«O que vemos é terrível»

Inferno é o livro de estreia de Pedro Eiras na poesia e o primeiro volume de um tríptico que muito literalmente visita a obra de Dante Alighieri.
Chega agora às livrarias com o carimbo Assírio & Alvim.
VIII

O que vemos é terrível.
Mas é muito pior
o que não vemos,
porque nem sabemos
o que não vemos.

Porque os telescópios, os microscópios
deixam ver
o distante
e o pequeno;
porque inventámos instrumentos
para ver o que sabíamos
que não víamos,
mas nenhum para ver
o que não sabemos
que não vemos.

Porque ninguém conhece a sua cegueira,
senão demasiado tarde, quando
o incêndio apagou,
o vento enterrou as cinzas,
e já ninguém sabe onde isto tudo aconteceu.

Mesmo o que não vemos
desgastamos; por lapso,
por incúria, destruímos;
e também porque estragar, ao fim e ao cabo,
nos distrai.
Mas muito mais destruímos
o que não vemos,
porque não o vemos, e
nem sabemos que destruímos.

E não ver não nos torna
inocentes;
porque deveríamos ver o que não vemos,
porém não vemos
o que não vemos.

Pedro Eiras, Inferno

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