Voltar à leitura
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@confissoesdumlivreiro
7 de abril de 2026
Há alturas da vida em que nos afastamos dos livros. Não é uma decisão clara, nem um corte dramático. Os livros acumulam-se, ficam por abrir na mesa de cabeceira, à espera de um “quando tiver oportunidade” e, sem darmos por isso, a leitura passa a ser uma memória de quem já fomos. A vida acontece e enche os dias de tal forma que parar, por algum tempo, com um livro na mão e longe de tudo, começa a parecer descabido. Voltar à leitura exige um livro certo, uma história que não peça licença para entrar, que nos agarre pela gola e nos lembre, com alguma urgência, que ler continua a ser uma das formas mais intensas de estar vivo.
Projeto Hail Mary, de Andy Weir
Por vezes, voltar a ler não começa com disciplina. Começa com um livro que nos apanha desprevenidos e devolve o prazer da descoberta, aquele impulso de virar páginas sem dar pelo tempo a passar. É precisamente isso que acontece em Projeto Hail Mary, de Andy Weir. Ryland Grace, um professor de ciências, acorda sozinho numa nave espacial, sem saber quem é, onde está ou o que tem de fazer. Aos poucos, através de pequenos indícios e de uma memória que regressa em fragmentos, percebe que carrega uma missão decisiva para a sobrevivência da Terra. A estrutura do romance alterna entre o presente claustrofóbico na nave e o passado que explica como ali chegou, criando um efeito de revelação contínua. Weir conduz o ritmo com precisão, usando explicações científicas não como obstáculo, mas como motor narrativo. Cada problema técnico que surge na viagem transforma-se num desafio lúdico, resolvido com engenho e uma boa dose de humor. Há um prazer quase físico em acompanhar o raciocínio de Grace, em ver cada problema desmontado e reconstruído com lógica, tentativa e erro. O livro vive desse movimento contínuo e dessa sensação de que tudo está sempre à beira de falhar, mas nunca falha completamente.
Este bestseller deu origem ao filme de cinema – realizado pela dupla Phil Lord e Christopher Miller e protagonizado por Ryan Gosling – que estreou no mês passado e que está a ser um êxito de bilheteira. Segue assim o percurso de O Marciano, outro bestseller de Andy Weir que foi adaptado ao cinema.
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Este bestseller deu origem ao filme de cinema – realizado pela dupla Phil Lord e Christopher Miller e protagonizado por Ryan Gosling – que estreou no mês passado e que está a ser um êxito de bilheteira. Segue assim o percurso de O Marciano, outro bestseller de Andy Weir que foi adaptado ao cinema.
Crónica dos Bons Malandros, de Mário Zambujal
Nada como uma boa gargalhada para nos puxar de volta aos livros. Crónica dos Bons Malandros, de Mário Zambujal, acompanha um grupo improvável de pequenos criminosos que se juntam para levar a cabo um assalto que, à partida, parece simples, mas que rapidamente se complica por causa das próprias limitações, manias e desencontros entre eles. O resultado é uma história que vive do desvio e do falhanço, onde tudo se afasta do plano inicial. O humor não é imediato nem forçado, surge das situações, das personagens e de uma certa forma de olhar para o mundo. Mais do que o golpe em si, interessa a forma como tudo se desenrola, num encadeamento de diálogos afiados, situações absurdas e imprevistos que definem o tom da narrativa. O texto é também um retrato muito particular de um certo imaginário português, onde o desenrasque, a ingenuidade e a pequena ambição convivem lado a lado. É daqueles livros que se leem de um fôlego, pelo prazer de acompanhar estas figuras tragicómicas até ao desfecho inevitável.
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Jesus Cristo Bebia Cerveja, de Afonso Cruz
Jesus Cristo Bebia Cerveja, de Afonso Cruz, é perfeito para quem gosta de histórias onde o absurdo e a ternura andam de mãos dadas. Num Alentejo ao mesmo tempo reconhecível e inventado, entramos na vida de Rosa, uma jovem alentejana que vive com a avó, cujo maior desejo é visitar Jerusalém antes de morrer. Perante a impossibilidade de concretizar essa viagem, surge uma solução tão improvável quanto difícil de concretizar: transformar a pequena aldeia na Terra Santa. Pelo caminho, cruzamo-nos com um professor excêntrico, uma inglesa milionária e outras personagens que parecem deslocadas, mas que acabam por encontrar o seu lugar nessa construção coletiva, cada uma contribuindo à sua maneira para dar forma a esse milagre improvisado. A escrita de Afonso Cruz tem a leveza certa, nunca superficial, capaz de convocar o humor sem largar uma melancolia discreta. As histórias encadeiam-se com naturalidade, como se estivéssemos a ouvi-las à mesa, entre copos e silêncios. É um livro que não exige esforço nem pressa. Pede apenas disponibilidade para entrar no seu ritmo.
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A Anomalia, de Hervé Le Tellier
Há livros que não se entregam de uma vez. Vão-se montando peça a peça. A Anomalia, de Hervé Le Tellier, é um desses livros. Tudo começa num avião, durante um voo aparentemente banal que atravessa uma tempestade e aterra sem problemas. Meses depois, esse mesmo voo repete-se, com as mesmas pessoas a bordo. A partir desse momento, passam a existir duas versões de cada passageiro, com vidas que já seguiram caminhos diferentes. O livro acompanha as histórias de várias dessas pessoas — a de um escritor em crise, a de uma advogada, a de um assassino, entre outras —, todas obrigadas a lidarem com a presença inesperada de alguém que é, literalmente, uma versão de si mesmas. Há quem tente integrar essa duplicação, quem a rejeite e quem a veja como ameaça ou oportunidade. Vencedor do Prémio Goncourt em 2020, o romance consegue o feito de cruzar vários registos, da ficção especulativa ao policial, do romance contemporâneo à sátira social, mantendo sempre o leitor atento, sem se perder no conceito.
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Um Lugar Luminoso para Gente Sombria, de Mariana Enriquez
Um Lugar Luminoso para Gente Sombria, de Mariana Enriquez, é um conjunto de contos que funciona bem para quem quer voltar a ler sem começar por um romance longo. São histórias independentes, que se leem rapidamente, mas que deixam um rasto incómodo. Num deles, uma mulher tem a insólita tarefa de manter um bairro livre de fantasmas que não sabem que são fantasmas. Noutro, a autora parte de uma história verídica, o caso de uma rapariga que aparece morta no reservatório de água do Cecil Hotel, em Los Angeles, para construir uma narrativa em torno de um culto que se reúne no local da sua morte, tentando comunicar com ela. Há histórias sobre pássaros que já foram mulheres, casas habitadas por fantasmas de entes queridos ou grupos de pessoas que percorrem Buenos Aires à procura de lugares assombrados. A escritora argentina, hoje uma das vozes mais reconhecidas do terror contemporâneo graças a A Nossa Parte da Noite, recorre a estes géneros para abordar temas importantes como o luto, o lugar da mulher e a persistência de violências que raramente se mostram por inteiro. Nada começa de forma extraordinária, mas as coisas vão-se desviando até deixarem de ser reconhecíveis. Enriquez não constrói os contos em torno de grandes revelações. Trabalha antes a progressão, o acumular de sinais, até que já não seja possível voltar atrás. O impacto vem dessa deriva lenta, mais do que de um momento isolado.
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