Ricardo Araújo Pereira: «Gostava de ter um ego indestrutível» [VÍDEO]

Ricardo Araújo Pereira é muito alto, mas é o sorriso que enche a sala – no caso, o exíguo stand da Tinta da China onde dá autógrafos e nos concede esta entrevista, num domingo soalheiro, em plena Feira do Livro de Lisboa. E foi preciso mais de um ano para que este momento acontecesse. Não porque Ricardo seja inacessível, mas porque prefere estar sossegado, admite.

Agora, sem margem de fuga, e de bic azul em riste, o humorista, apresentador, guionista e autor (a ordem é irrelevante) dissecou sobre a vida de todos os dias, os livros que lê e as mixórdias que vai escrevendo com o humor que lhe conhecemos – e apreciamos.

Uma entrevista exclusiva a não perder.
Ricardo Araújo Pereira
Ricardo Araújo Pereira é um dos humoristas mais populares do país
ENTREVISTA EXCLUSIVA
É mais difícil conseguir uma entrevista contigo do que com o Presidente da República, Haruki Murakami ou com um Prémio Cervantes. Tens noção disso?
Não é, de certeza que não é. Não deve ser assim tão difícil. O meu telefone tem um sistema que bloqueia números que não conheço… também porque gosto de estar sossegado. É aquilo para que mais tenho talento na vida. Mas também não sou assim tão inacessível, tenho a certeza. É capaz de ser exagero…

É capaz de ser falta de tempo. Tens programas na rádio, na televisão, escreves para jornais e revistas, em Portugal e no Brasil, fazes publicidade. A pergunta é: quando é que foi a última vez que estendeste roupa lá em casa?
Que estendi roupa? [risos] Não costumo fazer isso. Quem costuma fazê-lo é a Dona Valquíria que é essencial na dinâmica do lar. É absolutamente essencial e eu agradeço-lhe todos os dias.
«O SUCESSO E O FRACASSO SÃO, CADA UM À SUA MANEIRA, UMA FANTASIA»
Onde vais buscar inspiração para alimentar todas estas plataformas e públicos? A realidade é assim tão divertida?
Não, às vezes não é. As ideias vêm de vários sítios: ou acontecem coisas na vida pública portuguesa ou às vezes até à minha frente; às vezes há ideias para textos que surgem de coisas que me aconteceram a mim ou à minha frente, é só uma questão de estar com atenção. Outras vezes não há nada e é preciso uma pessoa sentar-se à frente da folha branca a fazer força. É isso. Basicamente é isso: fazer força e esperar que aconteça alguma coisa.

E o que é que não tem piada nenhuma?
É o momento do qual o riso está completamente ausente. Se morre uma criança, eu não tenho nada para dizer. Não tenho nada para dizer. Não consigo… não há hipótese.

Tens uma crónica onde dizes que o barulho de duas pessoas a brindar não é «tchim-tchim!». Nunca me tinha ocorrido. Obrigada por isso.
Não, nunca nenhum grupo de pessoas brindou e se ouviu «tchim-tchim!». Não é possível. Porque ou são duas pessoas a brindar e é só «tchim!» ou, se são três, e é «tchim-tchim-tchim!» que é o barulho da pessoa A a brindar com a pessoa B, a pessoa B a brindar com a pessoa C e da pessoa A a brindar com a pessoa C. Por isso «tchim-tchim!» é uma expressão que não faz qualquer espécie de sentido. Nenhum, não faz nenhum.

Quando as tuas filhas têm que preencher o espaço destinado à profissão do pai, o que escrevem?
Têm muita dificuldade em preencher esse espaço. Profissão do pai, o que escrever aí? O que eu ponho nos impostos é guionista. Eu escrevo guiões para pessoas dizerem – agora, neste momento, sou eu que os digo. Mas é isso. O meu trabalho não é interpretar textos é escrevê-los.

Wook está na tua mesinha de cabeceira?
Estou a ler um livro do Terry Eagleton, que é crítico e professor de literatura inglês. Chama-se Humour, escrito em inglês, ou seja, com o-u. Ando de roda daquilo e de um outro livro que eu comprei no México, quando estava em Guadalajara, de um escritor madrileno e que me está a divertir muito, mas cujo nome me escapa agora… estou muito monotemático, neste momento.
E ando à procura de um livro chamado Caminhadas com Robert Walser, de uma editora pequena, que eu não consigo encontrar em lado nenhum.

Já procuraste na WOOK?
Ahhhh, na WOOK… Já, já, por acaso já!

Se não há na WOOK não existe!
Está na WOOK. Aliás, quando às vezes estou numa livraria - porque eu não tenho o hábito de comprar coisas pela Internet -, ponho na WOOK e digo: «É este que está aqui na WOOK!» Obrigado à WOOK!
«GOSTAVA DE TER UM EGO INDESTRUTÍVEL»
Dizes arrepender-te sobre quase tudo o que fizeste, ao contrário de Edith Piaf. Queres dar-nos exemplos concretos?
Quando eu digo tudo é mesmo tudo. Há sempre qualquer coisa que eu tenha feito que, ou da qual me arrependo totalmente, ou me arrependo da maneira como fiz – podia ter feito bem em vez de mal… era uma coisa simpática eu começar a pensar nisso, fazer coisas boas em vez de más - ou mesmo, na eventualidade remota de fazer alguma coisa mais ou menos bem feita, poder fazer uma melhor ainda.

Tudo é uma fonte de arrependimento?
Tudo é uma fonte de arrependimento e de recordação de fracasso para que eu chafurde no lamaçal da depressão.

O reconhecimento e o apreço do público são importantes para ti?
Às vezes ponho-me a pensar nisso e a pensar, sobretudo, naquilo a que costumamos chamar «sucesso» e aquilo a que costumamos chamar «fracasso» serem, cada um à sua maneira, uma fraude ou uma fantasia. Ou seja: se as pessoas deixassem de me abordar, como fatalmente irá acontecer, o que é que vai acontecer nessa altura? Se isso me vai incomodar, ou se vou ter resistência mental para não deixar que isso me afete? Não tenho nenhuma resposta para dar.
Para já, eu não faço aquela rábula da pessoa atormentada pela fama – que chatice, as pessoas vêm ter comigo –, não faço nada disso, antes pelo contrário. Como é que eu posso queixar-me de uma coisa que é lá vem mais uma pessoa ser afetuosa comigo, ó que chatice! Mas que vida malvada!
Seria absurdo se eu fizesse isso. E, portanto, não faço. Até agradeço que as pessoas venham. Eu também já abordei na rua pessoas de quem gostava e sei que isso envolve alguma coragem, algum embaraço. A última coisa que uma pessoa pretende quando está nessa situação é que a pessoa de quem ela gosta e com quem ela vai falar a trate mal.

E quando há o reverso da medalha? Quando as pessoas te insultam?
Ninguém me insulta. É uma questão de bom senso, acho eu. As pessoas que não têm nenhum apreço por mim – normalmente são as mais sensatas! – não dizem nada. Não ficam ali ó palerma!... 
Normalmente há afeto e, às vezes, no caso de já ser tarde e as pessoas estarem ligeiramente embriagadas, há afeto violento. Que envolve até baba. E abraços não desejados.

Se tivesses um superpoder, qual seria?
Sou mau em banda desenhada e estou muito interessado, porque vi com as minhas filhas, os vídeos do Deadpool - que em princípio não são apropriados para as idades delas e nessa medida espero que a Segurança Social não me venha buscar as miúdas - e fiquei muito impressionado porque ele é indestrutível. Ele leva tiros e regenera-se, cortam-lhe um braço e ele volta a crescer. Mas o principal do Deadpool é que ele não é invulnerável só no corpo, ele tem o ego indestrutível também. E a maneira como o ego dele é indestrutível é através do sentido de humor. Ele é o único herói que tem consciência de si próprio. O Super-Homem não faz ideia que está num filme, que está num livro de quadradinhos; o Deadpool sabe perfeitamente. O superpoder essencial é esse: ter um ego indestrutível como ele tem. É algo que é bom ambicionarmos.

O que tem de irredutivelmente singular a sua vida?
Não sei se há alguma coisa…
Para já, porque é uma vida banal. Banal no sentido de estar em casa. Não ando em cocktails e vernissages. Basicamente, estou em casa, vestido com roupas de andar em casa*, a ler e a coçar-me. 

*[o autor tem uma crónica sobre este assunto no livro Mixórdia de Temáticas – Série Lobato]

Passas muito tempo em casa?
Sim, passo. É claro que a minha profissão é pública e isso não é uma coisa banal. E mesmo a questão da fama não é banal, mas eu acho que consigo manter a minha vida banal. O mundo das minhas filhas não é diferente do mundo das outras crianças.
ESPREITE O VÍDEO DA ENTREVISTA
RICARDO ARAÚJO PERERIA EM ENTREVISTA AO WOOKACONTECE

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