Sophia, o esplendor das coisas visíveis

Sophia de Mello Breyner Andresen
Há 100 anos, no dia 6 de novembro de 1919, no Porto, nascia Sophia de Mello Breyner Andresen.

De ascendência dinamarquesa pelo lado paterno, criada no seio de uma família aristocrata, mulher de silêncio, olhos grandes e azuis pousados insistentemente na contemplação de tudo quanto a rodeava.

Tão-só Sophia.
Imensamente livre, inteligente, contraditória e solitária, escrevia e reescrevia dias inteiros fechada num quarto onde reivindicava silêncio, a mãe de cinco filhos.
«QUEM VÊ O ESPLENDOR DO MUNDO TAMBÉM CONHECE O SEU LADO MAIS SOMBRIO»
Escreveu poesia, contos, prosa, teatro.

Apesar de avessa a prémios e homenagens em vida, recebeu várias distinções literárias, das quais se destacam o Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Autores, em 1965, e o Prémio Camões, em 1999. Também recusou outros: «Olhe, Mário [Soares], mas eu não quero essa condecoração para nada, o que eu precisava era de uma boa cozinheira, a Ordem da Liberdade, não», recorda o filho Miguel Sousa Tavares numa entrevista recente ao Diário de Notícias.

Em Sophia encontramos uma rigorosa economia do efeito, um ofício de escrita que burila as palavras até que fique apenas o seu sentido matricial, aberto às ondulações de uma vida sem maneirismos ou artifícios barrocos.

Nela mora a vontade intransigente do acordo entre as coisas e a natureza, essa busca de tudo o que se perdeu por não passarmos suficiente tempo em frente ao mar. Inspirada pela antiguidade greco-romana, Sophia procurava os deuses num percurso em que a ética era uma exigência permanente. Dela fica também o exemplo de resistência à ditadura salazarista e o seu empenho ingénuo e total na democracia que surge na manhã que ela esperava, «inteira e limpa».


A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento



Autora de um espólio ímpar, após a sua morte, em 2004, proliferaram trabalhos académicos, discursos oficiais, homenagens, encómios, o Panteão. Atribuíram-se-lhe poemas que não eram seus, fixaram-se os lugares-comuns: mar, azul, branco, Grécia, Granja.
Sem biografias que perpassem até àquilo que lhe é mais íntimo, retrato complexo e completo, e, no entanto, basta escrevermos Sophia para todos sabermos de quem falamos.
OBRA POÉTICA
Este único tomo reúne toda a produção poética de Sophia, incluindo poemas inéditos em depósito na Biblioteca Nacional. Um volume de incalculável beleza e sensibilidade, numa edição cuidada de capa dura.
CONTOS EXEMPLARES
Coletânea de sete contos, publicada originalmente em 1962, que revelam a subtileza, a moral e complexidade da vida. Obra essencial para conhecer a contista.
A MENINA DO MAR
Escrito em 1958, é o primeiro conto infantil da autora e aquele que a celebrizou. Narra a história de amizade entre um rapaz e uma menina que vive no mar, o encantamento e a surpresa do encontro de dois mundos improváveis onde não faltam personagens muito especiais.

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