O Cérebro da Criança Explicado aos Pais

«O período mais importante na vida não é o da universidade, mas sim o primeiro de todos; desde o nascimento até aos 6 anos de idade.» A frase é de Maria Montessori e dá início ao livro de Álvaro Bilbao, o neuropsicólogo e autor da obra O Cérebro da Criança Explicado aos Pais, da qual partilhamos já de seguida um excerto.
O Cérebro da Criança Explicado aos Pais
Capa do livro
O Cérebro da Criança
As crianças despertam uma emoção única em qualquer adulto. Os seus gestos, a sua alegria sincera e a sua inocência comovem-nos como nenhuma outra experiência na vida consegue fazê-lo. A criança estabelece uma ligação de uma maneira directa com uma parte muito especial de nós próprios: aquela criança que fomos e que ainda somos. É possível que nos últimos dias lhe tenha apetecido cantar na rua, irritar-se com o seu chefe ou saltar em cima de uma poça de água num dia de chuva, e talvez devido às responsabilidades ou à vergonha não o tenha feito. Estar com uma criança é uma experiência importante, porque quando estamos com ela estabelecemos uma relação com uma parte muito especial de nós próprios: a criança perdida que precisamos de encontrar em tantos momentos da nossa vida e que é, provavelmente, a melhor parte de cada um de nós
Se tem este livro na mão
Se tem este livro na mão é porque, como pai, mãe ou educador, há uma criança na sua vida e como tal tem oportunidade de estabelecer uma ligação com a parte do cérebro que ri, brinca e sonha no seu interior. Educar uma criança também é uma grande responsabilidade e, provavelmente, o acto mais importante da vida de muitas pessoas. A importância da paternidade atinge todos os níveis da existência humana. No campo biológico, os filhos são a semente que pode disseminar os seus genes e garantir a sua difusão nas gerações futuras. No campo psicológico, implica para muitas pessoas a realização de um instinto que não se pode reprimir. E, no espiritual, representa a possibilidade de atingir a plenitude ao ver os filhos crescerem felizes. Tal como qualquer pai ou mãe percebe assim que segura o seu filho nos braços pela primeira vez, a paternidade também implica uma série de responsabilidades de todo o tipo. Em primeiro lugar estão as relacionadas com o cuidado, que incluem a nutrição, a higiene e a protecção básica da criança. Felizmente, as parteiras do hospital e as sempre disponíveis avós ter-lhe-ão dado aulas teóricas e práticas sobre tudo isso. Em segundo lugar estão as responsabilidades económicas. Um filho implica uma série de gastos que é preciso assumir para satisfação de grandes superfícies, farmácias, infantários e supermercados. Felizmente, o sistema de ensino instruiu-o durante uma média de doze anos para que ganhe um salário. Lê e escreve. Sabe trabalhar com um computador. Fala – ou tenta falar – inglês. É capaz de ficar sentado durante quase oito horas todos os dias. Sabe trabalhar em equipa e tem formação específica no que quer que faça. A terceira responsabilidade de qualquer pai, e a mais importante, é a educação dos seus filhos. Na minha perspectiva, educar é apenas apoiar a criança no seu desenvolvimento cerebral, para que algum dia esse cérebro lhe permita ser autónoma, atingir as suas metas e sentir-se bem consigo própria. Embora explicado assim possa parecer um pouco simples, educar tem as suas dificuldades, e a maior parte dos pais e das mães não teve qualquer formação sobre a forma como podem ajudar os seus filhos nesse processo. Essencialmente, desconhecem qual é o funcionamento básico cerebral, como se desenvolve ou como podem apoiar o seu amadurecimento. Por vezes, os pais e as mães sentem-se perdidos, à toa ou inseguros em relação à forma como podem ajudar os filhos em diferentes aspectos do seu amadurecimento intelectual e emocional. Outras vezes agirão com confiança, mas de forma contrária àquela que o cérebro do filho precisa nesse momento. Não o quero enganar nem lhe quero apresentar uma ideia distorcida da influência que, como mãe ou pai, pode ter no desenvolvimento intelectual e emocional dos seus filhos. O seu filho vem equipado de série com um carácter que marcará a sua forma de ser para toda a vida. Há crianças mais introvertidas e outras mais extrovertidas. Há crianças calmas e outras nervosas. Também sabemos que pelo menos 50% da inteligência dos seus filhos é determinada pelos genes. Alguns estudos indicam que, provavelmente, outros 25% dependem dos colegas da escola e dos amigos com que se relacionam. Isto levou alguns especialistas a assumir que os pais têm pouca influência no desenvolvimento dos filhos. Porém, esta afirmação não está correcta. A criança, muito especialmente durante os primeiros anos de vida, precisa dos pais para se desenvolver. Sem o leite materno, sem os seus cuidados, sem as suas palavras ou sem os seus abraços que a protegem e acalmam, a criança cresceria com necessidades intelectuais e emocionais irreparáveis. O desenvolvimento cerebral da criança está na segurança, no cuidado e no estímulo que a família oferece. Hoje em dia, os pais e as mães têm mais oportunidades do que em qualquer outra época da História de acertar na educação dos seus filhos. Dispomos de mais informação e as investigações sobre o cérebro põem à nossa disposição conhecimentos e ferramentas práticas que podem ajudar os nossos filhos a desenvolverem-se plenamente. Infelizmente, também podemos enganar-nos mais. A verdade é que em apenas duas décadas o número de crianças que tomam medicação neurológica ou psiquiátrica nos Estados Unidos foi multiplicado por sete. Esta tendência continua a crescer e parece espalhar-se como um rastilho de pólvora através do mundo «desenvolvido» e, actualmente, uma em cada nove crianças passará parte da sua etapa escolar sob efeito de psicofármacos. A verdade é que perdemos valores na educação das crianças, valores que a ciência destaca como fundamentais para um desenvolvimento cerebral equilibrado. Consequentemente, no âmbito da educação e do desenvolvimento infantil proliferam corporações interessadas em ganhar dinheiro com complexos programas de estimulação cerebral, infantários capazes de criar génios ou fármacos que revertem a possibilidade de se distraírem e que melhoram o seu comportamento. Estas empresas baseiam-se na crença popular de que este tipo de programas, incentivos ou tratamentos têm um impacte positivo no desenvolvimento cerebral. No outro extremo há também teorias e pais que confiam numa educação radicalmente natural, na qual a criança cresce livre de normas ou frustrações, incentivados por estudos que indicam que a frustração no bebé pode provocar problemas emocionais, que os limites interferem no potencial criativo da criança ou que um excesso de recompensas pode criar problemas na sua confiança. As duas concepções, a de que o cérebro da criança potencia as suas capacidades com o reforço da tecnologia e a de que o ser humano só é capaz de atingir um desenvolvimento pleno através da exploração e da experiência livre, demonstraram não estar correctas. A realidade é que o cérebro não funciona como gostaríamos que funcionasse, nem sequer como, por vezes, julgamos que funciona. O cérebro funciona como funciona. Neurocientistas de todo o mundo andam há décadas a tentar decifrar quais são os princípios nos quais se apoia o desenvolvimento cerebral e que estratégias são mais efectivas para ajudar as crianças a serem mais felizes e a desfrutarem de uma capacidade intelectual plena. As investigações sobre evolução e genética revelam que, longe de sermos puramente bondosos, nós, seres humanos, temos instintos opostos. Basta ir a um recreio de uma escola para ver como, longe dos olhares dos professores, aparecem os instintos de generosidade em forma de altruísmo e colaboração mútua, mas também outros mais selvagens, como a agressividade e o domínio. Sem o apoio dos pais e dos professores para que guiem a criança e a ajudem a satisfazer as suas necessidades dentro dos limites que o respeito pelos outros estabelece, a criança está perdida. Sabemos que em grande medida o que fez evoluir a nossa espécie foi a nossa capacidade de transmitir valores e cultura de geração em geração, o que nos tornou mais civilizados e solidários – embora, nos dias que correm, possa não o parecer –, um trabalho que o cérebro não pode fazer por si próprio e que precisa do acompanhamento atento de pais e professores. Outras investigações sobre o desenvolvimento cerebral apresentam dados segundo os quais o estímulo precoce não tem qualquer impacte na inteligência de uma criança saudável. Neste sentido, a única coisa que parece demonstrada é que durante os primeiros anos de vida a criança tem uma maior capacidade para desenvolver aquilo que conhecemos como o ouvido absoluto, ou a capacidade de aprender música ou uma língua como se fosse a língua materna. Isto não significa que uma escola bilingue seja melhor do que uma escola não bilingue, sobretudo porque se os professores não forem nativos a criança desenvolverá um ouvido com sotaque, em vez de desenvolver um ouvido absoluto. Neste sentido, pode ser mais benéfico que as crianças vejam os filmes em versão original, ou que tenham algumas aulas por semana de inglês ou chinês, mas que sejam dadas por professores nativos. Ao mesmo tempo também sabemos que programas como o Baby Einstein, ou ouvir música de Mozart, não contribuem para o desenvolvimento intelectual da criança. Uma criança que ouve música clássica pode relaxar e, portanto, realizar melhor alguns exercícios de concentração uns minutos depois, mas nada mais. Passados uns minutos, o efeito desvanece-se. Da mesma forma, dispomos de dados categóricos que demonstram que a exposição das crianças a smartphones, tablets e outros dispositivos electrónicos eleva o risco de terem problemas de comportamento ou perturbações de défice de atenção. Estes dados também indicam que este défice está, sem sombra de dúvidas, sobrediagnosticado; ou seja, há uma percentagem relativamente elevada de crianças que tomam medicação psiquiátrica que, na verdade, não precisam. A tendência para sobrediagnosticar o défice de atenção é apenas a ponta do icebergue. Longe de serem as responsáveis, as farmacêuticas só aproveitam o contexto educativo de muitos lares. As longas jornadas de trabalho, a falta de dedicação dos pais, a falta de paciência e de limites e – como já indicámos – o aparecimento dos smartphones e dos tablets parecem estar – pelo menos em parte – por trás do enorme aumento de casos de perturbação de défice de atenção e de depressão infantil.
Há muitos programas milagrosos que prometem desenvolver a inteligência da criança, mas, como pode ver, quando esses programas se submetem ao rigor científico não demonstram qualquer eficácia. Provavelmente a razão pela qual muitos deles fracassam é porque o seu principal interesse é acelerar o processo natural de desenvolvimento cerebral, julgando que chegar antes permite chegar mais longe. Porém, o desenvolvimento cerebral não é um processo que se possa acelerar sem perder parte das suas propriedades. Da mesma forma que um tomate transgénico que fica maduro em poucos dias e atinge dimensões e cor «perfeitas» perde a essência do seu sabor, um cérebro que se desenvolve sob pressão, com pressa para ultrapassar etapas, pode perder pelo caminho parte da sua essência. A empatia, a capacidade de esperar, a sensação de calma ou o amor não podem ser cultivados como se estivessem numa estufa; requerem um crescimento lento e progenitores pacientes que saibam esperar que a criança dê os seus melhores frutos, precisamente no momento em que estiver preparada para os dar. Este é o motivo pelo qual as descobertas mais importantes da neurociência em relação ao desenvolvimento do cérebro da criança se concentram em aspectos aparentemente simples como a influência positiva da ingestão de fruta e peixe durante a gravidez e os primeiros anos de vida da criança, os benefícios psicológicos de embalar o bebé nos primeiros anos de vida, tal como o papel do afecto no desenvolvimento intelectual da criança ou a importância das conversas entre mãe e filho no desenvolvimento da memória e da linguagem num reconhecimento claro de que no desenvolvimento cerebral o essencial é o que é realmente importante.
A verdade é que sabemos muitas coisas sobre o cérebro que poderiam ajudar os pais e as mães, mas que infelizmente eles desconhecem. Quero ajudá-lo a saber como é que pode influenciar de forma muito positiva o desenvolvimento cerebral do seu filho. Há centenas de estudos que provam que o cérebro tem uma enorme plasticidade e que os pais que utilizam as estratégias adequadas ajudam em maior medida os seus filhos a terem um desenvolvimento cerebral equilibrado. Por isso juntei os fundamentos, as ferramentas e as técnicas que podem ajudá-lo a ser a melhor influência no desenvolvimento intelectual e emocional do seu próprio filho. Com isto não só vai conseguir ajudá-lo a desenvolver boas capacidades intelectuais e emocionais, mas também vai contribuir para prevenir dificuldades no seu desenvolvimento, tal como o défice de atenção, a depressão infantil ou os problemas de comportamento. Estou convencido de que uns conhecimentos básicos sobre a forma como se desenvolve e se constrói o cérebro da criança podem ser de grande ajuda para os pais e as mães que os quiserem aproveitar. A meu ver, os conhecimentos, as estratégias e as experiências que vai encontrar de seguida contribuirão para fazer do seu trabalho como pai ou mãe uma experiência plenamente satisfatória. Mas, sobretudo, espero que mergulhar no maravilhoso mundo do cérebro da criança o ajude a estabelecer uma relação com a sua criança perdida e a compreender melhor os seus filhos, para dessa forma obter o melhor de cada um de vocês.


Álvaro Bilbao

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