O FIM
KARL OVE KNAUSGÅRD
O último volume da monumental e polémica saga A Minha Luta está finalmente publicado em português. São mais de 1100 páginas em que fica claro o alcance do projeto de auto-ficção do escritor norueguês Karl Ove Knausgård e a dolorosa falta de pudor com que decidiu contar a sua vida, retratando cada espetro – o amor pela família, a obsessão com a escrita, o prazer da solidão, as paixões e confissões mais íntimas.

O Fim não é apenas uma autobiografia romanceada em que Knausgård parece ter-se tornado no seu próprio herói; é a vida como ela é, o bilhete de entrada para a mente de um escritor brilhante que desafia e transgride as normas sociais sem qualquer crédito à vergonha ou ao embaraço. O leitor não é poupado a absolutamente nada.

O sucesso global da saga pode ser explicado por várias razões, como a escolha do título (remetendo para a obra de Adolf Hitler), a boa pinta do escritor escandinavo e, acima de tudo, a honestidade inabalável de uma escrita capaz de viciar qualquer um («uso-me como matéria-prima»).

Entre a verdade e a mentira, a memória que se esvaziou em seis volumes e milhares de páginas não é apenas um dos maiores feitos literários do ano, mas do nosso tempo.
EXCERTO
«A meados de Setembro de 2009 pus me a caminho do pequeno poiso de Verão de Thomas e de Marie, algures entre Höganes e Mölle, onde Thomas me iria tirar fotografias para os meus romances seguintes. Aluguei um carro, um Audi preto, e, de manhã, segui pela auto estrada de quatro faixas, com uma intensa sensação de felicidade no peito. O céu estava limpo e azul, e o sol queimava como se fosse Verão.
À esquerda, em direcção ao horizonte, cintilava Öresund, à direita desdobravam se os campos amarelos de restolho e os prados, separados por vedações e ribeiros, ao longo dos quais cresciam renques de árvores frondosas, repentinas orlas da floresta. Eu tinha a impressão de que, no fundo, era um dia que não deveria ter existido, assomando como uma espécie de oásis no meio da paisagem outonal, quase macilento, um dia que na realidade não deveria ser assim, como o Sol não deveria brilhar com tanta força, nem o céu mostrar se tão saturado de luz, e isso despertava dentro de mim um sentimento inquieto que se mesclava com a sensação de felicidade que me enchia, e que, por isso mesmo, tentei varrer do meu espírito. Na esperança de me desembaraçar sem mais desse sentimento, decidi começar a cantar o refrão de ‘Cat People’, que entretanto ouvia na aparelhagem do carro, enquanto gozava a vista da cidade que, do lado esquerdo, me aparecera, com as suas gruas do porto, as chaminés das fábricas, os armazéns. Estava a passar pela periferia de Landskrona, como alguns minutos antes passara por Barsebäck, com a sua aterradora silhueta inconfundível e sempre idêntica de central nuclear perfilada na distância. Seguia se Helsingborg e, depois, cerca de vinte quilómetros mais até à casa de Verão de Thomas e de Marie.

Eu estava atrasado.(…)»