Quatro poemas de Frederico Pedreira

17 de janeiro de 2020

Frederico Pedreira nasceu em 1983. Traduziu W. B. Yeats, Louise Glück, George Orwell e Dickens, entre outros, e já publicou diversos livros de prosa, poesia e ensaio, tendo recebido o Prémio INCM/Vasco Graça Moura neste última categoria em 2016.
Acaba de lançar Coração Lento, um livro de poemas.





II.

Fósforo a fósforo
ilumino o teu rosto
como se fosse um fruto
lustroso, húmido das chuvas,
e a tua pele, como esse negro fruto
que me depuseram nas mãos,
descasca-se lentamente,
como se fosse apagando aos poucos
o seu próprio coração,
embora não seja extinção,
mas algo mais brando
o que o ilumina esta noite,
pousado em silêncio
sobre os meus joelhos.





X.

Jogavam xadrez junto ao mar.
Ela segurava uma romã,
ouvia-se o marulhar das águas
que nada separavam.
A sua camisola azul,
tudo rebrilhava, vermelho e azul,
nuns lábios de algodão.
As mãos dir-se-ia que ensanguentadas,
a vítrea cor dos olhos não temia
o adivinhar das próximas mortes
no suave declínio do amor.





XVI.

Houve um tempo em que me perdi
na esquina do desamor, outro houve
em que nada quis que não tivesse,
e nessa volta lenta dos derrotados
procurei sempre um sinal de luz
que me contasse os traços do teu rosto
num clarão de brevidade impossível –
como agora faço, acendendo palavras
fósforo a fósforo para nos ver sorrir
entre a roda dos cães soturnos.





XXXI.

Todas as personagens são,
por enquanto, um peso morto
na minha imaginação.
Só vejo cenários,
apetece a poesia possível
desses enredos onde ninguém pôs o pé.
Não gosto de falar ao ouvido
das personagens para que façam o que eu digo.
Nesta escrita pobre e dura,
angulosa como um caroço sem graça
ou mérito científico,
é ao meu ouvido que falo: repete
o mar, o bote nessas águas,
desdenha em paz de outros lugares.

Frederico Pedreira, Coração Lento

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