Poeta boémio, malandro e genial. O que é que Chico tem?

Francisco Buarque de Hollanda
O músico e escritor brasileiro Chico Buarque é o vencedor do Prémio Camões 2019, a mais importante distinção em Língua Portuguesa.

O ícone da MPB é, assim, consagrado com o definitivo reconhecimento enquanto escritor.
A decisão foi anunciada esta terça-feira, dia 21 de maio, a partir da Biblioteca Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro. «Fiquei muito feliz e honrado de seguir os passos de Raduan Nassar», disse numa breve nota à imprensa enviada pelo seu assessor Mario Canivello.

Houve um coro de enaltecimento, houve um de espanto. Até aqui, nada de novo. Se o leitor também teve dúvidas na atribuição do prémio a um músico – como se fosse possível reduzir Chico Buarque a uma só coisa – vamos redesenhar a vida e obra do carioca, mas antes começamos pela justificação de um dos membros do júri:
«É evidente que esse prémio é um reconhecimento pela poesia dele nas letras de música, que também são literárias, não só pelos livros. São poemas. Grandes poemas», afirmou Antonio Cícero. (…) «O debate sobre se a canção é ou não um género literário já devia estar encerrado.»
Já em 2010, Cícero havia sido lapidar:
«A distinção que os poetas enquanto poetas almejam não se reduz, portanto, nem a ganhos materiais nem à fama mundana. O que pretendem é a glória de terem sido os autores de poemas que, valendo por si por serem, como as demais obras clássicas, dotados do ‘eterno e irreprimível frescor’ de que falava o poeta Ezra Pound, sejam indiferentes às contingências do tempo.»
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Poesia, teatro e romance. O carácter multifacetado sempre permitiu que Chico Buarque se movesse em diversas áreas como o mais fino grão de areia
A sua breve, mas premiada obra literária já lhe valeu três prémios Jabuti: Estorvo, romance premiado em 1992, Budapeste, em 2004 e tido pela crítica como o seu melhor livro, e Leite Derramado, em 2010.
As comparações inevitáveis com Bob Dylan, que recebeu o Prémio Nobel em 2016, não fazem justiça à obra do brasileiro por quem verdadeiramente a conhece.
Há quem prefira acreditar que cancioneiro buarquiano não seja compreendido pelas novas gerações que veem Chico como um apoiante do PT que foi caindo em desgraça, uma atrás da outra. O músico acabou, a dada altura, por se tornar numa das suas personagens mais célebres – Geni – «feita pra apanhar, boa de cuspir». Foi até apelidado de machista, o mesmo Chico de Cecília ou de Renata Maria. Como pôde?
Chico seguiu, de novo, falando mais alto nas entrelinhas do que qualquer discurso inflamado no Face, no Whatsapp, no Instagram, no Orkut. Ao lermos Tantas Palavras, obra que reúne todas as letras do artista e uma biografia escrita por Humberto Werneck, recentemente editada em Portugal pela Companhia das Letras, ficamos, por fim, esclarecidos: «Ela [a música de Chico] não tem compromisso com o sucesso, o que talvez a torne mais longeva.»
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
É inegável que o seu trabalho atravessa fronteiras, engrandece a língua e é uma referência na cultura contemporânea. Só um ouvido desatento e um olhar menos sério o tomam por desmérito.
Da música à escrita, a sua obra assenta na mais impoluta e intrínseca coerência e numa sensibilidade ética e artística fora do comum.
Além do mais, este prémio contempla também uma poderosa mensagem política enquadrada no panorama atual do Brasil: a força da palavra, a crítica ao poder instalado. Uma tomada de posição em tempos difíceis.

Francisco Buarque de Hollanda celebra 75 anos no dia 19 de junho.
Apaixonado por futebol, fascinado por dicionários, nome maior das artes brasileiras. Por favor, deixem-no passar.

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