Entrevista a Sandra Barão Nobre, criadora do Acordo Fotográfico

Estivemos à conversa com Sandra Barão Nobre, a autora do blog Acordo Fotográfico, que acaba de lançar um livro, fruto das viagens que fez e das conversas que teve com leitores dos cinco continentes. Descubra tudo o que a escritora nos contou.
Em 2011, criou o Acordo Fotográfico, um blog sobre pessoas, livros e fotografias, que homenageia o ato de ler. Continua a acreditar que “somos particularmente fotogénicos quando lemos um livro”?
Continuo a achar, sim.

Porquê?
Porque gosto da forma como o leitor e o livro formam uma unidade, gosto da introspecção e do silêncio, gosto das diferentes posturas que os leitores adoptam.

Cinco anos depois, funda A Biblioterapeuta, um serviço de terapia através dos livros. Pode falar-nos um pouco mais sobre este projeto?
A Biblioterapeuta resultou de um processo de maturação que durou cerca de três anos, depois de me ter cruzado com o conceito de Biblioterapia pela primeira vez. Antes de lançar o serviço, obtive um certificado internacional de Coaching, porque me pareceu que poderia aplicar essa metodologia à Biblioterapia. É com base no método do Coaching que providencio serviços de Biblioterapia de Desenvolvimento Pessoal — uma assistência literária personalizada, adequada a clientes de qualquer idade e que estimula o potencial emocional, social e intelectual do cliente — e Biblioterapia Institucional ou Corporativa (em parceria com a Mindshake) — aplicada a grupos ou individualmente e que tem como objectivo informar ou esclarecer sobre um determinado assunto, de acordo com os objetivos estabelecidos pelo cliente à partida. Em ambos os casos, a Biblioterapia ajuda na tomada de decisões, no reajustamento de atitudes e comportamentos, na resolução de problemas do dia-a-dia e na concretização de tarefas comuns.
Entrevista a Sandra Nobre Acordo Fotográfico
Entre um projeto e o outro houve uma viagem pelo mundo com a mochila às costas e agora um livro, Uma Volta ao Mundo com Leitores. Este livro implicou viagens por vários países, conversas com leitores dos cinco continentes, exposições fotográficas em cidades distintas e até presença em alguns programas televisivos (já para não falar que a levou também à primeira edição do TEDx de Santo Tirso). O que é que os livros lhe dão para que não deseje parar de lhes prestar homenagem?
Os livros dão-me um mundo sem fronteiras, horizontes largos, conhecimento, desassossego e liberdade. Têm-me dado, também, trabalho e são a fonte do meu sustento há quase 14 anos.

Há algum tema sobre o qual não goste de ler ou escrever?
Nunca tinha pensado nisso. Assim de repente, economia e política parecem-me temas bastante dissuasores.

Pense numa pessoa. Wook diria essa pessoa sobre o seu livro?
Estou feliz por teres concretizado o que eu não pude.

Acredita que a publicação do primeiro livro pode alterar a sua forma de escrita no futuro?
Não, não acredito que publicar, só por si, vá mudar a forma como escrevo. Acredito mais na influência das leituras, das viagens, das experiências e das pessoas.

Há alguma coisa que um dos leitores que fotografou tenha dito ou feito que a tenha marcado para sempre?
Ao fim de quase seis anos, já houve muita coisa dita e feita por leitores que me marcaram. Recentemente, em Shiraz, no Irão, fotografei uma leitora a ler em voz alta para um homem, junto ao túmulo do grande poeta persa Hafez. Quando lhe enviei a fotografia, contou-me que se tinham conhecido havia pouco tempo e que eu lhes tinha feito a primeira fotografia juntos.

A página de Facebook do seu blog, Acordo Fotográfico, conta com mais de 4 mil likes. Como gere a relação com os seus seguidores?
Procurando postar regularmente e responder a todas as mensagens ou comentários sem demora. É uma gestão muito simples, na verdade.

Escrever: é um processo partilhado ou solitário?
Altamente solitário.

Escrever: dá energia ou tira energia?
Às vezes dá energia, outras vezes tira. Muitas vezes é também um alívio porque consegui finalmente passar para o papel uma ideia em que andava a matutar há muito.

Um grande ego: ajuda ou prejudica o escritor?
Não faço a mínima ideia. À primeira vista, poderia dizer que na ficção, por exemplo, uma personalidade demasiada egocêntrica talvez não ajude. Imagino que a criação de personagens consistentes obrigue o autor a se descentrar e a colocar-se no lugar dos outros, dos seus personagens, isto é, a ser menos egocêntrico e mais empático. Mas a história da Literatura está cheia de egos gigantescos que produziram obras de ficção que são obras-primas. Por isso...

Qual foi o primeiro livro que a fez chorar?
Não me lembro. Choro com facilidade, até a ler. Portanto é difícil ter presente a primeira vez. Mas posso mencionar a última vez, que aconteceu há um par de dias, no Hospital de St. António, no Porto, onde sou voluntária. Uma vez por semana vou ler em voz alta ao Serviço de Neurofisiologia, no âmbito do Projecto “Ler Faz Bem”, da Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Naquele dia, o paciente quis que eu lesse Salgueiro Maia – O Homem do Tanque da Liberdade, um pequeno livro que pertence à coleção infanto-juvenil Grandes Vidas Portuguesas. No parágrafo em que Salgueiro Maia, já no Largo do Carmo, se dirige à multidão e declama os primeiros versos de “Grândola, vila morena”, do José Afonso, desabei num pranto. Estava na frente de dois estranhos (o paciente e uma visita) e foi bastante constrangedor. Mas eles emocionaram-se também e acabamos por nos rir do sucedido.

Qual é a sua obra subvalorizada preferida?
Lisboa em Camisa, de Gervásio Lobato, uma novela que retrata com grande sentido de humor as façanhas de uma família burguesa de Lisboa com a mania das grandezas, mas que não passa da cepa torta. Passados quase 130 anos, o retrato de uma certa camada social portuguesa e dos seus tiques continua atualíssimo.

Que autores lhe colocam um brilhozinho nos olhos?
Tantos! Isto vai ser injusto para muitos autores que adoro... Mas aqui vai: a Marguerite Yourcenar, a Chimamanda Ngozie Adichie, a Amélie Nothomb, a Lucía Etxebarria, a Zoé Valdés, o Valter Hugo Mãe, o Afonso Cruz, o Ricardo Adolfo, o Miguel Sousa Tavares, o Alain de Botton, o Jorge Amado, o John Steinbeck, o Somerset Maugham, o Eça de Queirós, o Mario Vargas Llosa e por aí fora...

Há um provérbio sueco que diz: “Quando o livro é bom, o melhor está nas entrelinhas”. Concorda?
Talvez.

Porquê?
Se interpretar “as entrelinhas” como a matéria que nos faz reflectir, que dá que pensar, que vai mudando paulatinamente algo em nós. Mas o que acho mesmo é que um livro é bom quando sobrevive ao passar do tempo, quando é eternamente pertinente, quando traz sempre algo de novo a cada releitura.

Se o dinheiro não fosse uma condicionante, onde optaria por fazer a pesquisa do seu próximo livro?
Sozinha, na estrada pan-americana.

Se tivesse um superpoder, qual seria?
O teletransporte.

Projetos para o futuro?
Uma viagem a Myanmar, o regresso ao Irão, continuar a escrever para o Acordo Fotográfico, exposições de fotografia, um projeto de Biblioterapia no Centro Hospitalar do Porto, a pan-americana que não me sai da cabeça.


Por opção da autora, este texto não foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico.

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