Os Walkers devolvem às crianças o tempo lá fora – Entrevista a Maria Inês Almeida

Vera Dantas
2 de julho de 2026
Lisboeta de nascimento e jornalista de formação, Maria Inês Almeida começou por brilhar nas redações e ganhou o Prémio Revelação do Clube de Jornalistas. Em 2009, decidiu trocar entrevistas por imaginação e mergulhar no universo infantojuvenil. Desde então, já publicou mais de 80 livros, conquistou leitores de várias idades e até atravessou fronteiras com vários títulos.

Entre diários de miúdas, aventuras inspiradoras, histórias de empatia e pequenos livros cheios de vida, construiu uma biblioteca inteira onde cada história é uma porta para um novo mundo.
A nova série da autora, Os Walkers, acompanha com entusiasmo um grupo de amigos que encontra na Natureza não apenas trilhos, mas um verdadeiro modo de estar no mundo.

Nesta entrevista, Maria Inês Almeida revela como nasceu esta coleção e como a Natureza pode ensinar paciência, amizade e até ajudar a navegar emoções complicadas. A filosofia Walker é parte aventura, parte bússola para a vida.
Maria Inês Almeida
Maria Inês Almeida – Foto © Wook
A série Os Walkers parece celebrar a ligação entre os jovens e a Natureza. Numa frase, como descreveria esta nova série?
Os Walkers é uma coleção que devolve às crianças o prazer de caminhar, de observar e de descobrir — uma aventura ao ar livre que também ensina a olhar para dentro.

Como nasceu a ideia deste grupo de amigos que encontra na Natureza muito mais do que paisagens?
A ideia dos Walkers nasceu de um convite da Marta Teixeira, da Porto Editora, para pensar numa nova coleção e de uma conversa com a Susana Baptista, editora, que sugeriu recuperar esse espírito de escuteiros, aventura, descoberta, vida ao ar livre. No início só sabia uma coisa: queria escrever sobre a magia da vida e a Natureza pareceu-me o cenário perfeito para isso. Dizemos muitas vezes que os miúdos só querem ecrãs, mas basta um trilho e um pouco de liberdade para acontecer o que nenhum ecrã oferece. Os Walkers é também sobre isso… pertencer, fazer parte.
 
A autora quer «devolver às crianças o tempo lá fora», a caminhar, que é «quando as coisas acontecem, por dentro e por fora.»
Os walkers adoram caminhar. Ao criar estas personagens e a sua exploração da caminhada, quis contribuir para que as crianças redescubram o prazer de caminhar?
Sim, devolver às crianças o tempo lá fora. Caminhar talvez seja presentemente o gesto mais subestimado da infância. Quis que o Miguel, a Mia, a MF, o Manuel e o Muffin mostrassem que uma caminhada não é um “não fazer nada”. É o contrário! É quando as coisas acontecem, por dentro e por fora.
Os Walkers - O Caderno Secreto


Em O Caderno Secreto, os leitores entram pela primeira vez neste universo. Que importância teve criar um “manifesto Walker”, quase como uma filosofia de vida?
Mais do que um manifesto é uma bússola. Algo a que os personagens (e os leitores) podem voltar sempre que precisam de se lembrar o que é isto de ser Walker. É um convite a olhar com atenção, a ser amigo, cuidar de quem gostamos e do que nos rodeia.

A Natureza surge nos livros como uma verdadeira professora. Que lições acha que as crianças e os jovens mais precisam hoje de reaprender através dela?
Sobretudo a paciência. A Natureza não se apressa e nós quase já esquecemos a arte de esperar. Depois, que nem tudo tem resposta imediata. Um mistério na floresta, como a vida, revela-se aos poucos.

Em Natureza, Amor e Mosquitos, há espaço para emoções mais complexas, relações e desafios pessoais. Quis mostrar que crescer também significa lidar com sentimentos contraditórios?
Precisamente. Não faria sentido levar estas personagens em caminhadas pela Natureza sem as deixar também caminhar por dentro. Crescer é isso mesmo. Gostar de alguém e não saber bem o que fazer com isso, discutir com um amigo e continuar a gostar dele. Os mosquitos do título também são um símbolo dessas pequenas irritações que fazem parte de qualquer aventura, incluindo a de crescer.

Os seus livros mostram frequentemente jovens protagonistas muito atentos ao mundo e aos outros. Acha que os leitores mais novos estão hoje mais conscientes das questões ambientais e emocionais?
Acho que sim. As crianças de hoje falam de muitos temas com mais naturalidade e lucidez. Cabe-nos a todos estarmos também à altura dessa consciência. Não simplificar mas acompanhar.
Os Walkers - Natureza, Amor e Mosquitos


Muitos leitores cresceram consigo através de séries como Diário de Uma Miúda Como Tu. O que mudou – se algo mudou – na forma como escreve para os jovens desde 2009?
Mudou o mundo à nossa volta, mudei também eu. O que não mudou foi o prazer de escrever e de tratar os leitores mais jovens com a mesma seriedade e respeito com que sempre os tratei. As crenças deles são maravilhosas, têm valor e nunca devemos subestimá-las, nem às suas ideias.

Tem dezenas de livros publicados. Ainda sente o mesmo entusiasmo quando começa uma nova história?
Sinto e talvez até mais. Cada livro novo é um território por descobrir mesmo quando volto a personagens que já conheço muito bem como a Francisca da coleção Diário de Uma Miúda Como Tu. Essa é a parte que o jornalismo me ensinou a nunca perder, a curiosidade genuína. Os livros também me permitem conhecer crianças e famílias fantásticas, professores, bibliotecários, livreiros e essa ponte que se cria entre quem escreve e quem lê é, para mim, uma das partes mais gratificantes.



Os Walkers acreditam que devemos dar algo de volta à Natureza. A literatura infantojuvenil também pode ser uma ferramenta de consciência ecológica?
Pode! Não através do sermão, que as crianças detetam isso a léguas, mas através da experiência. Se um personagem que adoram cuida do Planeta ou de um animal essa atenção fica com o leitor muito depois de o livro se fechar.

Que Walker existe em si? A exploradora, a observadora, a sonhadora… ou um pouco de todas?
Um pouco de todas, mas se tivesse de escolher diria a observadora. Contudo, confesso que cada vez mais é a sonhadora quem manda nos livros. Talvez seja isso também ser Walker. Deixar que a observadora recolha o mundo e a sonhadora decida o que fazer com ele.

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