Valter Hugo Mãe
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6 de março de 2017
A minha avó paterna foi mãe de vinte e um filhos e, depois de emigrar longamente para França, passou a vir aos verões da Póvoa de Varzim. Era uma mulher da ordem da arquitectura, gigante, com um rosto cansado, a olhar os filhos e os netos como sempre perplexa. A minha avó parecia mais um lugar do que alguém. Diziam-me que era muito fértil. Eu imaginava que se ela segurasse um bago de feijão o faria planta de imediato, se segurasse um caroço de pêssego o tornaria numa árvore de deitar à rua, se tomasse um caule de roseira, ele haveria de florir para se pôr nas jarras do altar, se demorasse nas mãos uma concha de água inventaria peixes pequenos, faria um lago.
O autor, Valter Hugo Mãe
Durante quase toda a vida
Durante quase toda a vida desentendi a minha avó paterna. Circunstanciada por tantas crianças, éramos, alguns, inevitavelmente periféricos, importantes apenas enquanto emanações dos nossos pais, uma espécie de nossos pais em versões várias, a perder a conta e a bulir por toda a parte. Reparava no seu modo perdido quando nos queria chamar, mandar aquietar, calar, sair, ir buscar alguém. Dizia: Jorginho. Jorge era o nome do meu pai. Sabia de quem eu era filho, de certa forma, isso seria o melhor que conseguia fazer. Não conseguia conversar, ao menos, não comigo, um milionésimo neto tímido e espantado. De cada vez que dizia Jorginho eu tomava o nome do meu pai como uma frase completa. O tom da sua voz definia o contexto, definia a ordem. Nunca mais encontrei alguém de tão impressionante economia discursiva. Eu respondia: sim, e punha-me a caminho.
Por causa disto, alguns dos primeiros textos que escrevi foram prelecções que imaginei à minha avó. Se ela houvesse de falar, o que diria, a despacho dos assuntos da vida, a definir-se, feita da experiência única de ser como era, uma mulher como mais nenhuma de que ouvi alguma vez falar. Escrevi-lhe diários breves e monólogos para situações de sociedade. Entendi mais tarde que a expectativa de que ela falasse representava uma esperança de que provasse o afecto. Entendi mais tarde que as palavras eram-me fundamentais para a própria existência do afecto. Como não queria desentendê-la e não queria desgostar, eu escrevia explicações que a minha avó daria aos vizinhos, entusiasmada a enumerar filhos e netos, sabedora de detalhes e nada confusa ou cansada. Era um texto que não desistia. Um texto que avançava. Considerava eu que a conversa teria como resultado a alegria. Eu, que era calado, acreditei a vida inteira que conversar pertence ao foro da alegria.
Naquele tempo, a Póvoa de Varzim ainda era sobretudo de belas casas de praia, as janelas verticais muito altas, como se fossem para esticarmos o pescoço o mais que pudéssemos e assim ver melhor as pessoas engalanadas, a fazerem de conta serem felizes e ricas. Toda a gente tinha a mania de estar bem, mesmo que ninguém estivesse. Talvez fosse de ser verão, andarem de férias, a alegria era convincente aos olhos das crianças. Na praia, a ser constantemente alertado para o facto de me ter demasiado magro, eu julgava que o sentido da vida seria engordar um pouco e conversar. Lembro-me de o dizer aos meus tios, em confissões entre brincadeiras na areia, as tardes abreviando-se pela maldita nortada que abençoa a nossa terra. Disse que queria engordar e conversar. Alguns pegavam-me no ar com uma só mão para ficcionar serem fortes. Quanto pesas. Eu dizia: não sei. Só pesava a brancura dos ossos. O que queres ser quando fores grande. Feliz. Já tinha querido ser bombeiro, polícia, santo, padeiro e professor. Subitamente, parecia-me a felicidade melhor do que uma profissão. Ser, de todo o modo, é bem distinto de fazer.
O meu pai contou-me que a minha avó tinha mandado dizer que eu seria professor porque me preocupava com ouvir as pessoas. Haveria de ter muito para contar. Fiquei estupefacto. A minha avó tinha até imaginado o meu futuro, como se garantisse que eu haveria de ter futuro, mesmo magrinho e espantado. E o meu pai acrescentou: ela diz que tens de ser igual à Póvoa de Varzim, extenso como a praia e forte como o vento. Achei absolutamente normal que a minha avó, que eu via como um lugar, me explicasse ao modo dos lugares também. Hoje, estou convencido de que o meu pai me mentiu porque, como eu, queria que a sua mãe falasse. Inventava-lhe um discurso, uma conversa. Mas também sei que, tantas vezes à falta de interlocutor, melhoramos o mundo a conversar de mentira. Melhoramos o mundo a conversar de mentira, não tenho dúvida alguma. Para isso servem todos os livros e nenhum livro se faz sem essa rendição à maravilha em detrimento da verdade.
Por outro lado, a minha avó materna, que só teve seis filhos, vinha aos verões da Póvoa e tinha mesa cativa no café Guarda-Sol, do lado do passeio, para ver as modas e ser encontrada pelas outras velhotas finas que se juntavam a ela as tardes inteiras. A minha avó materna, meses de praia no Guarda-Sol, conversava. Quando, por excepção, me sentava junto dela, ficava com a impressão de que sabia tudo e conhecia até a mais ínfima criatura que habitava nas cidades de Portugal. Como era bem vestida e bem penteada, com dinheiro e pescoço levantado, as pessoas iam pedir-lhe lições de vida e ela sorria cheia de fé em santos e terços. Tinha uma cultura austera e rigorosa. Creio que toda a gente queria ser assim.
Quando voltávamos a casa, naquela altura ainda vivíamos no interior, eu fazia contas ao que à minha família importava a Póvoa de Varzim e julgava que, se um dia medrasse de facto e pudesse até engordar, com espanto ou sem espanto, haveria de viver numa dessas casas velhas e esticar o pescoço a ouvir e a escrever a pura alegria de conversar.
Há três semanas fui comer uma francesinha ao Guarda-sol, sozinho, à mesa da minha avó. Entendi bem que estar ali, estar aqui, na cidade, é já por definição estar acompanhado. Não admira que só por isso tenha a impressão de conversar.
Por causa disto, alguns dos primeiros textos que escrevi foram prelecções que imaginei à minha avó. Se ela houvesse de falar, o que diria, a despacho dos assuntos da vida, a definir-se, feita da experiência única de ser como era, uma mulher como mais nenhuma de que ouvi alguma vez falar. Escrevi-lhe diários breves e monólogos para situações de sociedade. Entendi mais tarde que a expectativa de que ela falasse representava uma esperança de que provasse o afecto. Entendi mais tarde que as palavras eram-me fundamentais para a própria existência do afecto. Como não queria desentendê-la e não queria desgostar, eu escrevia explicações que a minha avó daria aos vizinhos, entusiasmada a enumerar filhos e netos, sabedora de detalhes e nada confusa ou cansada. Era um texto que não desistia. Um texto que avançava. Considerava eu que a conversa teria como resultado a alegria. Eu, que era calado, acreditei a vida inteira que conversar pertence ao foro da alegria.
Naquele tempo, a Póvoa de Varzim ainda era sobretudo de belas casas de praia, as janelas verticais muito altas, como se fossem para esticarmos o pescoço o mais que pudéssemos e assim ver melhor as pessoas engalanadas, a fazerem de conta serem felizes e ricas. Toda a gente tinha a mania de estar bem, mesmo que ninguém estivesse. Talvez fosse de ser verão, andarem de férias, a alegria era convincente aos olhos das crianças. Na praia, a ser constantemente alertado para o facto de me ter demasiado magro, eu julgava que o sentido da vida seria engordar um pouco e conversar. Lembro-me de o dizer aos meus tios, em confissões entre brincadeiras na areia, as tardes abreviando-se pela maldita nortada que abençoa a nossa terra. Disse que queria engordar e conversar. Alguns pegavam-me no ar com uma só mão para ficcionar serem fortes. Quanto pesas. Eu dizia: não sei. Só pesava a brancura dos ossos. O que queres ser quando fores grande. Feliz. Já tinha querido ser bombeiro, polícia, santo, padeiro e professor. Subitamente, parecia-me a felicidade melhor do que uma profissão. Ser, de todo o modo, é bem distinto de fazer.
O meu pai contou-me que a minha avó tinha mandado dizer que eu seria professor porque me preocupava com ouvir as pessoas. Haveria de ter muito para contar. Fiquei estupefacto. A minha avó tinha até imaginado o meu futuro, como se garantisse que eu haveria de ter futuro, mesmo magrinho e espantado. E o meu pai acrescentou: ela diz que tens de ser igual à Póvoa de Varzim, extenso como a praia e forte como o vento. Achei absolutamente normal que a minha avó, que eu via como um lugar, me explicasse ao modo dos lugares também. Hoje, estou convencido de que o meu pai me mentiu porque, como eu, queria que a sua mãe falasse. Inventava-lhe um discurso, uma conversa. Mas também sei que, tantas vezes à falta de interlocutor, melhoramos o mundo a conversar de mentira. Melhoramos o mundo a conversar de mentira, não tenho dúvida alguma. Para isso servem todos os livros e nenhum livro se faz sem essa rendição à maravilha em detrimento da verdade.
Por outro lado, a minha avó materna, que só teve seis filhos, vinha aos verões da Póvoa e tinha mesa cativa no café Guarda-Sol, do lado do passeio, para ver as modas e ser encontrada pelas outras velhotas finas que se juntavam a ela as tardes inteiras. A minha avó materna, meses de praia no Guarda-Sol, conversava. Quando, por excepção, me sentava junto dela, ficava com a impressão de que sabia tudo e conhecia até a mais ínfima criatura que habitava nas cidades de Portugal. Como era bem vestida e bem penteada, com dinheiro e pescoço levantado, as pessoas iam pedir-lhe lições de vida e ela sorria cheia de fé em santos e terços. Tinha uma cultura austera e rigorosa. Creio que toda a gente queria ser assim.
Quando voltávamos a casa, naquela altura ainda vivíamos no interior, eu fazia contas ao que à minha família importava a Póvoa de Varzim e julgava que, se um dia medrasse de facto e pudesse até engordar, com espanto ou sem espanto, haveria de viver numa dessas casas velhas e esticar o pescoço a ouvir e a escrever a pura alegria de conversar.
Há três semanas fui comer uma francesinha ao Guarda-sol, sozinho, à mesa da minha avó. Entendi bem que estar ali, estar aqui, na cidade, é já por definição estar acompanhado. Não admira que só por isso tenha a impressão de conversar.
Valter Hugo Mãe
Por decisão pessoal, este texto não foi escrito segundo o novo Acordo Ortográfico.
Por decisão pessoal, este texto não foi escrito segundo o novo Acordo Ortográfico.