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Primavera Autónoma das Estradas

by Mário Cesariny
Publisher: Assírio & Alvim, October of 2017 ‧
15,50€
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Nas palavras de Perfecto E. Cuadrado, no posfácio que escreveu para esta edição, «¿A primeira edição de "Primavera autónoma das estradas" apareceu na Assírio & Alvim em 1980. Passados vinte e cinco anos, o autor fez a revisão do texto para uma nova edição que só agora regressa definitivamente ao abrigo da mesma editora com que Mário acabaria "consubstanciando-se", como Álvaro de Campos dizia da relação de Alberto Caeiro com o (novo) paganismo. Mudou alguma coisa? Mudou, sim, apesar das afirmações joco-sérias de Mário quando em duas ou três cartas me jurava que "nunca tinha mudado uma única palavra" no percurso das edições sucessivas da sua obra poética.»
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A primavera é um lugar sem dono – II: Cesariny, Slimani e Turguêniev

Os livros que escolho nesta altura procuram relacionar-se com a primavera: com o gesto da abertura, o começo, o regresso da luz. E nem sempre a primavera é doce: há nela um sobressalto, uma urgência, uma inquietação que combina bem com certas leituras. Depois de Mrs. Dalloway, aqui ficam quatro livros que atravessam, cada um à sua maneira, esta estação de luz e sombra. São obras que evocam o florescimento, o desejo, o devir, e também a solidão, o tempo e o abismo que se esconde nos gestos mais leves. A primavera autónoma das estradas, de Mário Cesariny Aqui a primavera é errância, desejo e insubmissão. A linguagem é vertiginosa, e sobressai o erotismo do fora-da-lei, do que não aceita molduras.
As “estradas” de Cesariny são caminhos de fuga, mas também de criação: o espaço onde o corpo se liberta e o amor se escreve com desobediência.
Com poesia, ensaio, colagem e gesto performativo, lemos a deambular. A autonomia de que se fala é radical: a de ser, amar e escrever fora da norma.
Um livro para quem entende a primavera como insurreição do corpo e da linguagem. Um livro que denuncia a própria estrutura, na sua multiplicidade de formas, do soneto à prosa, à redondilha, às colagens. Profundamente surrealista, impede um efeito imediato e unitário de sentido.
No contexto pós-25 de Abril, este livro pode ser lido como um gesto de tomada de voz, não apenas política, mas ontológica. A Primavera é aqui o instante onde se reclama a autonomia do corpo, do desejo e da palavra. É um tempo libertado de calendários e fronteiras, onde a estrada é mais do que metáfora: é meio de transformação. A radicalidade formal da escrita, com uso de citações, cruzamento de línguas e estilos, faz do livro uma espécie de diário performativo da desobediência.
A poesia não é apenas afirmação de identidade: é também recusa.
A escrita de Cesariny rompe com a sintaxe normativa, subverte convenções e afirma uma poética do errante. COMPRO NA WOOK! » O Perfume das flores à noite, de Leïla Slimani Neste pequeno livro-confissão, Leïla Slimani escreve a partir de uma experiência muito concreta: uma noite solitária passada no Palazzo Fortuny, em Veneza, como parte de uma residência literária. Mas a noite transforma-se em espelho: Slimani evoca a infância em Marrocos, a maternidade, o medo, a sexualidade, o cansaço de ser «uma mulher árabe bem-sucedida». A primavera aqui não é cenário. Está no perfume das flores, no escuro que antecede o dia, na ambivalência entre recolhimento e exposição. A escrita de Slimani é direta, mas não simplista. Questiona a noção de autenticidade, o lugar da escritora no mundo, e como habitar um corpo que é, ao mesmo tempo, desejo e política.
A autora reflete sobre o corpo feminino, a maternidade, a solidão, a sexualidade, o medo e a tensão entre identidade pública e vida privada. A escrita é um lugar de busca e de exposição, mas também de defesa. A Primavera, se está presente, é como um gesto interno de abertura, que acontece apesar do silêncio.
Slimani dialoga com outras escritoras, como Marguerite Duras, e afirma uma posição crítica sobre o lugar da mulher na literatura e na sociedade.
A proposta do livro, centrada na reflexão sobre a criação artística, torna-se um pretexto para uma autoescrita íntima e inquieta, que se vai adensando com o avançar da noite. A noite, mais do que a primavera, é o tempo simbólico da obra. Mas o título evoca o florescimento noturno, a fragilidade do perfume, o que acontece no escuro.
O texto desenvolve-se num limiar entre o diário, o ensaio e a narrativa pessoal. O estilo de Slimani é direto, lúcido, despojado, mas nunca superficial.
O texto é tanto uma confissão quanto uma cartografia das inquietações de uma escritora que sabe que escrever é, muitas vezes, estar só com as perguntas. COMPRO NA WOOK! » Águas de Primavera, de Ivan Turguêniev Publicado em 1872, Águas de Primavera é um romance breve que condensa vários dos temas caros a Turguêniev: a memória, a juventude, a idealização do amor e a tensão entre ação e hesitação.
O protagonista, Dimitri Sanin, é um homem de meia-idade que, ao encontrar um objeto do passado, entra numa recordação de um amor intenso vivido em Frankfurt, num dia quente de Primavera, quando se apaixonou por Gemma Roselli.
Neste curto e delicado romance conhecemos Dimitri, o homem que recorda este episódio da juventude. A memória de Gemma, um beijo num jardim, uma decisão impensada, tudo isso compõe a narrativa. Turguêniev escreve com contenção e melancolia. A primavera aqui é o tempo da juventude, da possibilidade e também do erro. O livro é uma elegia àquilo que se perde, não por fatalidade, mas por hesitação, orgulho, cobardia. São as águas da estação e também as águas que arrastam: aquilo que passa, aquilo que não volta. A fluidez da água alude à inevitabilidade da passagem do tempo, e à irreversibilidade das decisões não tomadas. O romance situa-se entre a nostalgia e a crítica da inação — uma reflexão sobre o modo como os gestos não feitos moldam o destino…
A escrita de Turguêniev é sóbria, descritiva, emocionalmente subtil. A sua melancolia é civilizada, quase clássica. O amor é apresentado não como êxtase, mas como experiência formadora e, em última instância, dolorosa. O arrependimento funciona como eixo ético e psicológico da narrativa. COMPRO NA WOOK! »

Primavera Autónoma das Estradas

by Mário Cesariny

Property Description
ISBN: 978-972-37-1991-8
Publisher: Assírio & Alvim
Release Date: October of 2017
Language: Portuguese
Dimensions: 147 x 205 x 17 mm
Cover: Softcover
Pages: 216
Format: Book
Collection: Obras de Mário Cesariny
Categories: Books in Portuguese > Fiction > Poetry
EAN: 978972371991810
Recommended Minimum Age: Not applicable

ABOUT THE AUTHOR

Mário Cesariny

Poeta, autor dramático, crítico, ensaísta, tradutor e artista plástico português, nasceu a 9 de agosto de 1923, em Lisboa, e morreu a 26 de novembro de 2006, também naquela cidade.
Depois de ter estudado no Liceu Gil Vicente, entrou para Arquitetura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, onde frequentou o primeiro ano, e mudou depois para a Escola de Artes Decorativas António Arroio. Depois de ter frequentado esta escola, prosseguiu estudos de belas-artes em Paris, tendo, ainda, estudado música com o compositor Fernando Lopes Graça.
Figura maior do surrealismo português, a influência que viria a exercer sobre as gerações poéticas reveladas nas décadas posteriores aos anos 50, período durante o qual publicou alguns dos seus títulos mais significativos, ainda não foi suficientemente avaliada. Promoveu a técnica conhecida por "cadáver esquisito", que consistia na elaboração de uma obra por um grupo de pessoas, num processo em cadeia criativa, na qual cada uma dava seguimento à criatividade da anterior, resultando numa espécie de colagem de palavras, a partir apenas de um acordo inicial quanto à estrutura frásica.
Colaborou em várias publicações periódicas como Jornal de Letras e Artes e Cadernos do Meio-Dia, entre outras. Começou por se interessar pelo movimento neorealista - ainda que essa breve incursão não tenha ultrapassado mais que uma postura irónica e paródica, firmada em Nicolau Cansado Escritor - para, em 1947, regressado de Paris, onde frequentou a Academia de La Grande Chaumière e onde conheceu André Breton, fundar o movimento surrealista português.
A sua postura polémica na defesa de um surrealismo autêntico levou-o, porém, a deixar o grupo no ano seguinte, para criar, com Pedro Oom e António Maria Lisboa, o grupo surrealista dissidente.
Como um dos principais críticos e teóricos do movimento surrealista, manteve ao longo da sua carreira inúmeras polémicas literárias, quer contra os detratores do surrealismo quer contra os que, na prática literária, o desvirtuavam.
A sua obra poética começou por refletir, em Corpo Visível ou Discurso Sobre a Reabilitação do Real Quotidiano, o gosto pela observação irónica da realidade urbana que, fazendo-se eco de Cesário Verde, constitui ainda uma fase pouco significativa relativamente a volumes próximos da prática surrealista como Manual de Prestidigitação. Aí, a mordacidade e o absurdo, o recurso ao insólito, aliados a uma discursividade que raramente envereda por um nonsense radical, como ocorre na obra de António Maria Lisboa, permitem estabelecer, como nenhum outro autor da década de 50, um ponto de equilíbrio entre o primeiro modernismo e a revolução surrealista.
No domínio do teatro, em Um Auto Para Jerusalém, pastiche de um conto de Luís Pacheco, revela a influência de Pirandello ou da prática teatral de Alfred Jarry. No fim da década de 60 e início de 70, Mário de Cesariny encetou um trabalho de reposição da verdade histórica do movimento surrealista, coligindo os seus manifestos, editando a obra poética inédita de alguns dos seus representantes, e dando ao prelo textos seus datados do período de maior envolvimento com a teoria e prática do surrealismo, como 19 Projectos de Prémio Aldonso Ortigão seguidos de Poemas de Londres (1971), ou Primavera Autónoma das Estradas (1980) ou Titânia (1977).
Em 2005, recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, entregue pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, e, em novembro desse mesmo ano, foi galardoado com o Grande Prémio Vida Literária, uma homenagem à sua notável contribuição para a literatura portuguesa.

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