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Revolucionários e Querubins

by José Martins Garcia
Publisher: Companhia das Ilhas, December of 2019 ‧
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«Numa sociedade revolucionariamente ruidosa, é ao silêncio que os querubins estão destinados. Os verdadeiros querubins apodrecem na solidão. Depois de um entusiasmo genuíno com a possibilidade de virem a transformar o mundo, soçobram quando se apercebem da «real insignificância do seu respirar». Os ensinamentos que nos deixam advertem-nos para o risco de se acreditar na liberdade política. Esta não passará jamais de uma «ocasional faísca […] sucessivamente anulada pela cegueira dos átomos». O sábio sabe que não pode falar de liberdade sem colocar a sua vida em risco. Assim se comporta o escritor: rodeado de detritos, ciente da podridão nauseabunda que infesta a vida social, enfrenta diariamente a morte, mas usa o resto das suas forças para a desarmar, armando-se, de seguida, com «o amor possível» com que enche folhas e as vê dispersas numa caligrafia instável. Diferente do revolucionário e do querubim, ele persiste na afirmação da liberdade pela escrita.
O revolucionário, uma vez no poder, nunca mais sai de casa: sem incertezas ou hesitação, perde o contacto com a população, dá ordens que destoam das necessidades do país, isola-se num poder totalitário e violento que mergulha a sociedade num irreversível eclipse. O querubim remete-se à mudez, apregoa o silêncio, descrê da liberdade. É alvejado ao lado do seu balde de ódio e, envergonhado, pede desculpa por tudo, excepto por existir. o escritor apoia-se em dúvidas, loucuras e palavras para berrar numa caligrafia inquieta que o país é uma corja. e desse modo afirma, pela criação literária, a sua liberdade.»

Leonor Sampaio da Silva

Revolucionários e Querubins

by José Martins Garcia

Property Description
ISBN: 9789898828996
Publisher: Companhia das Ilhas
Release Date: December of 2019
Language: Portuguese
Dimensions: 142 x 223 x 12 mm
Cover: Softcover
Pages: 216
Format: Book
Collection: Obras de José Martins Garcia
Categories: Books in Portuguese > Fiction > Romance
EAN: 9789898828996

ABOUT THE AUTHOR

José Martins Garcia

José Martins Garcia nasceu na Criação Velha, ilha do Pico, a 17 de fevereiro de 1941. No então Liceu Nacional da Horta fez uma parte dos seus estudos. Os bons resultados escolares deram-lhe acesso a uma bolsa da Junta Geral, o que lhe permitiu completar o curso liceal no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, cidade onde se licenciou em Filologia Românica pela Faculdade de Letras.

No ano letivo de 1964-65 foi professor eventual no Liceu da Horta. Chamado a cumprir serviço militar, em 1965, foi mobilizado para a Guiné, aí permanecendo de 1966 a 1968, experiência que se projeta em Lugar de Massacre (1975), um dos primeiros romances portugueses a abordar a guerra em África, incluído por Rui de Azevedo Teixeira no grupo dos oito romances obrigatórios, canónicos, da literatura da Guerra Colonial. Essa experiência acabaria por pontuar, sob diversas formas e em diferentes circunstâncias, o conjunto da sua obra.

Entre 1969 e 1971 foi leitor de Português na Universidade Católica de Paris. De regresso a Portugal, lecionou na Faculdade de Letras de Lisboa entre 1971 e 1979. Neste ano rumou aos Estados Unidos como professor visitante da Brown University (Providence), aí permanecendo até 1984; o rasto desse tempo americano é detetável em Imitação da morte e no livro de poemas Temporal.

De seguida ingressou na Universidade dos Açores, onde se doutorou com uma tese sobre Fernando Pessoa, Fernando Pessoa: coração despedaçado, escrito precisamente durante a sua permanência nos Estados Unidos e graças às condições de investigação aí encontradas, como o próprio autor confessa na apresentação da obra; a tese representa a sucessiva expansão de um projeto inicial de recensão crítica a um livro sobre o poeta dos heterónimos. Na Universidade dos Açores foi o responsável pela introdução da cadeira de Literatura Açoriana nos planos curriculares das licenciaturas em Línguas e Literaturas Modernas, da qual foi docente durante alguns anos, e ocupou os cargos de Vice-Reitor e diretor da revista Arquipélago-Línguas e Literaturas, tendo terminado a sua carreira académica como Professor Catedrático.

A sua relação com a imprensa de Lisboa está atestada pela colaboração no suplemento Letras e Artes do jornal República (1972-1974), onde publicou uma boa parte das críticas e ensaios reunidos em Linguagem e Criação (1973), bem como as crónicas de Katafaraum é numa nação (1974). Entre 1973 e 1974 foi ainda crítico literário da Vida Mundial; colaborou igualmente n’A Capital e no Diário de Notícias, prolongando-se a colaboração neste último até fevereiro do ano seguinte. Em fevereiro de 1976 passou a exercer as funções de diretor-adjunto do Jornal Novo.

A partir do início dos anos setenta, como refere Ricardo Jorge, José Martins Garcia torna-se «um dos mais assíduos colaboradores de Fernando Ribeiro de Mello nas Edições Afrodite», onde, aliás, publicou parte da sua obra, a começar por Alecrim, alecrim aos molhos (1974) e a prolongar-se em obras de referência como Lugar de Massacre (1975), A fome (1977) e Revolucionários e Querubins (1977). Além disso, a sua colaboração com Fernando Ribeiro de Mello traduziu-se na escrita de prefácios, na organização de antologias e na tradução, substituindo, com as devidas distâncias, «a conterrânea Natália Correia como referência literária da Afrodite», na opinião de Pedro Piedade Marques.

José Martins Garcia faleceu em Ponta Delgada a 3 de Novembro de 2002.

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