significa ser humano quando se vive à beira da animalidade. COMPRO NA WOOK! » Todos os Meus Gatos, de Bohumil Hrabal Nesta obra autobiográfica, o escritor checo Bohumil Hrabal narra a sua intensa e, por vezes, dolorosa relação com os gatos que vivem na sua casa de campo. Este autor, conhecido pelo humor mordaz e, até, impiedoso, e pela prosa crua, destila neste livro uma ternura inesperada e desesperada. No início, Hrabal descreve a sua conexão profunda com os gatos, o seu comportamento e a forma como eles lhe trazem conforto. No entanto, à medida que o número de gatos cresce, a alegria dá lugar à angústia. Ele vê-se incapaz de cuidar de tantos gatos e precisa de tomar decisões dolorosas para evitar que a situação saia do controlo. Aqui, o amor pelos animais confunde-se com culpa e impotência. À medida que os gatos se multiplicam e que os desafios de cuidar deles aumentam, o tom do livro muda. O livro transforma-se num drama existencial, onde a relação entre homem e animal revela as contradições do cuidado e do abandono.
O que começa como um relato afetuoso da vida ao lado dos gatos transforma-se num estudo sobre os dilemas morais que surgem ao tentar cuidar de animais num mundo imperfeito. Hrabal não idealiza os gatos, nem a sua relação com eles: há momentos de exaltação, mas também de angústia, especialmente quando precisa de tomar decisões difíceis. Todos os Meus Gatos retrata como os seres humanos projetam as suas emoções nos animais e, muitas vezes, se perdem entre afeto e sofrimento, e expõe as contradições do amor pelos animais – capaz das maiores ternuras, mas também de nos colocar frente a frente com a nossa impotência e falibilidade.
Todos os Meus Gatos não é um livro doce. É um relato incómodo sobre as limitações humanas diante da Natureza e da responsabilidade. A relação do autor com os seus gatos oscila entre a devoção e o desespero, mostrando que o amor por um animal pode ser tão intenso e torturante quanto qualquer relação humana.
Há a lenda de que Hrabal morreu ao cair de uma janela, enquanto tentava dar de comer aos pombos. Um último gesto de ternura pelos animais. Como se as verdadeiras feras, para ele, sempre tivessem sido as pessoas. COMPRO NA WOOK! » Filosofia Felina, de John Gray O filósofo britânico John Gray convida-nos a ver os gatos como professores sábios em Filosofia Felina – Os Gatos e o Sentido da Vida. Gray defende que as questões eternas sobre o propósito da vida e a felicidade podem ter respostas tão válidas vindas dos gatos quanto dos pensadores humanos. Fascinado pela maneira despreocupada e autêntica como os gatos vivem, ele propõe neste livro um guia para uma vida mais autêntica e sossegada, inspirado na sabedoria dos gatos. Gray combina reflexões de grandes filósofos com observações do comportamento felino, mostrando como os gatos, alheios às ansiedades e ambições humanas, têm muito a ensinar-nos. O resultado é um ensaio leve e profundo ao mesmo tempo, que encanta amantes de gatos e faz qualquer leitor refletir sobre como levar uma vida menos stressante e mais verdadeira (quem sabe, com um pouco mais de indiferença aristocrática felina em relação aos problemas mundanos). Enquanto os humanos se angustiam com o sentido da existência, os gatos simplesmente vivem – e, segundo Gray, há uma sabedoria nisso. O livro convida-nos a observar os felinos não como meros animais de estimação, mas como seres que têm muito a ensinar sobre liberdade, independência e prazer na simplicidade. Gray analisa pensadores como Schopenhauer e Montaigne para argumentar que talvez devêssemos abandonar as nossas preocupações existenciais e adotar um modo de vida mais próximo ao dos gatos: livres do tormento do passado e do futuro, vivendo apenas o presente. O livro apresenta-se como um pequeno tratado filosófico sobre o que significa viver bem, inspirado pelo comportamento dos gatos. Ao contrário dos outros livros desta lista, que mostram o encontro entre humanos e animais como um choque transformador, Filosofia Felina propõe uma convivência tranquila e harmoniosa. É um ensaio leve, mas cheio de provocações filosóficas. COMPRO NA WOOK! »

Acreditar nas Feras

de Nastassja Martin

Propriedade Descrição
ISBN: 9789726084433
Editor: Antígona
Data de Lançamento: setembro de 2023
Idioma: Português
Dimensões: 137 x 213 x 8 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 136
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Ciências Sociais e Humanas > Antropologia
EAN: 9789726084433

Intenso

Raquel Coelho

Um livro que retrata uma experiência autobiográfica, intenso e que nos faz pensar. Uma boa descoberta!

SOBRE O AUTOR

Nastassja Martin

Nastassja Martin (n. 1986) estudou Antropologia na École des hautes études en sciences sociales, especializando-se em povos do Ártico ameaçados pela exploração da terra e dos recursos minerais: os Gwich’in, no Alasca, e os Evenos, na península siberiana de Camecháteca, cujas línguas aprendeu. Entre glaciares e vulcões, ouviu o apelo da vida selvagem e desde então escreve a respeito dos confins, da margem, da liminaridade, da zona fronteira, do entre-dois-mundos; acerca desse lugar tão especial onde assumimos o risco de nos alterarmos, de onde é difícil regressar». É autora de¿Les âmes sauvages – Face à l’Occident, la résistance d’un peuple d’Alaska (2016).

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