Entrevista a João Tordo

"Tenho personagens a sussurrarem-me que precisam de mim", contou-nos João Tordo, "porque estão numa situação difícil e urge escrever sobre ela". Estivemos à conversa com o autor de O Bom Inverno, a propósito do seu último livro. Leia já a entrevista.
Wook está na sua mesa de cabeceira?
A Forma das Ruínas, de Juan Gabriel Vasquez e A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar, de Ricardo Araújo Pereira.

Pense numa pessoa. Wook diria essa pessoa sobre o seu último livro, O Deslumbre de Cecilia Fluss?
Acho que um amigo meu diria: “Estás a ficar mais crescidinho”.

Considera que o seu último livro é o melhor que escreveu até hoje?
Considero que o último livro que escrevi, que será publicado no dia 3 de Maio de 2017, foi o mais difícil – se é o melhor ou não, compete aos leitores dizer. “Melhor” é uma palavra complicada porque presume um “pior”, e não gosto de pensar nos livros assim. Também remete para um mundo de competição e galardões que não encaixa assim tanto em literatura.
Entrevista a João Tordo
Escolhe os temas dos livros ou os temas escolhem-no a si?
Não escolho temas, o que acontece é que, conforme os dias passam, tenho personagens a sussurrarem-me que precisam de mim, porque estão numa situação difícil e urge escrever sobre ela. Acho que sou um escritor de personagens, elas vão-se revelando (são lados meus) nas alturas de silêncio, de não-escrever, e quando chego à página as suas vozes insinuam-se com grande clareza. Pouco me importa o tema – não seria capaz de escrever sobre o tema X ou Y. Mas sobre alguém que precisa de ajuda, de uma conversa ou uma confissão, isso sim, interessa-me.

Mas há algum tema sobre o qual não goste de ler ou escrever?
Todos! Não gosto de escrever sobre temas.

Há um provérbio sueco que diz: “Quando o livro é bom, o melhor está nas entrelinhas”. Concorda?
Claro. Os livros, como nós, também “respiram”. É nessa respiração e nesse silêncio, nesse “subtexto”, que se encontra a matéria emocional e transformadora que constitui a essência de um livro.

Já alguma vez sentiu que não vai conseguir acabar de escrever um livro?
Várias vezes. Às vezes é a angústia, noutras é o medo; noutras, ainda, é o cansaço a falar. E intromete-se normalmente ali a meio, de um dia para o outro, e começa a “mastigar” a paciência. É preciso muita fé para levar um livro até ao final, sobretudo se esse livro tocar nas partes em nós que mais doem.

Qual é o seu poema favorito?
“I Have Longed to Move Away”, Dylan Thomas.

Nomeie uma coisa que não gosta que lhe digam.
Sou bastante básico nisto, não gosto (como toda a gente) que me digam que falhei, que fiquei aquém. E, no entanto, é nessas ocasiões que eu mais aprendo.

Qual a pior e a melhor parte de ser escritor?
A melhor parte é o caminho que se percorre em cada livro, cujo desfecho é desconhecido. O dia a dia da escrita de um romance é uma aventura incrível, cheia de adrenalina, medo, prazer, angústia, dúvida, etc. A pior parte é a vida algo precária que grande parte dos escritores tem, e tudo o que é preciso fazer para “sustentar” a vocação.

Se o dinheiro não fosse uma condicionante, onde optaria por fazer a pesquisa do seu próximo livro?
No Japão.

Se pudesse partilhar um jantar com qualquer autor (vivo ou morto), quem escolheria?
Acho que jantaria com o Álvaro de Campos.

Se tivesse um superpoder, qual seria?
Ter uma fé inabalável no meu caminho ou poder voar sobre os telhados de Lisboa.

Wook gostaria de ler sobre si?
Gostaria de ler que o escritor João Tordo retirou-se para lugar desconhecido depois de o seu último livro ter vendido 1 milhão de exemplares.

Consegue nomear 3 autores que o inspiram?
Roberto Bolaño, José Saramago, Philip Roth.

Wook mal pode esperar para ler?
O próximo livro do David Machado.

Wook tem vergonha de nunca ter lido?
A Montanha Mágica, de Thomas Mann.

Projetos para o futuro?
Um livro de ficção e um livro de não ficção.

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