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Abelhas cinzentas

de Andrei Kurkov
Livro eBook
Editor: Porto Editora, setembro de 2022 ‧
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Ucrânia, região do Donbass, 2017
Pequena Starhorodivka é uma aldeia de apenas três ruas em plena Zona Cinzenta ucraniana, a terra de ninguém entre as forças nacionalistas e separatistas. Devido à violência constante de uma guerra que se arrasta há anos, todos os habitantes abandonaram a aldeia, menos dois: Sergey Sergeyich e Pashka, dois animigos de infância. Juntos, encontram formas de sobreviver, no meio de constantes bombardeamentos que não se sabe bem de onde provêm ou quais os seus alvos. Naquela aldeia, o conflito perdera há muito qualquer tipo de sentido.
Sem eletricidade há meses, e com pouquíssima comida, Sergeyich tem um único prazer na vida: as suas abelhas. Com a chegada da primavera, o apicultor sabe que terá de as transportar para longe da Zona Cinzenta, onde elas poderão recolher o pólen em paz. Esta simples missão leva-o a conhecer combatentes e cidadãos dos dois lados da frente de batalha: nacionalistas, separatistas, ocupantes russos e tártaros da Crimeia. Para onde quer que vá, a inocência e simplicidade de Sergeyich, a par da sua moral irrepreensível, desarmam todos aqueles que encontra pelo caminho.
Em Abelhas cinzentas, Andrei Kurkov traça, fazendo uso do seu humor desconcertante, um assombroso retrato da terrível situação que o seu país atravessa, mostrando-nos que, mesmo nos contextos mais improváveis, e por vezes da forma mais absurda, a vida encontra forma de seguir o seu rumo.

«Vitória! Vitória!»
«E quem venceu?», perguntava Sergeyich, e depois ficava petrificado de medo ao ver outro morteiro a explodir, enquanto chuviscavam fagulhas em cima dele.
«Não sei», dizia Pashka. «Não importa. O que interessa é a vitória, acabou a guerra!»

«O estilo de Kurkov é conciso e eficaz, atraindo-nos com uma facilidade enganadora para um mundo denso e complexo, repleto de personagens maravilhosas.»

Michael Palin, escritor

Olhámos forçosamente mais a Leste, estamos um pouco mais atentos a Leste. E ganhámos com isso o maior conhecimento do trabalho de autores como Andrei Kurkov e o belíssimo Abelhas Cinzentas: a solidão de um homem num mundo cercado.

Isabel Lucas, Público

«Um romance doce e triste que capta, de forma acessível, os recentes eventos na Ucrânia.»

Elise Lépine, Le Point

«O andamento narrativo de Abelhas Cinzentas mais parece um contraponto direto, deliberado, ao dia a dia de violência militarizada totalmente fora das regras acordadas em convenções entre alguns países no mundo.(...) Abelhas Cinzentas nunca leva a juízos apressados por parte do seu narrador sobre o conflito em curso, ou tal como tem sido vivido e sofrido pelos ucranianos desde o começo.(...) Depois da leitura deste romance nunca mais veremos ou leremos uma reportagem como o fazíamos até agora sobre as vítimas da violência numa pequena e pobre aldeia ucraniana, ou como agora, numa grande cidade de nomes que desde 2014 nos eram provavelmente desconhecidos. »

Vamberto Freitas, Carma Insight Diário Insular

«Abelhas cinzentas é uma leitura indispensável nestes tempos de guerra. A literatura é o antídoto à barbárie e à desesperança.»

Philippe Chevilley, Les Echos

«Um Kafka pós-soviético.»

The Daily Telegraph

«Andrei Kurkov é um mestre do humor grotesco.»

Brigitte

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Wook se escreve na Ucrânia - Parte II

A CONTEMPORANEIDADE

A literatura ucraniana contemporânea centra-se frequentemente em temas de identidade, memória, e os desafios enfrentados pela sociedade ucraniana moderna. Desenvolveu-se, de certa forma, como uma resposta marcada e vívida às formas estáticas da literatura soviética tardia.
Os anos de 1990 ficaram marcados pelos poetas boémios e pela prosa modernista dos intelectuais. Com a independência da Ucrânia em 1991, muitos viram as suas condições de vida deterioram-se. Ilustração de Aurora Sant’Ana Alguns jovens escritores recorreram ao humor negro e elementos surrealistas, outros socorreram-se de um naturalismo rude para expressar este misto entre a liberdade recém-adquirida, o medo e a desfragmentação da sua realidade. A literatura ucraniana viu-se enriquecida com o discurso falado nas ruas, os dialetos e a condição bilingue, e temáticas sexuais que deram à sociedade uma compreensão profunda de si mesma.
No início do novo milénio, predominava o tema da pessoa abandonada, à procura de raízes e, após a Revolução de Dignidade da Ucrânia em 2014, surgiram temas diversos que retratam a história contemporânea mais recente do país.

OS MAIS ACLAMADOS ESCRITORES CONTEMPORÂNEOS UCRANIANOS

Debruçando-se sobre as complexidades da sociedade ucraniana moderna, explorando temas desde a identidade e memória a questões políticas e sociais, os escritores contemporâneos do país estão a ganhar um reconhecimento internacional crescente. Estes são os que mais conquistam leitores pelo mundo:

Andrei Kurkov (n. 1961)

Autor de uma vintena de romances, livros infantis e guiões de documentários, Kurkov tornou-se um dos mais famosos escritores ucranianos da atualidade, traduzido em 42 línguas, após a publicação de A Morte e o Pinguim. Neste romance, assassinatos contratados, jornalistas executados, corrupção política desenfreada e um ambiente de profundo caos moral alimentam a trama, criando uma imagem humoristicamente sombria da vida ucraniana, espelhando a difícil realidade.   Nas suas obras, mistura elementos de surrealismo e sátira, usando com perspicácia a língua em que escreve, o russo. Assim é em Abelhas Cinzentas, uma metáfora sobre o absurdo da guerra, de 2018. O livro conta a história do apicultor Sergei e do seu vizinho e «animigo» Pashka, os únicos que restam numa aldeia na zona cinzenta do Donbass, a terra de ninguém, sob ocupação russa, onde as forças de Kiev combatem os separatistas. O apicultor viaja através da linha da frente com as suas colmeias, para as salvar, percorrendo ainda as regiões ocupadas de Zaporíjia e da Crimeia.
Os livros de Kurkov, já premiado com o International Booker Prize, são censurados pela Rússia, onde estão proibidos desde 2005.

Serhij Zhadan (n. 1974)

Conhecido pelo seu ativismo e envolvimento tanto na vida política como cultural ucraniana, Zhadan é um escritor que alcança uma grande comunidade de leitores nacional e internacionalmente. Tem já sete romances publicados, mas foi na poesia que se estreou. Em 1990, os seus versos revolucionaram a poesia ucraniana: eram menos sentimentais, revivendo o estilo dos escritores de vanguarda ucranianos da década de 1920.
Zhadan inspira-se na sua pátria, nas paisagens industriais da Ucrânia Oriental, tendo como cenários principais as regiões operárias de Slobozhanshchyna e do Donbass. O seu estilo alterna entre o calão de rua e metáforas explosivas (muitas vezes religiosas), focando-se na vida de grupos marginalizados, tais como a classe trabalhadora e a subcultura juvenil. Apresenta-nos um mundo que experimentou uma mudança radical, mas que continua a viver da tradição, apesar da destruição e da guerra. A linguagem única de Zhadan fornece um retrato vívido, diferenciado e impressionante desta realidade, contando histórias de pessoas desafiantes que contrariam o medo e a destruição.   Em Internato, acompanhamos Pasha, um jovem professor que procura trazer para casa o seu sobrinho de 13 anos que se encontra num internato, numa cidade do leste ucraniano (Donbass) transformada num cenário de guerra. Atravessá-la é um teste de sobrevivência, entre as explosões das minas, estradas destruídas, sem transportes ou redes telefónicas, mulheres, crianças e homens velhos desamparados. Com uma arte narrativa apelidada pela crítica de Jazz verbal, que transforma palavras em desconcertantes imagens, Zhadan descreve, com rigor e um lirismo poético, como a guerra transforma uma paisagem outrora familiar numa realidade apocalíptica, onde a destruição e o medo imperam. O livro tem já uma adaptação ao cinema, The Wild Fields. Depeche Mode, Voroshilovgrad, A Harvest Truce e Mesopotamia, são outros romances acutilantes de Zhadan que podem ser lidos na tradução para inglês.

Oksana Zabuzhko (n. 1960)

É uma das mais lidas intelectuais e escritoras, poetas e ensaístas ucranianas, combinando ficção com o seu próprio imaginário, estilo e ideias filosóficas. A luta de Zabuzhko pela emancipação da cultura ucraniana em relação aos dogmas russos e soviéticos é-lhe tão cara como a luta pela emancipação da mulher.
O seu romance Fieldwork in Ukrainian Sex, publicado em 1996, é considerado o livro mais influente do período da pós-independência da Ucrânia, tendo permanecido na lista dos mais vendidos durante mais de uma década. Embora seja uma história de amor no seu cerne, é também autobiográfico, e explora a história do povo ucraniano. A autora discorre sobre a crise de identidade que sentiu aos seus 30 anos e que coincidiu com a vivida pelo seu país, 15 anos após a independência, com as inerentes questões pós-coloniais, discorrendo ainda sobre relações de género e estereótipos culturais. Oksana abordou a sexualidade feminina com uma abertura que causou choque e entusiamos entre os leitores ucranianos.   Museum of Abandoned Secrets é o seu romance mais épico, viajando entre diferentes épocas (II GM, URSS estalinista e atualidade) e refletindo sobre como a Ucrânia pode reviver a sua cultura nacional após décadas de opressão cruel de regimes totalitários. Em 2020, publicou Your Ad Could Go Here, um livro de contos de arrebatadores, em que explora como as coisas são, e como poderiam ser.

A literatura ucraniana é uma componente vital do património cultural da nação. Tem ajudado a moldar a identidade do país, a promover o uso da língua ucraniana e a oferecer uma perspetiva única sobre a história e o futuro da nação. Pelas suas vivências, os escritores ucranianos têm criado obras que são um retrato da humanidade no seu estado mais puro e que devem, mesmo, ser lidas.









Nota: Este artigo foi originalmente publicado na Revista Wookacontece n.º 9 , em Maio de 2023

Abelhas cinzentas

de Andrei Kurkov

Propriedade Descrição
ISBN: 978-972-0-03598-1
Editor: Porto Editora
Data de Lançamento: setembro de 2022
Idioma: Português
Dimensões: 152 x 235 x 23 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 372
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 978972003598110
Idade Mínima Recomendada: Não aplicável

Excelente

A.R.

Este escritor russo, que vive na Ucrânia, conta-nos, neste romance, a história de um apicultor que habita uma aldeia situada na chamada "faixa cinzenta", entre território ucraniano e território controlado pelos russos. Dessa aldeia fugiram já todos os habitantes, excepto dois, que sobrevivem sem electricidade e sem serviços básicos, sob os bombardeamentos que ocorrem entre os dois lados inimigos. É uma história fantástica, que nos permite conhecer a forma como os cidadãos comuns, que só querem viver a sua vida em paz, tentam ultrapassar as numerosas dificuldades que se lhes deparam no dia-a-dia de um conflito que começou muito antes do que os "media" ocidentais nos fazem crer. Diria que é de leitura obrigatória!

O Cinzentismo da Guerra

AllbyMyShelves

Com a história de um apicultor que decide permanecer na sua habitação na designada"zona cinzenta"durante disputa entre separatistas pró-russos e ucranianos,Kurkov descreve,de uma forma caricata,mas profundamente angustiante,como é (sobre)viver no"meio"de um conflito armado.Como é (sobre)viver isolado, a desejar o que consideramos básico,(sobre)viver num"silêncio" de explosões,quando longínquas e às quais se acaba por habituar,ou sob o som estridente das que abanam todas as estruturas-físicas e psicológicas. Mas também nos mostra como um propósito,perante uma situação tão avassaladora,nos pode salvar.No caso de Sergey,esse propósito é o bem estar das suas abelhas,que lhe servem de sustento.É por elas,para que possam livremente executar a sua função,que abandona a sua Pequena Starhorodivka e viaja até à Crimeia.É com elas que percebe que aqueles que se dizem libertadores são, na verdade, um entrave à liberdade e um perigo para si e para as suas abelhas. Por vezes,tive a sensação de a história ter vários momentos repetitivos.Depois dei por mim a refletir que,perante o contexto que serve de pano de fundo,não faria sentido que fosse de outro modo. Assim, só posso recomendar este livro, tão esclarecedor sobre início de um conflito que dura há muito mais tempo do que os 9 meses sobre os quais temos maior consciência.

SOBRE O AUTOR

Andrei Kurkov

Andrei Kurkov, nascido em São Petersburgo em 1961, vive em Kiev desde a infância e escreve em russo. Estudou línguas estrangeiras, trabalhou como editor jornalístico e, durante o serviço militar, foi guarda prisional.
Mais tarde, escreveu inúmeros argumentos para cinema e televisão.Com o romance A morte e o pinguim, já publicado pela Porto Editora, alcançou o estatuto de um dos mais famosos escritores ucranianos contemporâneos. Os seus livros encontram-se publicados em 42 línguas.
É um autor freelance desde 1996 e vive na Ucrânia com a família.

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