«O Estrangeiro» e «O Mago do Kremlin» [com trailers]

19 de março de 2026
Os filmes mais quentes do momento, que nasceram das páginas dos livros.
O Estrangeiro, de Albert Camus
Chamavam-lhe simplesmente Meursault, mas a sua aparente indiferença perante o mundo transformou-o numa das figuras mais desconcertantes da literatura moderna. Funcionário comum, homem de rotinas silenciosas, vive à margem das emoções que os outros esperam dele — e é precisamente essa distância, quase cruel na sua frieza, que o empurra para o centro de uma história que se tornará inesquecível.
Depois da morte da mãe, Meursault vê-se arrastado por acontecimentos que não procura e que, pouco a pouco, o conduzem a um gesto irreversível. A partir daí, a narrativa mergulha-nos num universo onde a justiça parece menos preocupada com o crime cometido do que com a incapacidade do protagonista de representar o papel social que lhe é exigido. Camus constrói, assim, um retrato implacável da condição humana, onde o absurdo não é uma teoria, mas uma experiência vivida na pele.
No tribunal, Meursault torna-se símbolo de tudo aquilo que a sociedade teme: alguém que não finge, que não dramatiza, que não se molda às convenções. A sua recusa em mentir — mesmo quando isso poderia salvá-lo — transforma-o numa espécie de estrangeiro dentro da própria vida, condenado não apenas pelos seus actos, mas pela sua sinceridade brutal.
O Estrangeiro permanece, décadas depois, um dos romances mais perturbadores do século XX, uma reflexão poderosa sobre liberdade, moralidade e o peso das expectativas sociais. E a mais recente adaptação ao cinema reacendeu o debate em torno da figura de Meursault, trazendo para o grande ecrã a mesma inquietação que Camus imprimiu às páginas do livro.
Onde ver?: Num cinema perto de si
Data de estreia: 12 de março de 2026
QUERO LER!»
O Mago do Kremlin, de Giuliano da Empoli
Conhecido como o “mago do Kremlin”, Vadim Baranov (inspirado no político e empresário Vladislav Surkov, principal ideólogo das políticas de Vladimir Putin) sempre foi uma figura envolta em mistério. Antes de ascender ao círculo íntimo do líder russo — tratado por muitos como o Czar — dedicara-se à realização e produção de reality shows. Quando abandonou o cargo de conselheiro, em vez de desaparecer do imaginário público, tornou-se ainda mais lendário, e ninguém parecia capaz de distinguir mito de realidade. Até que, numa noite, decidiu confiar o seu percurso ao narrador deste romance.
O relato conduz-nos ao núcleo duro do poder russo, um território onde bajuladores, oligarcas e estrategas disputam influência sem tréguas. É nesse ambiente que Vadim se transforma no grande artífice da propaganda estatal, convertendo o país num vasto palco político onde apenas uma verdade pode ser representada: a concretização da vontade do Czar. Diferente de tantos outros movidos apenas pela ambição, Vadim vê-se gradualmente aprisionado pelos mecanismos sombrios que ajudou a erguer — e fará o possível para escapar.
Da guerra na Chechénia à crise ucraniana, O Mago do Kremlin é um romance imprescindível para conhecer a Rússia contemporânea, vencedor do Prémio Honoré de Balzac e do Grande Prémio do Romance da Academia Francesa. A adaptação ao cinema com argumento do realizador Olivier Assayas e do premiado escritor Emmanuel Carrère tem merecido as melhores críticas e merece também ser vista.
Onde ver?: Num cinema perto de si
Data de estreia: 12 de março de 2026
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