WOOK SE ESCREVE NA SUÉCIA

LIVROS QUE VÊM DO FRIO
17 de janeiro de 2020
Caro/a leitor/a, temos quase a certeza de que já leu ou viu um filme ou série de televisão baseado num livro de ficção de um autor sueco. Neste artigo, por entre florestas de névoa densa, lendas mais antigas que o próprio tempo e serial killers macabros, trazemos-lhe algumas sugestões para que fique a conhecer um pouco melhor a literatura que por ali se faz.
 
O PAÍS DO NOBEL
A Suécia está no top dos cinco de países com mais autores galardoados com o Prémio Nobel da Literatura, incluindo a primeira mulher a vencê-lo, Selma Lagerlöf, em 1909 – um feito que só voltaria a ser repetido 19 anos depois, pela italiana Grazia Deledda. O júri destacou «a sua escrita caracterizada por um idealismo nobre, imaginação fértil e sensibilidade espiritual». Leitora ávida e escritora desde a infância, Lagerlöf tinha 51 anos e uma lista longa de obras publicadas quando recebeu o prestigiado prémio. O seu primeiro romance, A Saga de Gösta Berling (1891), oferece-nos uma visão do mundo nórdico com raízes nas antigas lendas e na natureza encantada. Conta a história de 12 cavaleiros liderados por Gösta Berling, um padre renegado e caído em desgraça, mas com um charme irresistível. Tornou-se um clássico. Porém, a sua obra mais lida é A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia, escrita com o intuito de ensinar às crianças a geografia do seu país. Curiosidade: a autora tinha uma grande afeição pela casa da família em Mårbacka, onde nasceu e passou a infância e a juventude. A casa foi vendida após a morte do pai, e Lagerlöf usou o prémio monetário do Nobel para a comprar.

Já outros dois nomes a destacar no que diz respeito à literatura infantil sueca são o de Astrid Lindgren, autora da famosa Pipi das Meias Altas, e pioneira dos direitos das crianças e dos animais, e o de Tove Jansson, que, apesar de tecnicamente ter nascido na Finlândia, escreveu em sueco as histórias dos Mumins, pequenas criaturas amigáveis que tentam viver em comunhão com a Natureza.

 
GRANDES CONTADORES DE HISTÓRIAS
No início do século XIX, a Suécia viu nascer grandes contadores de histórias. August Strindberg foi um deles. Romancista, dramaturgo e pintor, revolucionou a escrita nórdica e é considerado um dos pais do teatro moderno. Autor de mais de 90 obras, uma das mais famosas é Menina Júlia (1888), uma peça de teatro com três personagens – Júlia, uma jovem mulher aristocrata; João, chefe dos criados e moço de recados; e Cristina, cozinheira e namorada de João – e de sobre como funcionam as relações interpessoais estabelecidas entre eles, percorrendo questões centrais como a divisão de classes, a sedução, o poder, a ambição ou a emancipação. Stringberg joga habilmente com os nossos preconceitos, analisando minuciosamente a alma humana. O seu legado influenciou dramaturgos ou realizadores como Ingmar Bergman, Tennessee Williams, Maxim Gorky ou Edward Albee.

O Salão Vermelho (1879) é outra obra icónica. Trata-se do primeiro romance de Strindberg, e é um retrato da corrupção moral, política e social de uma Estocolmo em que se move Arvid Falk, o protagonista, um anti-herói que abandona uma promissora carreira de funcionário público para se tornar poeta e viver do jornalismo. Com o pano de fundo do meio artístico e jornalístico, boémio e intelectual, este romance prova-nos que a Suécia do século XIX afinal não era assim tão diferente de Portugal nos dias de hoje.

Também Tomas Tranströmer marcou de forma definitiva a literatura sueca do século XX. O poeta escandinavo que ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 2011 (aos 83 anos) é autor de uma poesia límpida onde o quotidiano e o transcendente se encontram. A sua obra está traduzida em todo o mundo – espreite a antologia 50 Poemas (edição bilingue).

 
O SUCESSO DO POLICIAL NÓRDICO
Atualmente, as obras de ficção de autores suecos estão entre as mais traduzidas no mundo. Em 2018, as exportações da ficção sueca ultrapassaram os 314 milhões de coroas (cerca de 30 milhões de euros). Para este sucesso recente da ficção sueca, muito tem contribuído o género policial e thriller também conhecido como «policial nórdico» ou «Nordic Noir». Wook têm em comum estes livros? Uma linguagem direta, crimes hediondos, cenários desoladores e frios, detetives taciturnos e, principalmente, o facto de as questões políticas serem a base da ficção moderna policial. Os «pioneiros» deste género literário na Suécia foram os autores Maj Sjöwall e Per Wahlöö, a dupla literária que, entre 1965 e 1975, escreveu vários livros de uma saga policial em que a personagem principal é o detetive Martin Beck. Roseanna é o nome do primeiro livro desta série da década de 60 e que moldou o futuro da literatura policial escandinava. Todos os livros abordam questões relacionadas com os desafios levantados pelo desenvolvimento social, mas contados na perspetiva daqueles que ficaram para trás (desfavorecidos ou abandonados) durante esse processo de modernização.

No entanto, foram os livros de Henning Mankell que abriram as portas da internacionalização, ao criar a sua personagem principal, o detetive Kurt Wallander (alter ego de Mankell), um polícia honesto e inteligente, mas com uma vida complicada, abandonado pela mulher e acossado pelos chefes. As críticas às atuais sociedades europeias e sueca em particular foram também motivos para o seu sucesso fora de portas.

Mas se falamos em sucesso, a grande explosão aconteceu com a trilogia Millennium, de Stieg Larsson. Um fenómeno mundial cujos livros alcançaram os tops de venda em muitos países e cuja série foi adaptada ao cinema pela primeira vez com produção sueca e, mais tarde, numa versão com produção de Hollywood. A personagem Lisbeth Salander, com uma infância conturbada, transformou-se numa mulher ferozmente fechada, misteriosa e ligada ao submundo do crime, que, juntamente com Mikael Blomkvist, tornou a saga num colossal sucesso mundial. Conta a história do inconformismo de um jornalista caído em desgraça e da irreverência de uma hacker com uma inteligência acima da média e uma completa incapacidade de se relacionar com os outros. Esqueça tudo o que está a fazer e comece a ler agora. Mas fica o aviso: cuidado, corre um sério risco de insónia!

… E se não conseguiu resistir a Lisbeth Salander, uma das personagens mais criativas e irreverentes da literatura contemporânea, poderá continuar a saga, pois David Lagercrantz aceitou o convite e escreveu mais três volumes desta história. A Rapariga que Viveu Duas Vezes é um final épico!
 
A NOVA VAGA
Uma nova vaga de autores policiais tem emergido nos últimos anos com grande sucesso internacional e em Portugal também. Camilla Läckberg já vendeu mais de 26 milhões de livros em 60 países e é uma das autoras mais lidas em todo o mundo. Fjällbacka é o cenário da maioria dos seus policiais, e Asas de Prata é o mais recente bestseller editado em Portugal. Também o casal Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril, que formam a dupla Lars Kepler, conhecidos pelo seu gosto macabro e serial killers arrepiantes, alcançaram um enorme sucesso internacional. O Hipnotista, primeiro livro, foi adaptado ao cinema e O Homem-Espelho é o novo thriller e o oitavo da série Joona Linna. Se é um/a devorador/a de thrillers e chegou até aqui, tome nota deste nome: Arne Dahl, crítico e editor, é considerado um dos melhores autores de policiais nórdicos, traduzido para 32 países e 3 milhões de livros vendidos. Areias Movediças é o primeiro livro da série que conta com o inspetor Sam Berger e a agente infiltrada do Serviço de Segurança, Molly Blom.

O convite está lançado! Tal como os leitores, há livros de todos os tamanhos e feitios.

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