Markus Zusak: «Estou sempre a tentar escrever o livro favorito de alguém»

Corria o ano de 2005 quando deu à estampa um fenómeno literário, brutalmente aclamado pelos leitores e pela crítica.

Com A Rapariga que Roubava Livros, Markus Zusak (Sidney, 1975) levou-nos para a Alemanha nazi em plena II Guerra Mundial e apresentou-nos Liesel, uma menina de nove anos com um fascínio inexplicável por livros.
Markus Zusak
Markus Zusak é o autor do aclamado bestseller A Rapariga que Roubava Livros
Depois desse bestseller, a pressão e as expetativas fizeram-se sentir. Zusak esteve mais de uma década sem publicar. Até que, em 2018, nos chegou às mãos Bridge of Clay, recentemente publicado em Portugal pela Editorial Presença com o título Nada Menos que um Milagre - ou a derradeira prova de que vale a pena esperar por coisas boas: não só pelo livro como por esta entrevista sublime.
ENTREVISTA EXCLUSIVA
Disse numa entrevista recente que este novo livro – Nada Menos que um Milagre - levou mais de duas décadas a ser escrito. Porquê?
Eu tinha a imagem de um miúdo a construir uma ponte quando eu tinha vinte anos, mas não estava pronto para escrevê-la... mesmo quando comecei este livro no final de 2005, eu ainda não sabia bem o que estava à procura. Só sabia que o que eu tinha não era o que eu queria.
No momento em que me sentei para escrever, acho que estava a tentar escrever melhor do que realmente faço. Estava sempre à procura de algo fora do meu alcance, o melhor, como se escrevesse para o campeonato mundial onde só eu jogo. Depois de A Rapariga que Roubava Livros, sempre quis escrever livros que talvez não fosse capaz de escrever. Eu acho que é por isso que Nada Menos que um Milagre levou tantos anos. Eu nunca tive a certeza que o poderia fazer.

Passou mais de uma década desde A Rapariga que Roubava Livros, o fenómeno que o catapultou no universo literário. Publicar um livro depois deste foi uma responsabilidade acrescida?
Todos esses pensamentos desaparecem quando tu desapareces, e estás na secretária e ninguém pode ver-te. Ninguém sabe. É algo entre ti e o livro, e mais ninguém. Claro, houve novas pressões, mas uma das melhores coisas de ser escritor é que é o tipo de trabalho em que te estás sempre a testar. Estás sempre a perguntar: «Quanto é que tu realmente queres?» E isso ganha sobretudo forma quando acabas de ter um livro que é surpreendentemente bem-sucedido. E tens que te perguntar: «Quanto é que eu quero este próximo livro?» Com Nada Menos que um Milagre, eu realmente tive que esperar tantas vezes, por tantos anos – então, eu acredito que, se não for por mais nada, este livro permitiu-me provar a mim mesmo que eu sou capaz de suportar muito para chegar a um final.
«EU NUNCA FUI BOM EM NADA, TIVE QUE TRABALHAR MUITO PARA ISSO»
Esta é a história de um menino órfão, Clay, o caos da vida familiar, as cicatrizes do abandono. Como é que esta ideia surgiu? Parte de uma vivência pessoal ou é pura ficção?
Tudo tinha a ver com um menino que tenta a grandeza, na verdade. Clay é uma personagem muito ambiciosa e é um mentor - ele treina-se a si mesmo, prepara-se para se tornar bom no que faz, o que certamente é retirado de mim. Eu nunca fui bom em nada para começar; eu sempre tive que trabalhar para isso, e eu sou grato. Isto significa que nunca dei as pequenas competências que adquiri como garantidas.
Por outro lado, também, um grande amigo faleceu enquanto eu escrevia este livro. Perdi o meu melhor amigo quando tínhamos apenas oito anos... e eu percebi que todos nós pensamos que vivemos vidas pequenas e aborrecidas – mas todos nós nos apaixonamos, todos temos pessoas a morrer dentro de nós e todos temos discussões na cozinha. Todos nós temos momentos sublimes e momentos de grande alegria... eu queria escrever sobre a grandeza das nossas vidas, e dessa forma, Nada Menos que Um Milagre parece um tipo de épico suburbano - pelo menos, para mim, enquanto o escrevia.

Sabemos que segue uma rotina de escrita. Quantas horas escreve por dia?
Quando estou a trabalhar em romances, escrevo aproximadamente 3, 4 horas por dia. Além disso, também faço tradução.

Este romance tem muitas personagens, todas bem construídas, e há um fio condutor muito bem conseguido, apesar de fazer o leitor saltar no espaço e no tempo. Como se consegue essa consistência?
Com grande dificuldade! Nada me é fácil como escritor, para dizer a verdade. Com tantas personagens, há muitas bolhas no ar - mas, fundamentalmente, o enredo move-se entre o passado e o presente, como a maré que vem e vai. Enquanto Clay sai para construir a ponte, a história da sua família começa a aparecer.
Eu fiz isto porque estava interessado na ideia de que todos nós começamos a tornar-nos naquilo que somos ainda antes de nascermos. Há histórias que levam à nossa existência, e essas histórias estão lá desde o início. É por isso que eu estava muito interessado não só no Clay, no presente, mas na vida dos seus pais: Penelope e Michael. De várias formas, Penelope, em especial, é o coração deste livro.
«TENTO ESCREVER UM LIVRO QUE SEI QUE SÓ EU O PODERIA TER ESCRITO»


Este livro, tal como o anterior, posicionou-se nos EUA na categoria young adult. É pacífica para si esta categorização?
É pouco comum. É o único país a publicar este livro nessa categoria. Eu estou sempre a tentar escrever o livro favorito de alguém. Os livros que gostamos transcendem as categorias de onde vêm - e se tu não conseguires escrever o livro favorito de alguém, não é uma desgraça, porque há muitos livros ótimos no mundo... mas tens que tentar. Por conseguinte, as categorias não são importantes – tens que almejar outra coisa. Eu tento escrever um livro que sei que só eu o poderia ter escrito.

Quando é que percebeu que ia ser escritor? E o que o faz continuar a escrever?
Eu tinha 16 anos, e só lia romances. Sabia que tudo era ficção, mas acreditava na história quando entrava nela. Para mim, isso era algo maravilhoso - uma espécie de magia. Eu pensei: «É o que eu quero fazer da minha vida.» Por enquanto, o que me faz continuar é aquele momento em que paro de me preocupar com o público de um livro e começo a escrevê-lo para as personagens do livro. É quando sabes que estás a fazer a coisa certa num livro... quando escreves para homenagear as personagens.

Alguma vez sentiu que não seria capaz de terminar um livro?
Isso é, basicamente, o meu modo de vida... especialmente ao escrever Nada Menos que um Milagre, tive muitos desses momentos. Eu tinha mais de uma década deles... mas há também essa outra coisa, enterrada profundamente, bem lá no fundo - uma espécie de otimismo que diz: «Vai resultar; isto vai acontecer.»

Qual foi o último livro que comprou?
Pachinko, de Min Jin Lee.

E o último que leu?
I Capture the Castle, de Dodie Smith

Que momentos na sua vida lhe dão conforto?
Quando escreves algo que tu não sabias que ias escrever naquele dia, e pensas: «O dia todo valeu a pena só por causa disto.»

Descreva-me um dia ideal.
De manhã cedo, começar com uma caminhada com o meu cão e ver as ondas. Fazer surf por mais ou menos uma hora;
Depois, tomar o pequeno-almoço com a minha mulher e filhos;
Escrever umas cinco horas;
Passar tempo em família: talvez uma longa conversa enquanto jogamos Monopólio e dar mais um curto passeio com o cão;
Ler um livro em voz alta com toda a família;
Cama.

Em que está a trabalhar agora?
Ainda não tenho certeza, mas estou a começar a ver as formas das coisas…

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