«Quando um dia estiver morto»

Artista plástico, fotógrafo surrealista, designer, publicitário e poeta. Fernando Lemos (1926-2019) era um homem pluridisciplinar que nunca coube numa só definição. Na década de 1940, comprou uma Flexaret checoslovaca, «máquina primitiva» que o impelia a fotografar tudo. Naquela época, passaram pela sua objetiva vários nomes do mundo intelectual: Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Adolfo Casaes Monteiro, Mário Cesariny ou Alexandre O'Neill foram apenas alguns.

Homem de duas pátrias, emigrou para o Brasil em 1953 para fugir ao salazarismo com «vergonha das tiranias» a que teve que assistir. E por lá ficou.
Fernando Lemos morreu esta terça-feira, dia 17 de dezembro, em São Paulo, o lugar onde se fixou com ganas de liberdade.
Quando um dia estiver morto
não me chamem assim de morto
mas digam que fui um fraco
que lutei
Não digam que acabei
mas que estou iludido
Que fiz desertos com túmulos
praias geladas ao passear doentes

Digam que está ali comigo a cor
o ar e a posse
Que fui igual e traído
Que acordei dentro do vulcão
rompi manhãs de veludo
feito um rato
Que confundi papel com outro papel
Que troquei a mão de alguém
por outra mão
o sorriso por um desejo
a cerimónia por acto amoroso
Que troquei as horas por frases inocentes
e as rosas por actos gratuitos

Digam que cruzei mal as linhas
que rasguei papéis de valor
e soquei mulheres
Que amei os velhacos
fui traído com amor
raiva e convicção
Que perdi oportunidades
e das melhores
Que não conheci nem a lei
nem o cheiro do crime
Que abusei da minha força
na fraqueza dos outros
e da fraqueza também

Digam que fui ridículo
e até brilhante
Podem dizer que não roubei
nem fui culpado nas guerras

Quando morrer não digam

Não me chamem assim de morto

Fernando Lemos, Poesia

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