Haruki Murakami: a arte da ficção

Está traduzido em mais de 50 idiomas, é aficionado por desporto (corrida, em particular, o que também originou um livro) e continua avesso a entrevistas.
Diz não perceber o fascínio que têm por ele. Talvez ele até não saiba o quão submersos ficamos nas suas próprias obsessões: Kafka, gatos, esparguete, jazz, sonhos, as profundezas da mente humana, e sempre aquele poço. Imergidos e viciados.
Haruki Murakami
Murakami é um dos escritores mais lidos em todo o mundo
Haruki Murakami (Quioto, 1949) é uma voz direta, precisa e fácil de seguir que nos guia por enredos desconcertantes e universos surrealistas – peixes que chovem do céu, gatos que conversam. Sim, Kafka à Beira-Mar foi um daqueles livros magnéticos como ferro para íman. Mas nem tudo é absurdo: nesta narrativa pós-moderna do autor há espaço para personagens carregadas de humanidade, próximas de nós, com os seus dramas, angústias e alegrias próprias de quem está vivo. Eles ouvem música, comem deliciosos pratos de massa, fazem amor, trabalham, viajam, são obsessivos-compulsivos. Como não haveríamos de criar empatia com elas?

Sejamos francos: quando enviámos a entrevista, há longos meses, sabíamos ao que íamos: provavelmente, a lado nenhum. Entretanto, houve um dia em que chegamos ao computador, abrimos a pasta dos e-mails recebidos com o denodo habitual e ali estava ela.

O japonês mais lido do mundo havia respondido.

Uma página em japonês, outra página em inglês. Murakami obrigou-nos a contratar um tradutor para 133 palavras. Das 12 perguntas, três voltaram de Tóquio sem resposta. Ou melhor, com a resposta «No answer.» E aqui aplica-se a célebre frase: Whatever it is you’re seeking won’t come in the form you’re expecting. E até estas idiossincrasias têm a sua graça.

It has been a pleasure, Mr. Murakami!
«AS HISTÓRIAS DEVEM SER CONTAGIOSAS»
Qual é a primeira memória que tem de si enquanto pessoa?
Quando tinha 2, 3 anos, fui levado por um pequeno rio que havia à frente da minha casa. Antes de ser puxado para um túnel escuro, a minha mãe salvou-me.

Quando é que percebeu que se podia tornar escritor? E mais importante: que podia mesmo viver da sua - belíssima, sublinhe-se - escrita?
Em abril de 1978. Na altura, tinha 29 anos. Desde então que tenho continuado a escrever romances.

A prática de exercício físico – corrida e natação – é uma das suas imagens de marca. O que é que o desporto faz efetivamente por si?
Serve principalmente para não engordar.

Sabemos que segue uma rotina de escrita. Quantas horas escreve por dia?
Quando estou a trabalhar em romances, escrevo aproximadamente 3, 4 horas por dia. Além disso, também faço tradução.

Quando começamos a ler um romance seu, de repente, a nossa vida real assemelha-se àquela história, torna-se parte dela. Como é que esta magia acontece?
As histórias devem ser contagiosas.

Disse que A Morte do Comendador, o seu último livro, é uma homenagem a O Grande Gatsby. Como surgiu esta ideia?
É uma homenagem em certa parte. A história tem muitas partes.

Quantas horas dorme por noite?
Cerca de 7 ou 8 horas.

Wook está na sua mesa-de-cabeceira?
Tearing Down the Wall of Sound, a biografia de Phil Spector.

Com o que é que sonha?
Gatos.   

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