«Karaokê Okuyama»

«Entre o concreto e o imaginado, entre os contos de fadas e as histórias de terror, Retratos com erro desenha muitos mundos que, como espelhos distorcidos, se multiplicam e se deformam.»
KARAOKÊ OKUYAMA

O Fuji ao fundo se ergue
como uma espiga de plástico.
Fica muito bem o Fuji
de fundo para o tablado.
Os desgraçados parecem
felizes e cantam alto.
Talvez estejam felizes.
Sei como é. É o meu caso.
Todos nós compartilhamos
a insensata sensação
de que a noite morreria
se com ela não cantássemos.
Cantamos todos então
perfeitos quase sublimes
porque os bêbados não cansam
de perseguir o perdido
que se gasta nos açúcares
do amor e das valentias.
O Fuji cobre de neve
No escuro o nosso ridículo.
Quanto a mim tenho por conta
que as canções todas do mundo
são tristes e assim nos fazem.
Mas no seu azul parado
sobre cômicos aplausos
o vulcão já não parece
ter de nós nenhuma pena.
Eis um cone indiferente
entediado quem sabe
porque agora já passamos
das quatro da madrugada
na cidade de São Paulo.
O Japão está cansado.
O Fuji sonha o silêncio.

Eucanaã Ferraz, Retratos com Erro

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