Livros em que se vê pintar um clima

Por Ana Bárbara Pedrosa
3 de abril de 2024
Quando dois amigos piscam o olho um ao outro, sou a última a saber. Num livro, não me querendo gabar, já atinjo qualquer coisa. Aqui vão alguns exemplos.
Sexus
Dizer que pintou um clima talvez seja dizer pouco, mas serve o propósito. Pelo menos, a história deu-se com estilo. Assim de forma telegráfica, foi isto: homem de 33 anos e infeliz no casamento conhece mulher no salão de baile. A partir daí, foi o galope daquela coisa sem nome que arrebata o coração. Que se lixasse, então, o casamento que lhe sabia a coisa pouca; depois daquele dia, abriu-se o futuro sob o tormento da paixão. Foi preciso arriscar tudo para viver aquele destrambelhamento lancinante, e por isso o livro é sobre risco, tendo nas suas páginas a eletricidade de dois humanos que se puxam um para o outro. Eis, como é tão comum na boa literatura, a poderosa força inexplicável que transforma os apaixonados em gente que busca e tenta matar a ansiedade.
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A carne
Quem nunca contratou um gigolô para a acompanhar à ópera que atire a primeira pedra. Foi o que fez Soledad, e só para chatear um ex-amante. Corações ressabiados são assim. Mas corações ressabiados ainda têm espaço para qualquer coisa mais do que o rancor, e eis ali, na coisa inesperada, nascer uma coisa mais inesperada ainda. Entre Soledade e o gigolô, surge uma faísca. Depois da faísca, começa o fogo. Ela com 60 anos, ele com 32. Tudo ali é descoberta, jogo, tensão, e para quem lê há o sabor da maravilha da coisa bem escrita, da história bem detalhada. Ou seja, é um livro de Rosa Montero e isso já diz tudo. Como tudo o que vem daquelas mãos, A Carne escancara a própria vida: há o indizível da procura do amor e a concretude da busca de um corpo. E tudo isto mostrando uma voz que, quase do nada, se apercebeu de que o tempo foi passando e o envelhecimento foi chegando.
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Palavra do Senhor
Este conheço bem, que fui eu que o escrevi. Diz-se que isto de amar é coisa virada para o divino, e aqui temos isto sem exagero e sem metáfora. Ao olhar para a Terra, Deus apaixonou-se pela sua criação. Entre tantas, entre todas, teve a sua eleita. Lá de cima, lá de algures, viu-a no Médio Oriente e não mais pôde largá-la. A sua paixão por Maria serviu para inventar uma família, para erguer uma religião, para mudar o destino às coisas. Desde esse momento inaugural da paixão, o mundo passou a ser outro. Sem se poder fazer homem, Deus, o narrador, arranjou forma de terem um filho juntos, fazendo de tudo isto a família mais retorcida que já vi ou inventei. Enquanto escrevia o livro, também eu me fui apaixonando por Maria – e nunca pude deixar de pensar que este Deus não tinha os parafusos todos. Ora, como fui eu a inventá-lo, talvez quem não tenha os parafusos todos seja eu.
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