Quer escrever? Miguel Esteves Cardoso ensina-lhe!

Por Vera Dantas
12 de agosto de 2024
Este livro agarra-nos logo pela capa. O nome do autor – Miguel Esteves Cardoso, o MEC, nada menos – brilha em letras vermelhas sobre uma viva tela amarela, onde se pintam frases que respondem ao que o título promete: Como Escrever.
Ao folheá-lo, salta à vista que as páginas têm margens excecionalmente espaçosas – e ao ler o prefácio, que MEC disfarçou de I Capítulo, para garantir que o liam – percebemos que não é por acaso. Conta-nos o seu escritor que, durante três verões seguidos, catalogou todos os livros da biblioteca do seu avô e do seu pai e que, no processo, descobriu que «a partir de certa altura, os livros começaram a ter margens grandes, para caberem anotações», que são «valores acrescentados», ou «contra-argumentos». Deixemo-nos por isso do tabu de «não escrever nos livros», que o papel e as margens deste exemplar «foram escolhidos para o leitor poder fazer anotações à vontade».

Afastada desde logo a ideia de que poderíamos estar perante uma lista de teorias inaplicáveis na prática, o leitor sente-se apaziguado e cheio de garra para pôr mãos à obra – que é o mesmo que dizer, à escrita. E o que deve, então, fazer? Primeiro, se precisa de motivação, lembre-se que «o que se escreve fica» porque «o que se escreveu ficou exprimido, a alma teve vazão». O que é preciso para começar? É preciso «desfazer o mecanismo repressivo» que fez com que não tenha escrito… escrevendo!
Claro que há muito mais a ter em conta, e por isso MEC escreveu um desfile de capítulos que se leem como um dos seus livros de crónicas. Cada capítulo dá uma lição enquanto conta uma história, ou várias, que uma coisa boa nunca vem só. Vida e escrita, escrita e vida, pessoas e palavras, livros, papel e caneta, solidão e companhia, tudo cabe nestas páginas escritas para quem quer escrever.
 Miguel Esteves Cardoso, Como Escrever_wookacontece
Miguel Esteves Cardoso / Foto © Maria João Esteves Cardoso
 
 Como Escrever_Miguel Esteves Cardoso
 
Seria impróprio, para com o autor e a sua obra, revelar-lhe os detalhes de cada diamante que vai encontrar neste tesouro, mas garantimos que é precioso e que não lhe vai fugir, ao contrário do duende que guarda o pote de ouro na ponta do arco-íris. A mais deliciosa e desejada matéria-prima está nas páginas deste livro cor de sol de verão. Cabe-lhe a si delapidá-la, ou cozinhá-la – a metáfora variará conforme prefira pedras preciosas ou iguarias gastronómicas. A recompensa é que, depois de aplicar a mestria do melhor mestre por estas e outras paragens, vai mesmo saber como escrever.

Para animar esse engenho, despedimo-nos servindo-lhe, em modo de antipasti, um primeiro gosto deste manjar para aspirantes a todas as escritas: uma das sugestões práticas de Miguel Esteves Cardoso.

«O melhor conselho que posso dar a quem quer escrever é este: não queira escrever um livro.
Quando eu me ponho a contar as pessoas que conheço que sabiam escrever e que eu queria continuar a ler, mas que deixaram de escrever de um dia para o outro, têm todas uma coisa em comum: escreveram um livro
Muitos até publicaram um livro.
O objetivo deste meu livro é pôr as pessoas a escrever, claro, mas é, sobretudo, que continuem a escrever.(…) Só depois de se escrever é que se deve pensar no formato a dar àquilo que se escreveu.
Querer escrever um livro não é apenas pôr o carro à frente dos bois: é apostar que os bois vão ganhar Óscares de ganadaria.»

Excerto de Como Escrever.
 

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