Janne Teller: «Os europeus tornaram-se complacentes porque a maioria tem uma vida confortável»

O seu livro «Nada» foi censurado em vários países para depois se tornar numa referência global. Estava à espera dessa reação?
Foi uma grande surpresa para mim! Não percebo porque o livro foi banido, pois não há linguagem brejeira, nenhum conteúdo sexual e quase nenhuma violência descrita - e eu não o escrevi para provocar. Por isso, ter um livro banido na Europa de hoje simplesmente por levantar as questões existenciais da vida foi para mim um grande choque. Então, desde que todos - até mesmo o editor dinamarquês - me disseram que os jovens não estariam interessados num livro sobre o significado da vida, foi realmente avassalador quando o livro depois de mais de dez anos, se tornou de repente um enorme bestseller internacional, e foi reconhecido literariamente em todo o lado.
Janne Teller
Janne Teller

De certa forma, ainda é algo avassalador. Mas também estou muito feliz. Porque para mim provou que o que eu achava interessante saber sobre a história da vida são questões relevantes para toda a gente, para os jovens que passam pela adolescência e têm de se decidir sobre o que é importante e o que não é. E também para os adultos, pois, na verdade, sabemos que nunca poderemos responder plenamente à questão do sentido da vida, por isso é importante continuar a questionar se temos os nossos valores e prioridades corrretos, à medida que passamos pela vida.

«Guerra», o seu mais recente livro, tem uma particularidade incrível: é adaptado e reescrito para cada país onde é publicado. Como consegue fazê-lo em detalhe, partindo do princípio de que não visitou/não conhece a história de todos esses países?
Tendo trabalhado para as Nações Unidas e na União Europeia em todo o mundo, tenho vivido em muitas culturas e trabalhado com pessoas de quase todas as outras culturas. Isso ajuda muito. E para as culturas das quais sei menos, começo sempre por ler sobre a história do país, e pego em mapas grandes para estudar a geografia, para poder inventar um cenário de guerra que é possível imaginar mesmo que seja uma ficção absoluta (e esperemos que permaneça como tal). Eventualmente, quando eu tiver o rascunho do texto pronto, discuto-o com o meu editor no país em questão, para ver se todos os detalhes também correspondem realmente à cultura. Se o trabalho dos pais, o modo como eles viviam antes da guerra, o que o jovem narrador faz e como a irmã se comporta no Egito, etc., tudo se encaixa naquela realidade cultural. É um processo longo. Mas tudo, cada detalhe individual, tem de estar certo, para que o leitor possa realmente viver-se na história.

A Europa sempre foi um espaço de migrantes. Antes éramos nós, que procurávamos melhores condições de trabalho e vida noutros países. Por que tendemos a esquecermo-nos disso?
Acho que é normal. Os europeus tornaram-se complacentes porque, para a maioria das pessoas, a vida é muito confortável nas gerações atuais. Quando estamos na nossa vida quotidiana - e também nas lutas envolvidas da vida moderna, por mais mundanas que sejam em comparação às de pessoas em guerra ou fome - é fácil esquecer o quão privilegiados a maioria de nós é. Então, eu acredito que cada geração deve aprender a entender o sofrimento real por si mesma. Esperançosamente, embora não vivendo de novo; mas, em vez disso, imaginando como seria se fossem atingidos por uma catástrofe. E é aí que entra arte e a literatura...

É possível erradicar a xenofobia de uma vez por todas?
Oh, eu gostaria que pudéssemos acabar com a xenofobia de uma vez por todas! No entanto, não tenho a certeza que seja assim tão fácil. Mas fazendo disso um pré-requisito básico absoluto para ser considerada uma pessoa civilizada, que tu és capaz de te colocares no lugar do 'outro', e que dessa forma vais entender e tratar com respeito alguém diferente de ti, eu acho que nos levaria um longo caminho.
         

«Quando estamos na nossa vida quotidiana é fácil esquecer o quão privilegiados a maioria de nós é.»


Qual foi o último livro que leu e adorou?
Li recentemente o livro "Home Fire", de Kamila Shamsie, que achei um livro grande e corajoso ao descrever as complexidades do extremismo islâmico na Europa de hoje.

E o último que comprou?
“A poetry collection” by Friederike Mayröcker.

Se tivesse um superpoder qual seria?
Compreender todos os seres humanos, e assim poder alcançar a alma de cada pessoa.

Que momentos na sua vida lhe dão conforto?
Cavalgar na minha égua árabe pelas florestas - preferivelmente galopando muito rápido, que não há espaço para outros pensamentos.

Uma pergunta que nunca ninguém lhe fez e à qual gostasse de responder.
Acho que a pergunta anterior praticamente responde a essa!

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