Alba de Céspedes

Alba de Céspedes nasceu em Roma, em 1911. Trabalhou como jornalista e publicou o seu primeiro livro, L’anima degli altri (contos), em 1935, ano em que foi presa pela primeira vez, devido a atividades antifascistas. Em 1938, saiu o seu romance de estreia, Nessuno torna indietro, o qual teve enorme repercussão, acabando por ser banido. Em 1944, fundou a Mercurio, uma revista de política, arte e ciência que se transformou num fórum de debate intelectual, com colaborações de Natalia Ginzburg, Elsa Morante ou Alberto Moravia. Os romances Dalla parte di lei (1949) e O caderno proibido (1952) haveriam de consagrar o seu enorme prestígio e popularidade, em Itália e internacionalmente. Seguiram-se ainda La bambolona (1967) e Nel buio della notte (1976). No pós-guerra, Alba de Céspedes dedicou-se sobretudo à escrita para cinema, teatro, rádio e televisão – colaborou, por exemplo, no guião do filme Le Amiche, de Michelangelo Antonioni. Estabeleceu-se então em Paris onde morreu, em 1997.

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  • NAS PALAVRAS DELAS

    Ler algumas escritoras é perceber que a literatura pode ser íntima e política ao mesmo tempo, delicada e feroz, profundamente humana e ainda assim inquietante. Alba de Céspedes, Virginie Despentes, Camila Sosa Villada e Natalia Ginzburg inspiram-me por razões diferentes, mas há algo que as une: a coragem de olhar para a experiência das mulheres, e para as margens da sociedade, sem enfeites, sem concessões e sem medo. Nas Palavras Dela, de Alba de Céspedes Em Nas Palavras Dela, Alba de Céspedes dá-nos uma escrita profundamente atenta à interioridade feminina, às contradições do amor, do casamento, da família e da liberdade. É um romance que mergulha no modo como tantas mulheres foram ensinadas a viver em função dos outros, mesmo quando dentro de si cresce um desejo de rutura, de autonomia e de verdade. O que mais me inspira nesta obra é precisamente a capacidade de nomear o que tantas vezes fica oculto, como os silêncios, as renúncias ou os conflitos íntimos. Alba de Céspedes escreve mulheres com lucidez, sem simplificações, e lembra-me sempre que a literatura pode ser um lugar de consciência e de insubmissão.
    A infância de Alessandra, em Roma, é marcada pela lenda dolorosa da mãe, Eleonora, mulher prodigiosa que sonhava ser uma pianista célebre, mas cuja sensibilidade artística acaba esmagada pela estreiteza da vida doméstica, pelas convenções familiares e por uma ordem social que confunde sacrifício com virtude. A história de Alessandra nasce, assim, sob o signo dessa figura materna simultaneamente luminosa e ferida. Uma mulher que encarna tudo aquilo que poderia ter sido e que não lhe foi permitido ser. Ao acompanhar o crescimento da protagonista, o romance torna-se também uma educação sentimental e política, na qual a intimidade da casa e as frustrações revelam a violência discreta de um mundo construído contra a liberdade feminina. COMPRO NA WOOK! » Teoria King Kong, de Virginie Despentes Teoria King Kong, de Virginie Despentes, inspira-me de uma maneira diferente. É um livro que entra sem pedir licença e que desmonta discursos confortáveis sobre violação, prostituição, pornografia, feminilidade e poder. Despentes escreve com fúria, frontalidade e inteligência, recusando a ideia de que uma mulher tem de ser dócil para ser escutada. Gosto particularmente deste ensaio porque não procura agradar nem suavizar o desconforto e obriga-nos, isso sim, a repensar tudo aquilo que a sociedade prefere manter bem arrumado.
    A força do livro vem também do seu cunho assumidamente pessoal, autobiográfico e violento. Despentes não escreve a partir de uma abstração teórica, mas a partir do próprio corpo, da própria experiência e das suas zonas mais expostas. Fala da violação que sofreu, da passagem pela prostituição, da relação com o cinema pornográfico, da vergonha, da raiva, do medo e da forma como a sociedade organiza a culpa para a devolver quase sempre às mulheres. O que torna Teoria King Kong tão perturbador é precisamente essa recusa em transformar a ferida em ornamento literário ou em confissão domesticada. Despentes converte a experiência brutal em pensamento crítico, fazendo da autobiografia uma arma contra a moral burguesa, contra a vitimização higienizada e contra todas as formas de obediência impostas ao feminino. COMPRO NA WOOK! » As Malditas, de Camila Sosa Villada Em As Malditas, de Camila Sosa Villada, encontro uma escrita que é brutal e luminosa. O livro cruza memória, violência, sobrevivência e imaginação, dando corpo a vidas que tantas vezes foram empurradas para a margem. O que me inspira aqui é a forma como a autora transforma dor e exclusão em literatura viva, feroz e bela. Há neste livro uma força quase mítica, mas também uma humanidade devastadora, que faz com que cada página pareça um gesto de resistência.
    No seu ADN convergem as duas facetas do mundo trans que mais repelem e assustam a boa sociedade: a fúria travesti e a festa de ser travesti. Camila Sosa Villada explora, em concreto, a infância marcada pela violência, pela vergonha e pelo desejo de fuga, mas também a entrada num universo de pertença, de comunidade e de reinvenção. A obra é um relato de infância e um ritual de iniciação, um conto de fadas e um conto de terror, memória íntima e mitologia coletiva. As mulheres que habitam o livro surgem como figuras feridas e soberanas, expostas à brutalidade do mundo e, ainda assim, capazes de criar laços, linguagens, maternidades improváveis e formas exuberantes de alegria. É nessa tensão entre desamparo e esplendor que o livro encontra a sua grandeza. COMPRO NA WOOK! » As pequenas virtudes, de Natalia Ginzburg As pequenas virtudes, de Natalia Ginzburg, lembra-me que nem sempre é preciso levantar a voz para dizer o essencial. Neste conjunto de textos, Ginzburg escreve sobre a vida, a família, a educação, a pobreza, a guerra, a maternidade e a escrita com uma clareza desarmante. O que mais me inspira nela é essa lucidez sem pose, essa capacidade de encontrar grandeza no quotidiano e de transformar experiências aparentemente pequenas em pensamento duradouro. Há uma sabedoria limpa e serena na sua escrita que me comove sempre.
    Estes são ensaios autobiográficos, embora nunca se fechem no mero relato pessoal. Em Ginzburg, a memória individual torna-se uma forma de pensar o século, a perda, a educação moral e a sobrevivência. Durante o governo de Mussolini, viveu retirada no campo, com o marido, num quotidiano atravessado pela precariedade, pela vigilância e pela sombra da guerra, experiência que atravessa a sua escrita com uma sobriedade quase ascética. Num texto como “Ele e Eu”, por exemplo, a autora parte da vida conjugal, das diferenças de temperamento, dos hábitos, das pequenas irritações e ternuras entre duas pessoas, para construir uma reflexão de extraordinária finura sobre o amor e a convivência. O que poderia parecer apenas doméstico ou menor torna-se, nas suas mãos, matéria literária de densidade. COMPRO NA WOOK! » No fundo, estas escritoras inspiram-me porque cada uma, à sua maneira, recusa o lugar que lhe foi previamente atribuído. Alba de Céspedes fala da condição feminina com profundidade e subtileza, Virginie Despentes escreve com a raiva de quem não aceita ser domesticada, Camila Sosa Villada devolve beleza e dignidade a vidas que o mundo insiste em desumanizar; Natalia Ginzburg mostra-nos que a delicadeza também pode ser radical. Ler estas mulheres é, para mim, uma forma de regressar àquilo que a literatura tem de mais poderoso, a possibilidade de ver melhor e de sair diferente de uma leitura.

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