O Céu Cairá Sobre Nós, crónicas de Lídia Jorge sobre o nosso tempo

Vera Dantas
7 de julho de 2026
A escritora portuguesa Lídia Jorge é a escritora distinguida com o prestigiado Prémio Camões 2026, o maior galardão da literatura em língua portuguesa, que reconhece a sua vasta obra com romances, contos e ensaios, celebrada a nível nacional e internacional. O júri do Prémio Camões distinguiu a escritora pelo «diversificado conjunto da sua obra» e pelo «grande contributo para o enriquecimento do património literário e cívico-cultural da língua portuguesa».
Esta distinção junta-se ao Prémio Estatal Austríaco de Literatura Europeia, atribuído em junho passado, e ao Prémio Pessoa 2025, pelo conjunto da sua obra, além do Prémio Médicis Étranger, atribuído ao romance Misericórdia, entre muitos outros.
Com uma obra que nos deslumbra e desarma, Lídia Jorge tem aquela capacidade rara reservada aos grandes escritores: uma compreensão profunda do ser humano, através do seu compromisso inabalável com o poder da palavra escrita. Acredita no potencial transformador da narração das histórias. A literatura, afirma, segue um caminho constante, como uma espécie de sombra branca, e vai dulcificando as coisas. Criar traços de beleza dá-lhe uma grande sensação de liberdade, como nos revelou nesta entrevista que nos concedeu em 2024.
A sua escrita é conhecida por retratar a história recente de Portugal e a sociedade contemporânea com uma voz única e humanista. O seu mais recente livro, O Céu Cairá Sobre Nós, é uma compilação de crónicas escritas pela autora numa colaboração com o jornal diário El País, desde 2020.
O título do livro corresponde ao primeiro verso de uma canção popular afegã. Lídia Jorge destaca-o como forma de refletir o espírito de ameaça do nosso tempo, mas também a força da resistência.
A defesa contínua, na sua obra, da igualdade entre os povos e do humanismo, foi a tónica do discurso da autora em Lagos, a 10 de Junho de 2025, aquando das comemorações do Dia de Portugal, e que este livro também inclui.

«(…) por aqui ninguém tem sangue puro, a falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma. Tem sangue de nativo e de migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que escraviza, filhos do pirata que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas

Um texto que, como toda os escritos de Lídia Jorge, permanecerá como seu legado.
Deixamos aqui o excerto do início do livro O Céu Cairá Sobre Nós.

O céu cairá sobre nós

1.
No início deste século, quando os soldados americanos iniciavam a auscultação das montanhas para tentarem perceber em que caverna se escondia Osama Bin Laden, e o mundo tinha acesso às imagens dos trilhos por onde caminhavam os burros carregados de papoila, chegou-me às mãos a tradução da autoria de Manuel João Magalhães de uma canção tradicional afegã. A terem sido respeitados a dimensão e o ritmo dos versos, por certo que se deve tratar de uma bela balada. Não imagino o som da música, mas a letra diz o seguinte – «O céu cairá sobre nós / e ainda assim estarei por cá para vos amedrontar. / As nossas barbas deixarão de ser grisalhas / e os nossos ossos regressarão à terra que os deu a nascer / mas ainda assim cá estarei para vos atrapalhar. / Há muito que este solo sagrado deixou de ser fértil. / E as nossas mulheres são feias: / Porque quereis então este território?»

2.
Também desconheço em que século surgiu esse canto, mas o que se depreende é que ele fala de invasões, e sem invocar factos concretos, ficam no ar incursões que terão sofrido desde a investida de Alexandre, o Grande às ocupações por parte dos impérios britânico, soviético e americano. Logo a pergunta é justa – Porque quereis esta terra infértil? E a resposta é simples – Porque ela ocupa um lugar estratégico importante, uma encruzilhada íngreme por onde outrora passava a rota da seda. No entanto, a todos os invasores, a canção dirige uma promessa – Aqui estamos nós, vigilantes, mesmo depois de mortos, para vos atrapalhar.
(…)

Livros relacionados

Wook está a dar

Subscreva!