Miguel Sousa Tavares: «A liberdade não tem preço»

Estivemos à conversa com Miguel Sousa Tavares a propósito do seu novo livro.
Tem como pano de fundo o Portugal contemporâneo (1960-2010) e reúne uma série de reflexões e memórias do próprio, a começar pelo título «Cebola Crua com Sal e Broa»: o lanche preferido ainda hoje, porque, garante, «há coisas que a água não leva». Mas também falamos sobre outros assuntos.
«Cebola Crua com Sal e Broa» é um livro de memórias, sobre os primeiros 40 anos da sua vida. Por que decidiu escrevê-lo?
Não é bem um livro de memórias, é um livro de testemunhos seleccionados. Não exaustivo, nem com preocupações cronológicas ou sequer lógicas. Decidi escrevê-lo para dar testemunho e para esvaziar gavetas de papéis e de memórias.
Miguel Sousa Tavares
Miguel Sousa Tavares

Pense numa pessoa. Wook diria ela sobre este livro?
Nunca penso em pessoa alguma concreta quando escrevo. Penso nos leitores em geral, qualquer leitor comum. Nos muitos que, felizmente, tenho e para os quais escrevo - não para mim.

Ao longo destas páginas – tal como, aliás, na sua participação pública, de um modo geral – fica-nos a convicção de que o Miguel não (ou nunca) usa filtros.
«Pode um homem viver impunemente» com a liberdade de dizer sempre o que pensa?

Eu tenho vivido… Nem saberia viver de outro modo, o que não quer dizer que tenha sido sempre impunemente. Houve alturas em que paguei um preço. Mas a liberdade, para mim, não tem preço. Não me imagino a ter de pensar ou dizer ou deixar de dizer o que outros mandassem.

Como foi formar identidade no seio de uma família em que os pais são figuras destacadas da sociedade portuguesa?
Nem sempre foi fácil, mas tentei sempre aproveitar a parte boa e construir um caminho meu, usufruindo da herança mas não vivendo à sombra dela.
         

«A liberdade, para mim, não tem preço.»


Wook está na sua mesa de cabeceira?
Em processo de leitura, “Um gentleman em Moscovo”, de Amor Towles, que me foi oferecido pela minha grande amiga Susana Santos. Em fila de espera para levar para férias, “O Impostor”, de Javier Cuencas, e “Jogos de Raiva”, o último romance do meu colega da SIC, Rodrigo Guedes de Carvalho.

Quando entrevistei o escritor Eric Nepomuceno, disse-me que há pelo menos uma coisa que nunca descura numa vinda a Lisboa: um passeio gastronómico consigo. Quais são os seus três restaurantes preferidos?
Sempre e em qualquer lugar, a minha casa e com amigos. De resto, qualquer lugar onde não se sirva nouvelle cuisine nem "comida de tias”, mas sim comida com sabor genuíno à cozinha local, nem que seja macaco ou ratazana do mato (que já provei) e se respeitem algumas coisas básicas e essenciais, tais como uma boa iluminação, um bom ambiente, um bom serviço e um bom café no final.

A propósito: se pudesse jantar com um qualquer escritor, vivo ou morto, quem escolheria?
Ah, acho que era com o Hemingway! E, de preferência, uns peixes que teríamos pescado ao largo de Havana no seu barco “Pilar”, depois de bebermos um “mojito” e antes de fumarmos um “puro”, ouvindo as suas histórias das caçadas em África e da última época taurina em Espanha. O esplendor do politicamente incorrecto, que fez dele um tão grandioso escritor.

Escrever dá ou tira energia?
Ambas as coisas: dá e tira, simultaneamente. No fim, deixa-me vazio, sem nada mais para dar. Mas, pouco depois, há qualquer coisa em mim que volta a reclamar a energia que a escrita dá, como se fosse um vício. E, se calhar, até é…

O que tem de irredutivelmente singular a sua vida?
Nada que eu saiba. Talvez sorte…

Uma pergunta que nunca ninguém lhe fez e à qual gostasse de responder.
Se lhe dissessem que tinha um mês de vida, o que gostaria de fazer? Embarcar numa nave espacial e despedir-me da vida e do planeta lá de cima.

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