Portugal e a IA

Pedro Domingos 
3 de junho de 2026
A Inteligência Artificial (IA) é uma oportunidade extraordinária para Portugal, mas para tirarmos máximo partido dela é necessário compreendermos o que é e não é, para que serve e não serve, e a sua relação com a inteligência humana.
A definição popular de IA é que é a automatização de capacidades intrinsecamente humanas como o raciocínio, a visão, a linguagem e a aprendizagem. É uma definição perfeitamente razoável, mas infelizmente promove a confusão com a inteligência humana, e essa confusão tem uma série de consequências extremamente indesejáveis.
É, portanto, importante conhecermos também a definição técnica: a IA é a resolução de problemas intratáveis por métodos heurísticos. Ao contrário do resto da informática, que lida com problemas que podem ser resolvidos eficientemente, a IA lida com problemas que levam tempo exponencial a resolver. É então necessário recorrer a métodos heurísticos, que podem ser extremamente poderosos, mas são também inevitavelmente falíveis. A IA abrange, portanto, coisas que os seres humanos fazem, mas também coisas muito diferentes, e formas muito diferentes de as fazer.
Uma das lições que aprendemos a grande custo nos últimos 50 anos é que as melhores aplicações para a IA são precisamente o oposto do que nos diz a intuição. O trabalho administrativo é fácil de automatizar. O trabalho manual é difícil. Etc. As tarefas quotidianas são fáceis para nós e difíceis para os computadores, porque a evolução levou 500 mil anos a aperfeiçoar-nos para elas. As tarefas que precisam dum curso superior são precisamente o contrário: difíceis para nós, mais fáceis para os computadores.
A nossa tendência irresistível a projetar características humanas sobre os sistemas de IA leva frequentemente a que imaginemos que eles têm capacidades muito diferentes das que realmente têm.
Para compreender qual vai ser o impacto da IA na economia e no trabalho, devemos olhar de forma pragmática para a questão. O principal efeito económico da IA não é substituir os humanos, é baixar enormemente o custo da inteligência. E quando o custo baixa, a procura aumenta. A IA vai tornar possível uma vasta quantidade de aplicações que hoje mal podemos imaginar, tal como sucedeu com as formas anteriores de automatização. E quando o custo dum produto baixa, o valor dos seus complementos sobe. Quando o custo da manteiga baixa, o valor do pão sobe. E o grande complemento da inteligência artificial é a inteligência humana. O resultado é que vai haver mais empregos que antes, e vão ser mais bem pagos — mais uma vez tal como se passou com outras formas de automatização.
E além disso quando o custo dos produtos baixa, sobra-nos mais dinheiro depois de os comprarmos, e podemos gastá-lo noutras coisas — aumentando o emprego e os salários em setores que não têm à partida nada a ver com a IA, como a restauração e a construção civil. E o resultado de tudo isto é a melhoria da qualidade de vida de todos.
A grande preocupação hoje em dia é com as coisas que tanto a IA como os humanos podem fazer, e em que os humanos podem potencialmente ser substituídos por ela — esta pequena interseção aqui. Mas a quantidade destas coisas é pequena comparada com a quantidade de coisas que os humanos fazem bem e a IA não, e vice-versa. E o mais importante é a quantidade ainda maior de coisas que os seres humanos e a IA em conjunto vão poder fazer que individualmente não poderiam. Esta grande área é onde nós devemos concentrar os nossos esforços.
Mas o efeito da IA não vai ser apenas na economia e no trabalho. A longo prazo, o efeito mais importante vai ser melhorar o funcionamento da sociedade e da democracia. Por exemplo, os sistemas de recomendação que são hoje utilizados para recomendar filmes, música, produtos e “tweets” podem também ser utilizados para recomendar em quem e no que votar. O resultado é: eleitores que votam mais de acordo com os seus interesses sem terem que para isso gastar muito mais tempo a informar-se, políticos que compreendem melhor os eleitores, e votos sobre questões de granularidade muito mais fina do que é hoje possível.
Mas isto é apenas um pequeno exemplo. A vocação fundamental da IA é melhorar grandemente a nossa inteligência coletiva, em todas as áreas. A IA recebe conhecimento dos colaboradores humanos, aprende e raciocina, e responde às perguntas dos utilizadores. Por sua vez, utiliza os resultados para aprender mais e para dar feedback aos colaboradores. Desta forma, uma sociedade permeada pela IA funciona incomparavelmente melhor que uma sociedade sem ela.
Infelizmente, o que se passa hoje na Europa é que as pessoas estão tão preocupadas com os potenciais perigos da IA que nos arriscamos a estrangulá-la com regulações. O AI Act, por exemplo, é um golo na própria baliza que nos vai custar triliões de euros sem benefícios comensuráveis.
Isto não significa que não haja perigos associados à IA, mas os perigos reais são diferentes dos que recebem mais atenção dos media. Os quatro perigos com que as pessoas estão obcecadas — os quatro cavaleiros do Apocalipse — são a desinformação, a discriminação, o desemprego e a extinção causados pela IA. Mas estes perigos são hipotéticos ou imaginários — tal como os quatro cavaleiros do Apocalipse originais. Há montes de artigos sobre eles, mas nenhum caso demonstrado de danos causados pela IA através deles.
O grande perigo da IA é a estupidez artificial — decisões erradas tomadas todos os dias por sistemas que têm falta de conhecimento, de senso comum, de inteligência real, porque são simplesmente modelos treinados com os dados disponíveis.
O outro grande perigo da IA é a sua utilização por maus agentes, como estados totalitários e criminosos. E a cura para todos estes perigos é mais e melhor IA: para tomar melhores decisões, para cometer menos erros, para apanhar os criminosos, e para ganhar a corrida contra os totalitários — uma corrida que é inevitável e, se a perdermos, terá sérias consequências económicas, políticas e militares.
Ironicamente, as soluções propostas para os perigos imaginários da IA todas revolvem em torno de a limitar e constringir — precisamente o oposto do que é preciso para combater os perigos reais. E todas também envolvem a centralização do controlo da IA, o que ironicamente a torna menos segura, não mais, como nos ensinou o sucesso do software open-source.
Portugal está numa posição única para tirar partido da IA, se conseguir evitar os erros em que outros países estão a cair. Tem uma comunidade de investigação em IA de primeira linha, e de dimensões desproporcionadas às do país. Tem indústrias em que pode ser líder na aplicação da IA. Tem potencialmente uma agilidade que países maiores terão dificuldade em igualar. O exemplo da Estónia e da digitalização é instrutivo. De república soviética transformou-se num dos países mais bem-sucedidos da União Europeia, em grande parte devido às suas políticas e iniciativas bem pensadas e executadas no domínio digital. Portugal pode ser a Estónia da IA. Obviamente há entraves psicológicos, sociológicos, económicos e políticos. Para os ultrapassar é preciso haver vontade política, iniciativa empresarial e participação de todos. Por isso pergunto-vos: estamos prontos? Se estamos, vamos a isto.


* Professor de Ciências da Computação na Universidade de Washington, autor do livro A Revolução do Algoritmo Mestre, distinguido em 2014 com o ACM SIGKDD Innovation Award, o mais prestigiado prémio em inovações técnicas com impacto duradouro na teoria e prática da ciência de dados.

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