Sérgio Mendes: «Gosto de escrever de madrugada»

Pode a arte salvar-nos? É nisso que nos faz acreditar esta porta aberta para «O Quarto da Mãe», de Sérgio Mendes. Romance intenso e dramático no qual o autor conduz os leitores a um apartamento dos anos 80 onde vive uma criança de 10 anos e a loucura (que se apodera) de sua mãe.

Uma história pungente sobre o caos e a privação extrema, com apontamentos poéticos e pontas soltas de luminosidade e esperança.
Entrevista a Sérgio Mendes
O autor, Sérgio Mendes


Como surgiu a ideia para este novo livro «O Quarto da Mãe»?
Nasceu a partir da vontade de reescrever a minha infância. Quando tinha nove anos, a minha mãe desapareceu de casa sem deixar rasto. Fiquei só, à espera dela, sentado num degrau da porta do prédio. Neste livro, a minha mãe regressa a casa e eu faço de tudo para conseguirmos sobreviver. Este livro é o reencontro com a lucidez da mãe, é voltar a ouvir as sonatas de piano no leitor de cassetes, é voltar a correr pelos campos das traseiras, é regressar à inocência de um menino que acredita que pode vencer os seus maiores medos e a crueldade dos outros.

É o seu romance de estreia, mas não o livro. Como se passa de literatura infantojuvenil para um livro desta natureza?
Todos os contos infantojuvenis foram escritos nos intervalos de descanso d’ “O Quarto da Mãe”. Comecei a escrever este romance em 2011 e o primeiro conto infantojuvenil só surgiu na primavera de 2012. Normalmente, em cada primavera, escrevo dois ou três contos infantojuvenis para deixar respirar o romance. Já agora, confesso que deixei a poesia e comecei a escrever contos infantojuvenis depois de um sonho que tive com Sophia de Mello Breyner. O conto “Orlando, o caracol apaixonado”, que venceu um prémio de literatura infantil, foi escrito nas duas primeiras semanas de abril de 2015.

A narrativa mostra-nos que há sempre réstia de esperança, mesmo em momentos de fragilidade extrema, e que a arte pode ser uma salvação. Há algo de autobiográfico nestas páginas?
Nem tudo é verdade e nem tudo é ficção. Muitas coisas foram vividas, outras foram contadas por terceiros, muitas foram imaginadas. Nunca fui a Leninegrado, nem a minha mãe sabe tocar piano. A mãe d’ “O quarto da Mãe” é uma fusão de duas pessoas: da minha mãe e da pianista Martha Argerich. Celanova é Guimarães nos anos 80.

Descreva a sua rotina de escrita.
Gosto de escrever de madrugada. Preciso de silêncio e de alguma tranquilidade para entrar em ressonância com a vibração do texto. Em tempo de aulas, escrevo duas a três horas por dia. Nas férias, chego a escrever seis horas por dia. Por vezes, nasce-me um poema e escrevo-o num papel que esteja perto. Às vezes, sonho com uma história engraçada e faço um rascunho no meu caderno de contos. Quanto ao romance, deixo-o amadurecer, sem pressas. Gosto que seja ele a pedir-me para escrevê-lo. Preciso de sentir e ver as personagens e os lugares, como se realmente existissem.

Se pudesse jantar com um escritor, vivo ou morto, quem escolheria?
Almoçaria com Sophia de Mello Breyner e jantaria com Fernando Pessoa. Cresci a ouvir os contos da Sophia. Mais tarde, li e reli o “Guardador de rebanhos”, mais de cem vezes. E, por isso, escrevi “O guardador de carros” que, prudentemente, descansa numa das gavetas do meu quarto.

Nomeie uma coisa que não gosta que lhe digam.
Não gosto que digam que tenho um estilo romântico. Não gosto que digam que a literatura infantojuvenil é um género menor. Não gosto que digam que não editam os meus contos infantojuvenis porque não sabem se existirá retorno financeiro.

Escrever dá ou tira energia?
Se estivermos na mesma frequência da narrativa, é como deslizar no gelo: não há atrito significativo, não há efeito gravítico, não há frio, nem vento - deslizas no caminho inscrito em cada página do livro. Se perdes energia é melhor escreveres outra coisa.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?
Poética de Todorov, T (1973). É um livro interessante. Descreve a narrativa como um organismo vivo, como extensão da palavra. Eu diria que a narrativa é uma extensão do Livro da Vida.

Uma pergunta que nunca ninguém lhe fez e à qual gostasse de responder.
Porque é que a mãe se chama Helena?

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