Maurício Lago Silva
Apaixonei-me pelo mundo como quem se apaixona por corpos: primeiro pela curva, depois pela sombra, por fim pelo que neles se cala.
Há lugares que se oferecem de imediato, generosos e exuberantes, como amantes experientes que conhecem o efeito exato de um sorriso. Outros exigem demora, tato, paciência, o delicado ofício de decifrar o que escondem por trás das fachadas gastas, dos gestos contidos, da ironia local porque todo o povo verdadeiramente fascinante aprendeu a rir de si antes que o mundo o fizesse com menos talento.
E eu, que sempre preferi o enigma ao óbvio, entrego-me mais aos lugares que não se revelam à primeira. O amor fácil é útil para postais; o verdadeiro, esse exige silêncio, atenção e uma certa coragem para permanecer.
Talvez seja isso o amor pelas viagens: não a fuga, como supõem os simplistas, mas a intimidade radical com o desconhecido. Um romance com o improvável. Um pacto sensual com o risco. Uma forma de oração sem deus e sem templo, feita de passos, espanto e sede.
Viajar é tocar o invisível com as mãos nuas.
É deixar que o mundo nos seduza e nos contrarie. É ser estrangeiro lá fora até reconhecer o estrangeiro que sempre fomos em nós.
E depois regressar, sempre regressar, com o corpo cansado, os sentidos em febre, a alma ligeiramente desalinhada e o coração mais culto. Regressar com histórias que ninguém pediu, cicatrizes que ninguém vê, e essa elegância melancólica de quem aprendeu que toda a beleza é transitória, toda a presença é um empréstimo, toda a partida uma pequena morte vestida de promessa.
Maurício Lago Silva
Há lugares que se oferecem de imediato, generosos e exuberantes, como amantes experientes que conhecem o efeito exato de um sorriso. Outros exigem demora, tato, paciência, o delicado ofício de decifrar o que escondem por trás das fachadas gastas, dos gestos contidos, da ironia local porque todo o povo verdadeiramente fascinante aprendeu a rir de si antes que o mundo o fizesse com menos talento.
E eu, que sempre preferi o enigma ao óbvio, entrego-me mais aos lugares que não se revelam à primeira. O amor fácil é útil para postais; o verdadeiro, esse exige silêncio, atenção e uma certa coragem para permanecer.
Talvez seja isso o amor pelas viagens: não a fuga, como supõem os simplistas, mas a intimidade radical com o desconhecido. Um romance com o improvável. Um pacto sensual com o risco. Uma forma de oração sem deus e sem templo, feita de passos, espanto e sede.
Viajar é tocar o invisível com as mãos nuas.
É deixar que o mundo nos seduza e nos contrarie. É ser estrangeiro lá fora até reconhecer o estrangeiro que sempre fomos em nós.
E depois regressar, sempre regressar, com o corpo cansado, os sentidos em febre, a alma ligeiramente desalinhada e o coração mais culto. Regressar com histórias que ninguém pediu, cicatrizes que ninguém vê, e essa elegância melancólica de quem aprendeu que toda a beleza é transitória, toda a presença é um empréstimo, toda a partida uma pequena morte vestida de promessa.
Maurício Lago Silva