10% OFF

A Morte em Veneza

by Thomas Mann
Publisher: Relógio D'Água, November of 2005 ‧
15,00€
10% OFF CARD
IN STOCK -

«E entre palavras delicadas e graças espirituosas, Sócrates ensinava a Fedro o desejo e a virtude. Falou-lhe do temor ardente que acomete o homem sensível quando os seus olhos vislumbram uma semelhança do belo eterno: falou-lhe da avidez do homem ímpio e vil, incapaz de pensar o belo ao ver a sua imagem, incapaz de veneração; falou do medo sagrado que invade o homem nobre quando contempla uma face divina, um corpo perfeito - como então estremece e sai fora de si, mal ousando olhar, e como venera aquele que é belo, sim, como se ofereceria em sacrifício a este ídolo, se não receasse parecer ridículo aos olhos dos homens.»

Livros-filmes-640x426.jpg

Da página ao ecrã [c/trailers]

Há um ato íntimo e, paradoxalmente, público que atravessa a leitura e o cinema: o de imaginar. Quando lemos, o mundo ergue-se dentro de nós; quando vemos, o mundo é-nos oferecido como matéria sensível, já iluminada, montada, ritmada. A adaptação é uma leitura do livro, uma interpretação. E, no entanto, continuamos a exigir fidelidade como se a literatura e o cinema fossem línguas irmãs com dicionário comum. O que estes seis títulos mostram, cada um à sua maneira, cada um com as suas falhas e prodígios, é o que perdeu e o que foi encontrado ao mudar de forma. A Odisseia , de Homero O mito como máquina de imagens
Poucos textos são tão fundadores quanto A Odisseia: uma narrativa de regresso (nostos), e uma meditação sobre identidade, memória e reconhecimento. Ulisses é o homem de muitos recursos, um protagonista que conquista com astúcia, com máscaras, com linguagem. A epopeia, sendo herdeira da oralidade, avança em episódios que funcionam como ilhas narrativas: cada encontro (o Ciclope, Circe, as Sereias) é uma prova moral tanto quanto física, e cada hospitalidade aceite ou recusada desenha um mapa ético do mundo.
A notícia de que Christopher Nolan prepara a sua adaptação traz inevitavelmente uma pergunta: como filmar um poema que já é, ele próprio, uma tecnologia de imagens mentais? A produção está marcada para estreia a 17 de julho de 2026, e a comunicação oficial aponta para um grande evento cinematográfico, e uma ambição declaradamente épica.
O que poderá Nolan acrescentar a um texto que parece já conter toda a arquitetura do imaginário ocidental? Talvez precisamente aquilo em que o realizador mais insiste: a forma como o tempo se organiza. Se a epopeia trabalha por repetições, digressões e regressos (como uma maré narrativa), o cinema de Nolan tem feito do tempo uma personagem. O que significa voltar? O que significa reconhecer? O que significa chegar a casa e já não ser o mesmo?
A adaptação, ainda por estrear, será inevitavelmente uma escolha: que episódios ficam, quais se tornam elipse, onde se fixa o coração dramático. E, no caso de A Odisseia, o coração é o teste da permanência: de Penélope, de Ítaca, do próprio nome Ulisses. Saberemos, então, se o cinema contemporâneo consegue ainda tratar o mito como espelho moral: aquele em que, há milénios, continuamos a reconhecer as nossas tentações e os nossos regressos. QUERO LER!» A Morte em Veneza, de Thomas Mann A novela de Thomas Mann é uma peça de precisão: aparentemente simples, mas carregada de camadas onde estética, desejo e decadência se enredam. Veneza é um estado de espírito, uma cidade que respira beleza e apodrecimento. O protagonista, Gustav von Aschenbach, é um homem da disciplina e do culto formal, e é precisamente por isso que a sua queda (o fascínio por Tadzio, esse fulgor juvenil quase irreal) se torna uma tragédia estética: Uma paixão e um colapso de uma filosofia de vida.
O cinema de Luchino Visconti, em 1971, entende que esta história não pode ser contada sem atmosfera, ritmo, uma lentidão quase hipnótica, e música. E toma uma decisão que mudou para sempre a receção da obra no ecrã: no filme, Aschenbach deixa de ser escritor e passa a ser compositor, permitindo que a música, em particular Mahler, se torne a voz interior que a literatura narrava com subtileza.
A adaptação é uma troca: perde-se parte da ironia e da distância narrativa que Mann tão finamente administra, ganha-se uma corporalidade sensorial. O rosto de Dirk Bogarde, a maquilhagem que se desfaz, o suor que denuncia a ruína: tudo isto é cinema a dizer o que o texto sugere: que a obsessão estética pode ser uma forma de autoaniquilação.
Talvez a grande pergunta, e o grande mérito, desta adaptação seja a forma como Visconti filma o desejo. Veneza, com a sua luz e a sua água é cumplicidade. E neste pacto entre cidade e personagem, Visconti transforma Morte em Veneza numa elegia sobre a beleza. QUERO LER!» Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago José Saramago escreveu Ensaio sobre a Cegueira como uma experiência extrema: uma alegoria onde a cegueira é uma metáfora de colapso moral e cívico. Com frases longas, pontuação singular e ausência de nomes próprios, Saramago produz uma sensação de vertigem ética: é como se a linguagem, ao recusar etiquetas fáceis, dissesse que qualquer pessoa pode ser aquela pessoa, que a barbárie é uma possibilidade comum.
O filme de Fernando Meirelles (2008) enfrentou, por isso, um desafio quase impossível: como traduzir para imagem aquilo que, no livro, é sobretudo uma voz: a do narrador omnisciente, irónico e compadecido, que conduz o leitor por entre o horror e a lucidez? A solução cinematográfica passa pela materialidade: a “cegueira branca” como agressão visual, a quarentena como claustrofobia, o som como ameaça. Há cenas em que o cinema consegue aquilo que a literatura apenas sugere: a degradação como corpo, o medo como ruído, a violência como desorganização do espaço.
Mas a adaptação também expõe um limite: sem a textura verbal de Saramago, o risco é a história tornar-se mais literal, mais próxima do thriller distópico do que da parábola moral. E isso ajuda a explicar as leituras divididas que o filme suscitou, inclusive com polémica pública e protestos nos EUA, aos quais o autor respondeu defendendo o sentido alegórico da obra.
Talvez a forma mais justa de olhar para esta adaptação seja reconhecer o seu dilema: o cinema pode filmar a cegueira, mas não pode reproduzir a experiência de leitura que o livro constrói, essa sensação de caminhar num corredor sem corrimão, guiado apenas por uma voz que alterna entre compaixão e sentença. O filme é uma interpretação válida, por vezes poderosa; o livro continua a ser o lugar onde a cegueira nos acusa com maior elegância e ferocidade. QUERO LER!» O Leitor, de Bernhard Schlink O Leitor vive num território delicado, entre a intimidade e a História, o desejo e a responsabilidade, a memória e o julgamento. A relação entre Michael e Hanna começa como iniciação erótica e ritual de leitura, mas o romance desloca-se, com crueldade lenta, para a questão maior: o que fazer com o passado quando ele se senta à nossa frente e pede compreensão? Schlink escreve com uma clareza quase jurídica, e talvez por isso o desconforto seja tão eficaz: não há grandes explosões estilísticas, há a insistência do dilema.
A adaptação de Stephen Daldry (2008) trouxe ao ecrã um filme de elegância clássica, sustentado por interpretações que se tornaram parte da memória cultural do título. O filme faz uma aposta: transforma o romance num melodrama contido, onde a emoção se torna argumento. A consagração de Kate Winslet (incluindo o Óscar de Melhor Atriz) fixou a personagem de Hanna como figura trágica, o que alimentou também críticas: haverá, nesta abordagem, um risco de estetização do horror histórico, uma tendência para converter a culpa em páthos?
O que o livro tem de mais perturbador, a sua recusa em oferecer conforto moral, nem sempre se mantém intacto no ecrã. Mas o filme encontra, por outro lado, algo muito cinematográfico: o modo como a leitura, no corpo, pode ser simultaneamente ternura e poder; como a alfabetização pode ser libertação e vergonha; como a voz que lê pode criar uma intimidade que não absolve ninguém.
O Leitor é um filme sobre o que significa amar alguém cujo passado nos repugna. E sobre como a História, quando se infiltra na vida privada, nunca chega sem custo. QUERO LER!» O Fiel Jardineiro, de John le Carré John le Carré sempre soube que o thriller é uma forma literária séria: um modo de falar de poder, de corrupção e de cumplicidade. O Fiel Jardineiro (2001) é, nesse sentido, exemplar: começa com a morte de Tessa e transforma o luto de Justin numa investigação que descobre uma teia de interesses onde diplomacia, indústria farmacêutica e cinismo institucional se protegem mutuamente.
O filme de 2005, realizado por Fernando Meirelles, é uma adaptação particularmente feliz porque compreende duas coisas ao mesmo tempo: a dimensão política e a dimensão íntima. O cinema tem um instrumento que a literatura usa de outra maneira: o choque do real. Filmando com pulsação quase documental e dando ao espaço (o Quénia, as periferias, as sedes burocráticas) um peso moral, a adaptação faz da geografia uma acusação.
Ao mesmo tempo, o filme inclina-se para a elegia: a história é contada como memória ferida, como tentativa de reconstruir quem foi Tessa e quem Justin se torna ao perdê-la. O romance tem uma complexidade informativa e conspirativa que o cinema necessariamente simplifica. Em troca, o filme oferece uma corrente emocional que dá corpo ao porquê da investigação.
A adaptação mostra o seu melhor lado, traduzir esse lugar onde o mal raramente é um vilão isolado e quase sempre é um sistema inteiro a funcionar com eficiência. QUERO LER!» Uma boa adaptação não substitui o livro, empurra-nos de volta para ele, com novas perguntas, outras luzes, outras sombras. E é nesta conversa entre formas, não na hierarquia entre elas, que a literatura e o cinema continuam a fazer o que sempre fizeram: ensinar-nos a olhar.

A Morte em Veneza

by Thomas Mann

Property Description
ISBN: 9789727087983
Publisher: Relógio D'Água
Release Date: November of 2005
Language: Portuguese
Dimensions: 137 x 211 x 8 mm
Cover: Softcover
Pages: 86
Format: Book
Categories: Books in Portuguese > Fiction > Romance
EAN: 9789727087983
Recommended Minimum Age: Not applicable

Esta obra é uma leitura comovente e uma meditação sobre a morte.

Fábio Polónio

Eis um texto que me assustou e que fico feliz por ter conseguido penetrar com deleite e concentração, porque é verdade que a fera é austera e não se oferece facilmente. Também demonstrou implacavelmente neste romance que o confronto com a beleza pura, "a única ideia que se pode contemplar", conduz inevitavelmente à ideia da morte. Antes de abrir o livro, tinha a recente impressão de "Morte em Veneza" na retina e no ouvido, como uma fotomontagem do filme de Visconti tendo como pano de fundo a Quinta Sinfonia de Mahler. Estas imagens, centradas na busca do artista idoso Gustav von Aschenbach pela dolorosa beleza do efebo Tadzio na praia de Veneza, estão perfeitamente sincronizadas com a sinopse do conto e as emoções intensas que a pena precisa de Thomas Mann evoca. Além disso, ajudaram-me a mergulhar mais fundo nas profundezas do texto, desde a humidade fétida de Veneza à transição do homem mais velho da integridade rigorosa para a loucura do amor, e até à esplêndida e sepulcral cena final.

História de um deslumbre

https://nointeriordoslivros.blogspot.com/

A Morte em Veneza figura entre os livros que mais me marcaram até hoje. É um livro pequenino, mas que tem um mundo dentro dele. A história é a de um deslumbre - uma paixão insidiosa - de um homem mais velho que admira (venera) à distância, um jovem rapaz, inacessível, por força das circunstâncias e das regras do decoro e da moral comummente aceites. O sentimento, porém, existe e instala-se no íntimo do protagonista, por muito ou pouco que isso seja conveniente ou do seu agrado. A narrativa é marcada por uma sensualidade muito particular, que atravessa todos os sentidos, aguçando cada um deles e provocando uma espécie de hiperfuncionamento exacerbado, através do qual a realidade é percepcionada com uma intensidade diferente, ampliada a todos os níveis (o êxtase da expectativa interiormente acalentada, o deleite dos pequenos detalhes percebidos, o júbilo do prazer longínquo e meramente imaginado). «O seu espírito conturbado não queria saber nem desejava nada mais do que perseguir sem descanso o objecto que o encantava, sonhar com ele sempre que estava ausente e - à maneira dos amantes - dirigir palavras de ternura à sua silhueta. A solidão, a estranheza e felicidade de um êxtase profundo e tardio, encorajavam-no e persuadiam-no a permitir-se mesmo o mais extravagante, sem passar pela vergonha e rubores; de modo que um dia, ao regressar tarde de Veneza, parou no primeiro andar do hotel à porta do jovem belo e, em pleno delírio, encostou a testa à dobradiça da porta permanecendo assim durante algum tempo, sem temer ser surpreendido numa posição tão demente.» É esse estado de sensibilidade aumentada que Thomas Mann transmite e que se infiltra em nós ao percorrer estas linhas, fazendo da leitura uma espécie de experiência imersiva, de certa forma vivida e sentida na primeira pessoa.

Extraordinário

Cristina vieira

A questão de sempre como grande factor de imprevisibilidade na nossa vida e que é: qual é o momento em que saimos do nosso controlo? Somos donos de nós próprios? Só depende de um click....

ABOUT THE AUTHOR

Thomas Mann

PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 1929

Thomas Mann nasceu em 1875, na cidade alemã de Lübeck. A sua carreira literária iniciou-se de modo fulgurante em 1901, com a publicação de Os Buddenbrook. Seguiram-se-lhe obras como Tonio Kröger, A Morte em Veneza e A Montanha Mágica, entre outras, que lhe valeram a atribuição do Prémio Nobel em 1929. Em 1933, com a subida de Hitler ao poder, Mann mudou-se primeiro para a Suíça e depois para os EUA, onde ensinou na Universidade de Princeton e se naturalizou americano. São desta época obras como a tetralogia José e os Seus Irmãos, Lotte em Weimar e Doutor Fausto. Morreu em Zurique, em 1955.

(see more)

BY THE AUTHOR

PEOPLE WHO BOUGHT ALSO BOUGHT