Livros que são mais do que palavras

Por Ana Bárbara Pedrosa
7 de junho de 2023
Aqui, a componente gráfica importa o mesmo que o texto. E, claro, existe um talento duplicado, a capacidade de contar uma história em dois meios em simultâneo. Ficam aqui alguns exemplos de novelas gráficas que me agarraram como mãos.

 
Balada para Sophie
Uma dupla que engatou leitores. Neste momento, em Portugal, já é difícil falar-se em banda desenhada sem se referir estes dois. Aqui, temos a história da vida de Julien Dubois, mas a coisa vai além do que se passa entre quatro paredes. Em vez disso, existe a biografia aliada à História da Europa no século passado. Dentro da sua mansão, vemos o sucesso de um pianista, com espaço e uma governanta, mas nada disso esconde o desalento. Quando uma jovem pianista pede a Dubois que lhe conte a história das últimas décadas, o leitor acede a uma narrativa que passa pelo arrependimento e pela rivalidade. E, claro, pela arte, sendo Balada para Sophie arte sobre arte, casando texto, imagem e som.
Excerto de Balada para Sophie
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O árabe do futuro
São, para já, cinco volumes, cinco monumentos (o sexto, cujo original foi publicado há semanas, será publicado em Portugal em breve). Quem os lê parece que dá a volta ao mundo. Como quem não quer a coisa, através da história de uma família, Riad Satouff mostra vários países em panorama. Temos a Líbia, a França, a Síria, a Arábia Saudita. Com os vários movimentos, numa família em que a mãe é francesa e o pai é sírio, vamos tendo acesso aos choques de culturas, e ainda à forma como a permanência num sítio vai moldando a forma de pensar. As diferenças entre culturas parecem criar o outro, o que se torna trágico principalmente quando o outro é um de nós. Numa relação conjugal, há o corte a bisturi entre uma França aparentemente democrática e o fanatismo religioso que põe as mulheres em casa.
Excerto de O Árabe do Futuro
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Crónicas de Lisboa
Prata da casa lisboeta. Crónicas de Lisboa nasceu na Mensagem de Lisboa. Ferreira Fernandes escreveu, Nuno Saraiva ilustrou. Em cada um, em vez de uma cabeça, parece que há uma cascata a jorrar criatividade. Há o gosto pela cidade, claro, e, acima de tudo, há aquele talento para lhe apanhar as pequenas histórias. O jornal, aliás, já nasceu com esse propósito – contar a vida que há numa cidade. No livro, que reúne as crónicas ilustradas que foram sendo publicadas, para além dos episódios que revelam a vida, ainda temos o lápis que revela a beleza de Lisboa em força bruta.
Excerto de Crónicas de Lisboa
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Sabrina
Este dá a volta à cabeça. Foi a primeira novela gráfica a ser selecionada para a o Booker Prize. Anos volvidos, ainda hoje é encarada como uma das narrativas mais surpreendente dos últimos anos. No início, há a dúvida: o que terá acontecido a Sabrina? Logo a seguir, há a resposta, e vem numa cassete de vídeo que é enviada às redações de vários órgãos da comunicação social. A partir daí, ninguém tem dúvida nenhuma, uma vez que o conteúdo passa por todo o lado. O leitor leva com a sopa toda da leitura: há um enredo envolvente, um tom de ansiedade permanente, a sensação de que alguma coisa em grande estará para acontecer. Os desenhos, simples, são fonte de grande carga emocional.
Excerto de Sabrina
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Persépolis
Ponho este ao lado de O Árabe do Futuro. Como o anterior, o livro mostra mais do que personagens, do que uma casa, do que uma família. Através destes, temos, isso sim, a vida de um país. A ação começa em 1979 e o leitor mete os pés no Irão, pronto para a surpresa. O Xá foi deposto, mas os mercenários fundamentalistas arrebanharam o poder. Marjane, que vive em Teerão, é uma criança de 10 anos: filha de pais de classe alta, é criada com convicções marxistas. E é, sobretudo, uma criança igual às outras, mas metida numa circunstância extrema. Aos poucos, o leitor vai vendo a violência, o medo, os conhecidos que desaparecem, as mulheres que são humilhadas e escondidas. O véu é para cobrir o que os olhos não podem ver. E até os ouvidos são controlados, impedidos de ouvir música rock, tornada ilegal. No meio do bizarro, a autora vai traçando os dias da normalidade que se tenta criar.
Excerto de Persépolis
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