Histórias da vida normal
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@literacidades
17 de janeiro de 2020
O quotidiano das outras pessoas sempre nos suscitou interesse. A vida rotineira, habitual, «normal» (com muitas aspas) é, amiúde, a que contém as melhores histórias. E encontrar essas vidas que poderiam ser de qualquer um enriquece ainda mais a experiência de leitura, pois facilmente nos identificamos com os seus protagonistas e vivências.
AS MARAVILHAS
Ao nascerem mulheres pobres da ruralidade espanhola de meados do séc. XX, estão vários palmos de terra abaixo de quem não vem ao mundo com estas condicionantes. Este é um livro sobre o pouco sentido que faz a teoria do mérito ou a assunção de que todos vimos ao mundo com a mesma capacidade de alcançar os mesmos feitos. A condicionante é sempre o ponto de partida e o quanto este, qual seleção natural, nos põe anos à frente ou séculos atrás de outros humanos. O livro apresenta-nos vários momentos na vida de duas mulheres que nada têm de extraordinário, mas que são as vivências de tantas e tantas pessoas que diariamente começam um dia exatamente igual ao anterior. É bonito perceber-lhes as alegrias, os desejos, as vaidades. As Maravilhas é um livro intensamente político, bordado por uma linguagem poética que nem sempre é fácil deslindar, mas que aporta a trama num rendilhado de situações e personagens que nos fazem pensar, por exemplo, na questão da inevitabilidade que determinadas opções acarretam e no peso que é dado pela sociedade às escolhas feitas pelas mulheres.
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A BOA SORTE
Um livro onde cabem todas as emoções do mundo. Uma história feita de tão pequeninos e frágeis equilíbrios, de onde sobressaem as tonalidades todas do amor. As hesitações, o inusitado, as decisões e o quanto de aromático existe na vida normal.
Pablo, um milionário arquiteto, vê passar, pela janela do comboio, um letreiro de «vende-se» no mais banal dos prédios de uma pequena vilória andaluza, em decadência desde o fim da mina que lhe dá o nome (Pozonegro) e não sossega até retornar a esse apeadeiro, comprar o desinteressante apartamento e lá se instalar, crendo no total anonimato desse esconderijo. Mas a vida acontece, mesmo na mais recatada normalidade. O paradeiro de Pablo é facilmente descoberto, tal como a razão por que Pablo queria permanecer anónimo e que acaba por não ser essencial no livro.
Rosa Montero transmite-nos antes a importância dos dias, em detrimento dos grandes eventos. Há outras enormes questões, pano de fundo desta normalidade de apeadeiro esquecido: uma Espanha violenta, o descaso em relação à vulnerabilidade, o eterno processo de relação entre pais e filhos. Mas, para nós, foi sobretudo o livro onde Pablo aceita a ordem dos dias quando se apercebe da facilidade com que a sua cadelinha passa do sono à euforia. Ou quando vai no carro com Raluca, personagem central deste livro, ambos a esperar que o outro esteja a pensar o mesmo e sem coragem de o admitir. Quantas vezes, quantas vezes…
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Pablo, um milionário arquiteto, vê passar, pela janela do comboio, um letreiro de «vende-se» no mais banal dos prédios de uma pequena vilória andaluza, em decadência desde o fim da mina que lhe dá o nome (Pozonegro) e não sossega até retornar a esse apeadeiro, comprar o desinteressante apartamento e lá se instalar, crendo no total anonimato desse esconderijo. Mas a vida acontece, mesmo na mais recatada normalidade. O paradeiro de Pablo é facilmente descoberto, tal como a razão por que Pablo queria permanecer anónimo e que acaba por não ser essencial no livro.
Rosa Montero transmite-nos antes a importância dos dias, em detrimento dos grandes eventos. Há outras enormes questões, pano de fundo desta normalidade de apeadeiro esquecido: uma Espanha violenta, o descaso em relação à vulnerabilidade, o eterno processo de relação entre pais e filhos. Mas, para nós, foi sobretudo o livro onde Pablo aceita a ordem dos dias quando se apercebe da facilidade com que a sua cadelinha passa do sono à euforia. Ou quando vai no carro com Raluca, personagem central deste livro, ambos a esperar que o outro esteja a pensar o mesmo e sem coragem de o admitir. Quantas vezes, quantas vezes…
ESCUTA, FORMOSA MÁRCIA
A casa de Márcia, Aluísio e Jaqueline fica numa favela do Rio de Janeiro. Márcia é daquelas personagens de quem gostamos à primeira página: enfermeira num hospital público do Rio, a roliça carioca recebe «ois» de todos, quando sobe as ladeiras da comunidade. Todos a convidam para duas de letra, um chope ou um sambinha. Mas Márcia mal para: a vida doméstica espera-a depois das horas no hospital. Aluísio, seu companheiro, é bastante acomodado. Já com Jaqueline, a sua filha, a história é outra. Indiferente ao esforço que a mãe faz para que sobrevivam à batalha dos dias, à filha de Márcia só lhe importam as dúbias amizades, os bailes, os passeios de mota e as roupas. A relação entre ambas raia a maldade: Jaqueline despreza a mãe, levando-a ao extremo da preocupação, tratando-a mal. As peripécias por que a nossa Márcia vai passar por causa desta filha são incontáveis. Esta novela gráfica, porém, vai além da descrição da relação conflituosa entre uma mãe e uma filha no contexto de uma comunidade desfavorecida de uma cidade como o Rio de Janeiro. Fala-nos da condição da mulher nesse mesmo contexto. A mulher trabalhadora, que conta tostões, que tem de fugir ao perigo e lidar com a tragédia da vida normal sempre com um sorriso na cara.
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