Muito mais do que parece
Partilhar:
@confissoesdumlivreiro
6 de agosto de 2026
Nem todas as histórias se deixam contar da mesma forma. Algumas precisam de várias vozes, de diferentes perspetivas, de gerações inteiras ou de enredos que se cruzam para revelar toda a sua dimensão. É esse desafio que une os cinco livros que se seguem. Cada um encontra uma solução diferente: uns distribuem o protagonismo por várias personagens, outros regressam aos mesmos acontecimentos para os revisitar sob uma nova luz e outros fazem convergir percursos que pareciam não ter qualquer ligação.
Os Buddenbrook, de Thomas Mann
Os Buddenbrook parece, à primeira vista, o relato da decadência de uma família burguesa alemã ao longo de quatro gerações. Mas bastam poucas páginas para percebermos que Thomas Mann faz muito mais do que isso. Cada membro da família representa uma forma diferente de olhar para o mundo. Há quem tente preservar o legado familiar, quem sonhe com uma vida artística, quem se revolte contra as expectativas impostas e quem seja esmagado pelo peso da herança. Nenhum destes percursos pode ser lido de forma isolada. As escolhas de uma geração condicionam a seguinte e ajudam a explicar a lenta desagregação da família. Ao longo do romance, a prosperidade dos Buddenbrook vai cedendo lugar a um mundo em mudança, onde os valores da velha burguesia já não garantem o mesmo prestígio nem a mesma estabilidade. O destino da família acaba, assim, por refletir as transformações da Alemanha do século XIX. É essa capacidade de partir da vida privada para retratar toda uma época que transforma esta obra em muito mais do que uma simples saga familiar. Cada nova geração alarga a escala do romance, até que a história dos Buddenbrook se confunde com a da própria Alemanha.
COMPRO NA WOOK! » Hyperion, de Dan Simmons
Se existe um romance construído sobre a ideia de que uma história nunca chega, esse romance é Hyperion. Inspirado nos Contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer, Dan Simmons reúne sete peregrinos a caminho do planeta Hyperion em busca do misterioso Picanço, uma criatura tão fascinante quanto aterradora. Antes de chegarem ao destino, cada personagem conta ao resto do grupo o que a levou a aceitar a peregrinação. Ao contrário do que seria de esperar de uma obra de ficção científica, grande parte da ação decorre durante estes momentos de conversa. O livro muda de registo consoante o relato. Há terror, ficção científica militar, romance, thriller, aventura e até tragédia familiar. A poesia ocupa um lugar inesperadamente central no romance. A figura de John Keats, o poeta inglês do século XIX, atravessa toda a narrativa e acaba por desempenhar um papel decisivo na construção do universo imaginado por Simmons, ligando literatura e inteligência artificial de uma forma tão improvável quanto memorável. Muitas vezes, temos a sensação de estar perante livros diferentes, cada um com o seu ritmo, a sua voz e as suas referências. No entanto, estes testemunhos nunca funcionam como episódios isolados. Cada confissão revela uma peça do enorme puzzle que dá coerência ao romance. À medida que os relatos se acumulam, a imagem que temos do Picanço, do planeta Hyperion e do conflito galáctico ganha novos contornos.
COMPRO NA WOOK! » O Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell
Poucos escritores levaram tão longe a ideia de que a verdade depende do ponto de vista como Lawrence Durrell. O Quarteto de Alexandria desenvolve-se ao longo de quatro volumes. Nos três primeiros, Durrell regressa aos mesmos acontecimentos, observando-os através de olhares diferentes. O que, para uma personagem, parece um gesto de amor revela-se, aos olhos de outra, uma manipulação. Uma figura secundária passa a ter um protagonismo inesperado. Um episódio irrelevante acaba por ter consequências decisivas. A cada novo volume, apercebemo-nos de que aquilo que julgávamos conhecer estava longe de ser toda a verdade. O autor não recorre a diferentes narradores apenas como exercício de estilo. Esta estrutura tem o propósito de mostrar que ninguém conhece verdadeiramente a vida do outro e que qualquer acontecimento depende sempre de quem o conta. Ao contrário de Hyperion, onde cada relato acrescenta uma peça indispensável e única à narrativa, O Quarteto de Alexandria utiliza as diferentes perspetivas para desmontar as certezas que tínhamos. Cada novo olhar não completa o que já conhecíamos, obriga-nos a reinterpretá-lo.
COMPRO NA WOOK! » Rapariga, Mulher, Outra, de Bernardine Evaristo
Enquanto Lawrence Durrell regressa sucessivamente aos mesmos episódios, Bernardine Evaristo demonstra que uma comunidade inteira pode ser contada através das vidas de quem a compõe. Rapariga, Mulher, Outra centra-se em doze personagens, quase todas mulheres negras britânicas, de gerações e contextos muito diferentes. Cada capítulo segue uma delas. À primeira vista, os percursos parecem independentes, mas, pouco a pouco, começam a surgir ligações inesperadas. Relações familiares, amizades antigas, encontros ocasionais ou episódios partilhados aproximam vidas que pareciam não ter nada em comum. O romance constrói-se como um mosaico. Embora nenhuma destas mulheres represente, por si só, a realidade que Evaristo procura captar, juntas compõem um retrato amplo da sociedade britânica contemporânea. Identidade, classe social, maternidade, racismo, amor e sexualidade entrecruzam-se, mostrando que uma comunidade só pode ser compreendida através da soma das suas vozes.
COMPRO NA WOOK! » O Som e a Fúria, de William Faulkner
Se os romances anteriores desafiam a ideia de uma narrativa única, O Som e a Fúria põe em causa a própria forma de contar uma história. O livro acompanha a família Compson através de quatro partes radicalmente diferentes. A primeira é narrada por Benjy, um homem com deficiência intelectual para quem passado e presente se confundem. Segue-se Quentin, cuja voz reflete uma consciência fragmentada e atormentada. Depois surge Jason, marcado pelo ressentimento e pelo cinismo. Por fim, um narrador na terceira pessoa oferece uma perspetiva mais ampla sobre aquilo que resta da família. As quatro partes descrevem o mesmo universo, mas cada uma altera a forma como interpretamos os acontecimentos. Não muda apenas o ponto de vista: mudam a linguagem, o ritmo e a estrutura. Faulkner recorre ainda ao fluxo de consciência para revelar o mundo interior das personagens, esbatendo as fronteiras entre a experiência vivida e o presente. Tal como em O Quarteto de Alexandria, nenhuma versão é suficiente por si só. Mas Faulkner vai mais longe ao obrigar-nos a reconstruir o passado a partir de memórias dispersas e emoções contraditórias. É apenas no cruzamento destas vozes que emerge o verdadeiro retrato da família Compson e, em simultâneo, de um Sul americano preso às suas próprias ruínas.
COMPRO NA WOOK! »