Rui Zink: «Sou um panda. Os meus livros ladram, mas não mordem»

Após analisar cuidadosamente a atualidade, estudar os sinais e unir todos os pontos, Rui Zink (Lisboa, 1961), escritor e professor universitário, concluiu que a ideologia responsável por alguns dos mais negros episódios da História está a reconquistar seguidores.

Assim surge Manual do Bom Fascista, um ensaio com mais de 100 lições, entre o humor e a mais pura verdade, sobre a ideologia que voltou para assombrar os nossos dias «e, se não nos pusermos a pau, os dos nossos bisnetos.»

Dada a urgência do tema – e como o caso não é para menos – achamos que uma entrevista vinha mesmo a calhar. Como sempre, as expetativas não saíram goradas.
Rui Zink
Zink acredita que ficou com ar de fascista nesta fotografia
«TER MOMENTOS DE REFLEXÃO É MELHOR QUE TIRAR SELFIES»
A primeira pergunta tem que ser esta: quanto de bom fascista há em Rui Zink?
Mais do que gostaria, menos do que receava. Tem dias. Como lembro no «capítulo Stephen King», o bom fascista cresce em mim sobretudo quando ando mais vulnerável: em baixo porque me bateram no carro, frustrado porque não tenho carro e por isso nem sequer me bateram no carro, zangado por a farmácia não ter as minhas gotas, infeliz por as vendas do livro não estarem a correr como esperava, etc.

O bom fascista é, muitas vezes neste Manual, uma coisa e simultaneamente o seu contrário. O bom fascista domina a arte da contradição?
É mais dominado do que dominador, embora julgue o contrário. É o drama de quem não lê: julgando estar de pau na mão a mandar, na verdade está a ser pau mandado. Mas como o próprio não repara nas contradições, o bom fascista é sempre coerente… na sua cabeça.

Desde que caiu em domínio público e voltou às livrarias portuguesas, Mein Kampf é um sucesso de vendas. Há, aliás, um interesse generalizado na sua figura e neste período da História. Não nos basta estudarmos os bons fascistas nacionais?
Não. O nosso foi bom, e continua a ser prometedor, mas temos de reconhecer que há campeonatos mais competitivos, como o espanhol ou o alemão.

Portugal é, até ver, um oásis político. A extrema-direita apresenta intenções de voto residuais, ao contrário de outros países europeus próximos (Itália, Áustria, Hungria…), onde vai ganhando terreno e formando governo. O que explica esta realidade?
Portugal tem um problema de falta de pontualidade que ora nos beneficia, ora prejudica. Nos Descobrimentos começámos cedo, o que nos deu vantagem junto de competidores mais bem armados, como os espanhóis ou os holandeses e, sobretudo, os tardios franceses e ingleses que, quando chegam, açambarcam tudo. Já na descolonização, atabalhoámo-nos porque perdemos o barco, por assim dizer. Chegámos também tarde à democracia, embora um ano mais cedo que nuestros hermanos. Agora estamos a chegar tarde ao neo-fascismo, o que é uma bênção. (Mas, receio, sol de pouca dura. Eles andem aí.)

Os portugueses têm um especial amor pelas adversativas («Eu nem sou racista, mas...», «Eu sou um gajo calmo, mas...») e a grande lição deste manual parece ser recordar-nos que todos temos dentro de nós um «bom fascista» em potência. É preciso estarmos alerta e usarmos o «fascistómetro» mais vezes?
Absolutamente. É das poucas certezas absolutas que tenho. Uma pessoa, ao apontar o dedo, já está a arriscar-se, porque é um gesto viciante, este de apontar o dedo. Discordo da frase dita há 2400 anos por Sócrates de que «uma vida não examinada não merece ser vivida». Todas as vidas merecem ser vividas! Acho é que ter momentos de reflexão é melhor do que tirar selfies enquanto fazemos flexões.

Num livro anterior, escreveu que «Tempos desgraçados pedem desesperos engraçados». A melhor maneira de combatermos o «bom fascista» é com humor?
Não será a melhor, mas é sem dúvida a mais maneirinha. O humor ajuda-nos a rir de nós próprios e a perceber que o mundo, não só a vida, dá muitas voltas, por vezes sem sequer sair do lugar. O fascismo é, entre outras coisas, uma negação da alegria, um fascínio doentio pela arte de chatear os outros, ou mesmo de os maltratar.
«SEM CAOS, NÃO HÁ VIDA»
«O bom fascista é contra o politicamente correto». Onde se traça a linha entre a liberdade de expressão e a boçalidade? E quem a define?
Ninguém a pode definir. Ela existe, mas é como uma bola caída ao mar, vai flutuando, à deriva, sem estar num ponto fixo. Muitos campeões do anti-politicamente correto só descobriram as dores da censura quando alguns dos seus alvos favoritos ripostaram. Gosto muito de uma frase de Bruce Lee, quando um rufião o tenta intimidar partindo um pedaço de madeira em dois. Bruce Lee diz: «As tábuas não ripostam.» É uma triste sina dos bons fascistas: só lhes dói o pé quando são pisados, não quando pisam. Ainda não houve vítimas mortais da horrível ditadura do politicamente correto. Acordem-me quando houver.

Num livro recheado de lições, qual é a mais importante de todas?
Amai-vos uns aos outros. Já fiz o pedido junto da Agência Europeia responsável para registar a patente.

Museu de Salazar: uma excelente ideia ou uma tontice séria?
Uma tontice séria. Por outro lado, garantiria ao meu livrinho uma coisa com que todos os escritores sonham: longevidade para a sua obra.

Qual foi o último livro que leu e recomenda?
Um belo romance do Possidónio Cachapa, A Vida Sonhada das Boas Esposas. Um escritor generoso com os seus leitores, o que não é coisa pouca.

Que livro gostaria de ter escrito?
As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino.

A sua biblioteca continua caótica?
Sem caos não há vida. Por isso mesmo é tão importante ler ficção e poesia: por nos ensinarem a navegar sem demasiado medo pela desordem do mundo.

Miguel Esteves Cardoso afirma que «mais vale mentir ou ficar calado do que gastar tempo precioso a explicar a outra pessoa o que pensamos. Pior ainda é tentar convencê-la a mudar de ideias.» Partilha a mesma opinião?
Tudo o que o Miguel diz é genial, bem pensado e divertido. E tudo o que ele diz pode (e eu acho que deve) ser dito ao contrário. Aqui que ninguém nos ouve, creio que ele acha o mesmo. Pensar é rir, e agora que penso nisto até mesmo isto pode ser dito ao contrário: rir é pensar.

Este livro pretende transformar a vida do leitor? Ou foi só um desperdício de papel? :)
Um desperdício de papel, receio. E nem me importo. «Transformar a vida do leitor» soa um bocado a ameaça. Faz-me logo pensar num mundo onde os livros fossem zombies que, quando abertos numa dada página pelos leitores, nhac!, os mordiam. Ora eu sou um panda. Os meus livros ladram, mas não mordem.

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