Íntima, sincera, muitas vezes hilariante. A Propósito de Nada, a (polémica) autobiografia do cineasta Woody Allen, acaba de chegar às livrarias.

Nela, o autor faz «uma viagem pela sua vida tumultuosa» revisitando a sua profícua carreira - no cinema, teatro, televisão e stand-up - mas, também, o lado pessoal – família, amigos, casamentos e paixões, inclusive a relação com Soon-Yi, a quem dedica o livro.
Numa voz fluída como quem nos conta uma história no mesmo banco de jardim (e imagine quantas histórias não estão acopladas à vida de Allen), nada foi deixado ao acaso.

Depois de rejeitada pela editora Hachette após manifestação dos funcionários devido às alegadas acusações de abuso sexual à filha adotiva, A Propósito de Nada foi publicada pela Arcade.
A editora Jeannette Seaver fez questão de publicar o livro «não apenas pelos seus méritos e qualidade do material», mas também como uma forma clara de «marcar posição contra os críticos de Woody Allen.» Em Portugal, a publicação ficou a cargo das Edições 70, uma chancela da Almedina.

Eis a história de um exímio argumentista, escrita pelo próprio numa prazerosa longa-viagem de 440 páginas.

Espreite o excerto:
 
EXCERTO
«Nem Guerra Nem Paz foi um filme divertido de filmar à exceção do clima. Frio em Budapeste e em Paris. Quando terminou, estávamos felizes por regressar a casa, ela para o sol, eu para as ruas chuvosas de Manhattan, onde prosperava. O filme foi concluído com facilidade, excetuando a música. Comecei por usar Stravinsky, mas a tonalidade tornava tudo pouco divertido. Mal trocámos para Prokofiev, o filme ganhou vida. As críticas foram boas, embora tivesse sido a última vez que li uma crítica ou algo sobre mim. A UA cobriu-me de resmas de críticas nacionais onde deveria ir buscar as citações para um anúncio. Centenas de críticas de todo o lado, tão diferentes, tão frequentemente contraditórias, e com que fim? Para que possa ler que sou um génio ou um idiota incompetente? Já sei que sou incompetente e que não nasci um génio. A obsessão consigo mesmo é uma traiçoeira perda de tempo.
O lado divertido de fazer o filme é realizá-lo, o ato criativo. As aclamações nada significam. Mesmo com os mais altos elogios, vai ter artrite e zona. E será assim tão terrível que algumas pessoas não se sintam entusiasmadas com o seu trabalho? Que algumas pessoas possam não gostar do seu filme? O universo está a afastar-se à velocidade da luz e andamos preocupados com o facto de um tipo qualquer em Sheboygan ter problemas com o nosso ritmo? E se uma senhora de Tuscaloosa disser que é um génio, o leitor acredita que a sua opinião o torna igual a Rembrandt ou Chopin?
Paremos de perder tempo com pormenores.»