«Partir sem chegar», por José Tolentino Mendonça

Neste livro, o autor reflete «sobre o amplo significado da palavra fronteira, nas suas múltiplas dimensões e como metáfora emblemática da humanidade, ontem como hoje».
A poesia de José Tolentino de Mendonça é mesmo uma bênção.
PARTIR SEM CHEGAR

Precisarás de tempo para alcançar a margem
o ramo do tamarindo onde te espera
o assobio do barqueiro
não é o primeiro
deverás tactear a escuridão da folhagem
e enganares-te tantas vezes
que te convenças que não sabes

estreita é a corrente invisível que nos conduz
por corredores, registos, águas em queda
àquele momento talvez involuntário
onde palavra dita a palavra calada
se tocam

José Tolentino Mendonça, Teoria da Fronteira

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