Heather Morris: «Eu ia fazer uma edição de autor com apenas 100 cópias»

Heather Morris é uma escritora neozelandesa, residente em Melbourne, Austrália.
Durante anos, dedicou-se à escrita de guiões para televisão enquanto mantinha um trabalho num Hospital Público da cidade australiana, até que um acaso do destino quis que se cruzasse com Ludwig (Lale) Sokolov, um judeu sobrevivente ao Holocausto, cuja missão no campo de concentração Auschwitz-Birkenau era tatuar os prisioneiros marcados para sobreviver. Lale encontrou em Heather uma confidente e amiga, mas sobretudo uma voz capaz de narrar a sua história. É assim que surge O Tatuador de Auschwitz, um dos maiores fenómenos literários dos últimos anos que conquistou legiões de fãs por todo o mundo, baseado na história de amor de Lale Sokolov e Gita Fuhrmannova.
Rui Zink
Heather Morris estreou-se na escrita de romance com o bestseller O Tatuador de Auschwitz
Apesar das críticas que se fizeram ouvir, em particular as do Centro de Investigação do Memorial de Auschwitz-Birkenau, que considerou que a obra continha erros e exageros, Heather defendia-se dizendo que esta era «uma» história sobre o Holocausto e não «a» história. E não parou. Já este ano, saiu a sequela A Coragem de Cilka, inspirada na história da luta pela sobrevivência de Cilka Klein, uma jovem mulher alvo da obsessão de Johann Schwarzhube, comandante de Auschwitz, que faz dela sua escrava sexual.

A autora que está a escrever neste momento o seu terceiro livro concedeu-nos uma entrevista exclusiva.
 
«SEMPRE SOUBE QUE TINHA UMA HISTÓRIA QUE VALIA A PENA CONTAR»
O Tatuador de Auschwitz conta a história real de dois judeus que se apaixonaram no pior dos cenários e sobreviveram.
Recorda-se do dia em que conheceu Lale Sokolov? Dos sentimentos que a povoaram quando ele partilhou a sua história consigo?

No dia em que conheci o Lale, ele mal olhou para mim. Era óbvio que ele estava em luto pela morte da sua mulher e foi-lhe extremamente difícil contar-me algo do início ao fim. Ele divagava, mudava de língua enquanto falava, mas continuava a dizer que gostaria que o mundo conhecesse a rapariga a quem ele segurara o braço.
Ela estava andrajosa, mas quando ele a olhava, sabia que jamais conseguiria amar outra pessoa. Duas horas depois, apercebi-me que estava sentada com um homem que era um pedaço de história viva. O seu discurso não estava a fazer muito sentido e perguntei-lhe se poderia voltar uns dias depois. Ele aceitou o meu pedido e assim começou uma amizade que durou cerca de três anos. Estive com ele algumas horas antes de morrer, sabendo perfeitamente que não veria o nascer do sol do dia seguinte.

Li algures que a Heather trabalhava num hospital da Nova Zelândia quando conheceu Lale Sokolov. Quando e como aconteceu esse ponto de viragem na sua vida que a fez dedicar-se à escrita?
Foi enquanto trabalhava num hospital em Melbourne, Austrália, que conheci Lale. Tinha estudado para ser guionista e o sonho de escrever o próximo hit de Hollywood, e foi assim que escrevi a história de Lale pela primeira vez, como se de um guião se tratasse. Na altura, os meus filhos eram jovens e pediam-me as chaves do carro emprestadas. Já não os tinha de levar onde queriam e eu queria fazer algo diferente, algo só para mim. Foi então que escrevi várias histórias centradas em eventos e pessoas reais. Ainda estão na última gaveta da minha secretária. Foi apenas em 2016, enquanto visitava os meus cunhados em San Diego, que eles me encorajaram a que, de uma vez por todas, escrevesse um livro que contasse a história de Lale. Apesar de não ter ideia de como se escreveria um romance, mas sem ter medo disso, aceitei o desafio. Sempre soube que tinha uma história que valia a pena contar.

Quando tempo demorou a escrever O Tatuador de Auschwitz?
Entre falar com Lale, fazer o trabalho de investigação e polir as minhas habilidades de guionista, levei um ano até ter um sólido primeiro rascunho (draft) da história. Quando se tratou de adaptar a história a um formato de romance, foi necessário adaptar o guião que já tinha escrito. Ausentei-me durante um mês e acabei o primeiro draft do livro durante esse período. Os meus editores saberão melhor do que eu a qualidade com que escrevi esse rascunho porque não senti dificuldade alguma em ajustar a história de Lale. Na verdade, sentia-o ao meu lado, como se estivesse sob o meu ombro, a dizer-me que palavras usar. Quase o conseguia ouvir a dizer «não foi assim que eu te disse isto, conta assim…». Tentei ao máximo usar as palavras que ele próprio usou e manter a história simples, com frases curtas e linguagem clara.

Foi muito difícil escrever este livro?
Tentei escrever a história como um livro «memórias», mas os constrangimentos que senti ao escrever nesse género literário fizeram-me ver que seria algo que não ia funcionar. Não podia usar a quantidade de diálogo que queria e, além disso, tinha a intenção de incluir detalhes sobre o campo das mulheres que tinha descoberto através de um vídeo feito pela Gita e outras sobreviventes com quem falei. Ao contar esta história como um romance histórico, não me desviei em nada do que Lale partilhou comigo. A única coisa que não corresponde à verdade e foi feita apenas para efeito dramático, foi quando coloquei Lale e Gita juntos em Birkenau no dia em que os aliados voaram sob Auschwitz-Birkenau.

O Tatuador de Auschwitz foi um sucesso de vendas em todo o mundo desde a sua publicação. Imaginou algum dia que isto pudesse acontecer?
De maneira nenhuma. Eu ia fazer uma edição de autor com apenas 100 cópias para dar a amigos e família. Sempre acreditei no poder inspiracional da história de Lale, ela inspirou-me e deu-me esperança quando tive de lidar com as minhas próprias tragédias e traumas. Sinto-me profundamente tocada pela resposta dada ao meu livro em todo o mundo, que agora é vendido em 55 países e foi traduzido em 47 línguas, e pela quantidade de pessoas que me contactaram e partilharam de que forma a história de Lale mudou as suas vidas, o que significou para eles e como lhes deu esperança em tempos difíceis.

O amor pode surgir nas mais terríveis circunstâncias. Esta é a grande lição que retiramos deste livro?
Sim, é. E nunca abandonar a esperança. Desde então já conheci vários homens e mulheres de muitos países que me disseram que os seus pais também se tinham conhecido em Auschwitz. Se pensarmos nisso, os campos de concentração criaram laços de comunidade pelo facto das pessoas se aproximarem umas das outras e procurarem o conforto onde lhes fosse possível encontrá-lo durante este período da História.
 
 
«MUITAS PESSOAS ESCREVERAM-ME A DIZER QUE NÃO FAZIAM IDEIA DE COMO TINHA SIDO O HOLOCAUSTO»
Entretanto, surgiu a sequela A Coragem de Cilka. Quer falar-nos sobre o que a levou a continuar a história?
Lale disse-me várias vezes que quando tivesse acabado de escrever a sua história, deveria escrever a de Cilka e mostrar ao mundo a pessoa mais corajosa que ele alguma vez conheceu.
Falar sobre Cilka foi muito doloroso para o Lale devido ao que lhe aconteceu depois de Auschwitz. Ela salvou-lhe a vida e ele nada pode fazer para a salvar de ser encarcerada num gulag siberiano.
Gita esteve várias vezes com Cilka enquanto voltava da Eslováquia, e Lale contou-me a história de como ela sobreviveu no gulag e sobre a vida em Kosice com o homem que conhecera e se pelo qual se apaixonara.
Ao escrever A Coragem de Cilka, estava a honrar uma promessa que fiz a Lale. Tendo em conta o que descobri posteriormente sobre Cilka, sou forçada a concordar com ele: ela é a pessoa mais corajosa sobre quem já li.
Escrever a história de como esta jovem mulher sobreviveu aos gulags soviéticos foi chocante e difícil, porque estava a escrever sobre as experiências que alguém teve de suportar. Isto, contudo, deu-me inspiração para escrever mais sobre as atrocidades cometidas às raparigas e mulheres e lançar o debate sobre o abuso sexual durante conflitos e tempos de guerra.

Romancear este tema não desvirtua/minimiza o peso da História? E, por outro lado, não tende a diluir a fronteira entre o que é ficção e realidade?
Não. Muitas pessoas escreveram-me a dizer que não faziam ideia de como tinha sido o Holocausto. Agora, essas pessoas sabem algo, e algo é melhor que nada. Também ouvi que muitos leitores estão a planear ir a Auschwitz para aprender mais sobre o Holocausto e que começaram a ler mais sobre isso. Se a história de amor de Lale e Gita deixasse apenas um punhado de pessoas a querer saber mais sobre este período sombrio, ficaria orgulhosa desse feito.
Conheci e falei com muitos sobreviventes e muitos deles contaram-me que o que tinham visto e a forma como o interpretaram variou entre eles, mesmo estando ao mesmo tempo, no mesmo local. Ainda que não acredite que seja relevante, acontece que a História e a memória andam lado a lado, mas nem sempre se conjugam. Devemos acreditar nas memórias das pessoas porque cada uma conta uma história única.

Wook a inspira para escrever?
Outras pessoas que estejam preparadas para partilhar as suas histórias comigo. Eu adoro ouvir. Quando conheço alguém que me queria contar a sua história, ou uma história, sinto-me abençoada.

Que escritores mais admira?
A Hilary Mantel é uma exímia contadora de romances históricos. Os policiais de Michael Connelly deixam-me completamente presa durante voos de longa distância. Julian Fellows por me deixar escapar para o opulento e misterioso mundo que era a Inglaterra de outrora [Old England].

Qual foi o último livro que leu e adorou?
Ainda não foi publicado, mas tive, contudo, o privilégio de ter acesso a uma cópia e adorei. Chama-se The Last Green Valley e foi escrito por Mark Sullivan. Procurem-no lá mais para o final do ano.

Que momentos na sua vida lhe dão conforto?
Passar tempo com os meus cinco netos. Eles mantêm-me com os pés bem assentes no chão, porque não querem saber se escrevo livros e ando em viagem para locais distantes. Vivem no momento e eu adoro ser o momento deles.

Wook vem a seguir?
Em setembro ou outubro deste ano, vou lançar o meu novo livro de não-ficção, intitulado Stories of Hope [Histórias de Coragem]. Escrevi sobre muitas das pessoas que conheci, que partilharam as suas histórias comigo e sobre o que aprendi com elas. Através delas, obtive inspiração para a minha própria vida.

Daqui a 10 anos, o que gostaria de ler sobre si?
Esta é difícil. Eu não tenho o hábito de ler o que é escrito sobre mim. Muitas pessoas das comunidades judaicas de vários países disseram-me que estavam gratas por ter mantido as histórias do Holocausto vivas e acessíveis a todos. Na Austrália e no Reino Unido, foi lançada uma versão ‘Young Adult’ d ‘O Tatuador de Auschwitz e já a estudam nas escolas. Fico encantada quando me convidam a ir a uma aula para falar aos estudantes de inglês, história e escrita criativa.
Se alguém escrever sobre o número de interações que tive com estudantes e sobre como fiz diferença na sua perceção do Holocausto e na necessidade de nunca esquecer, ficaria muito feliz.

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