Socorro! Marie Kondo quer arrumar a nossa biblioteca

Socorro! Marie Kondo quer arrumar a nossa biblioteca
Socorro! Marie Kondo quer arrumar a nossa biblioteca
O método de arrumação de Marie Kondo saltou dos livros para os ecrãs e não demorou até gerar polémica.

Várias coisas no método KonMari (sim, existe um nome para isto!) podem fazer estremecer os desarrumados deste mundo. Em primeiro lugar, a arrumação faz-se não divisão a divisão, mas através de categorias de objetos e por uma ordem específica, independentemente da divisão da casa onde se encontrem. Assim, começamos pela roupa seguindo-se os livros, os papéis, o komono (objetos variados como artigos de cozinha e de casa de banho) e, por fim, os itens com valor sentimental.

O objetivo não é deitar coisas fora até ficar só uma t-shirt e um par de calças, mas encontrar espaço para os objetos de que realmente gostamos ou, nas palavras de Marie Kondo, «o que nos traz alegria».

Porém, se domar a pilha da roupa e decidir apenas pelo que nos deixa felizes, dobrando as peças de forma meticulosa, parece ter ganhado adeptos um pouco por todo o mundo, a abordagem aos livros aparenta ter menos fãs, especialmente entre os bibliófilos. Como assim só podemos ter 30 livros e eles têm de «despertar alegria»? Tenho de me ver livre da biblioteca? Pusemos o método à prova, passo a passo, prontos para defender os nossos livros com unhas e dentes:
#1 – Tirar todos os livros das estantes e juntá-los numa grande pilha
Como sabemos desde o Big Bang, o primeiro passo para a organização é o caos e a desarrumação. Admitimos que ir buscar todos os livros da casa não é tarefa fácil: os que se amontoam na mesinha de cabeceira, os que estão espalhados pela sala e pelo escritório, o que neste momento mora na mochila, aqueles livros de receitas ali no canto da cozinha…

Na verdade, tirar os livros das estantes é uma boa ideia. Primeiro porque os livros também precisam de respirar e de serem limpos (pó… pó…), em segundo porque nos dá uma noção do que realmente temos. Quem nunca percorreu as estantes de casa em busca de um livro específico ou comprou o mesmo livro duas vezes achando que não o tinha?

Não sabemos se Marie Kondo aprova, mas estas arrumações são também uma boa altura para fazer um inventário e descobrir, por exemplo, as coleções e séries de livros que temos por completar (olá, wishlist da Wook!).
#2 – Escolher os livros que nos trazem alegria
Livros empilhados e a origem de toda a polémica. Um livro tem mesmo de me trazer alegria? Se alguns escritores como Miguel Esteves Cardoso louvaram o método de Marie Kondo, outros afirmaram de forma perentória que esta é uma ameaça grave à liberdade das nossas bibliotecas.

Na verdade, a autora de Arrume a sua Casa, Arrume a sua Vida, não estabelece um limite de livros. Aliás, uma das coisas que gera perplexidade é que Marie Kondo nunca nos diz quais os objetos que não devemos ter, nem um número limite. Livros, revistas, uma coleção gigante de selos? Tudo encontra o seu lugar neste método desde que traga alegria.

A sugestão de Maria Kondo é que toquemos nos livros um a um para tomar uma decisão, evitando leituras. Admitimos que falar com os objetos e agradecer-lhes possa não ser o seu género e que, para além destas peculiaridades, escolher só livros que despertem alegria possa ser visto como uma tarefa ingrata.

A questão é os livros que trazem alegria não são necessariamente os romances com final feliz. Uma biblioteca é, na verdade, a imagem do seu leitor e vai acompanhando as diversas fases da vida.
Alberto Manguel no belíssimo Embalando a Minha Biblioteca propõe-nos uma elegia e dez divagações sobre a forma como organizamos as nossas bibliotecas e o mundo. Por autor? Por cor? Por temática? Por ordem alfabética? Por uma ordem secreta que só o bibliófilo é capaz de desvendar? Todos estes sistemas são uma forma de organizarmos a nossa memória. As nossas bibliotecas são um repositório de nós mesmos: uma imagem do que fomos, do que nos apaixona e do que queremos ser (a temível pilha dos livros não lidos!).

O que nos traz alegria nas nossas bibliotecas? Aquele livro de poesia que descobri por acaso? Um autor que me recomendou um amigo? Aquele livro que me foi oferecido por alguém querido? Um exemplar autografado que me lembra um momento especial?
A PILHA DE LIVROS POR LER
O poder de decidir o que lhe “desperta alegria” é do leitor. Porém, em relação aos livros por ler, a guru da arrumação é mais assertiva: livros que ainda não lemos são livros que nunca vamos ler.

Permitimo-nos discordar. Os livros que ainda não lemos são quase tão importantes como os livros lidos e relidos. São uma projeção no futuro, um acumular de assuntos que nos despertaram interesse, histórias às quais planeamos dedicar o nosso tempo. No Japão, terra natal de Marie Kondo, existe até uma palavra para nomear este ato de acumular em pilhas livros ainda não lidos: tsundoku.

Mais importante, os livros que ainda não lemos semeiam na nossa biblioteca uma possibilidade de descoberta, de deslumbramento, de uma felicidade clandestina - como lhe chamou Clarice Lispector num conto com o mesmo nome - que existe no ato de termos nas mãos um livro desejado e fingirmos que ele não existe até ao momento da leitura. Esse momento pode ser agora ou daqui a alguns anos. Tendemos a acreditar que o leitor escolhe os seus livros quase tanto como os livros escolhem os seus leitores…

Não precisamos de nos ver livres de nenhum livro, mas admitimos que se queira criar espaço para novos livros.
Assim, a pergunta que se impõe é: o que fazer com os livros que já não têm lugar nossa biblioteca?

- Amigos: trocar, oferecer, criar um pequeno clube de leitura com um número definido de livros a circular entre todos.

- Doar: bibliotecas, escolas, lares de idosos, instituições de solidariedade com programas de incentivo à leitura.
SOMOS A FAVOR DE VIVER MELHOR COM MENOS, MAS...
A arrumação, como defende Marie Kondo, pode ser uma forma de nos vermos rodeados das coisas que nos trazem alegria. No caso das nossas bibliotecas, a arrumação oferece-nos uma oportunidade de revisitar velhos amigos ou, quem sabe, de descobrir novos.
Somos a favor de viver melhor com menos, mas, cá entre nós, alguém vive melhor com menos livros?

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