Entrevista a Gonçalo Cadilhe

Conversa puxa viagem: fique para ler a nossa com o escritor e viajante profissional Gonçalo Cadilhe.
Na introdução do novo livro O Esplendor do Mundo, refere que “viaja há 25 anos de forma profissional, metódica e estruturada”. O excesso de organização não mata a aventura?
Aventura? Onde está a aventura? Viajar hoje em dia é um comportamento de massas praticado por milhões e milhões de pessoas em todo o mundo. Está tudo descrito na net e explicado nos guias de bolso como o Lonely Planet que são autênticos best-sellers mundiais. Não há aventura no viajar desde há muitas décadas. Mas há outros valores, como a espontaneidade, a liberdade de alterar itinerários, a disponibilidade para aceitar contratempos e o bom-humor para lidar com as contrariedades, que se perdem quanto mais for planificada a viagem.
Entrevista a Gonçalo Cadilhe
Gonçalo Cadilhe
No fundo, a maioria dos turistas prefere a organização e o planeamento do que a surpresa e o acaso. Eu, pessoalmente, tenho que pesar se quero a viagem mais organizada ou mais livre. Depende do projecto. Certamente com menos planeamento podem surgir mais histórias boas para contar num livro, como no caso do “África Acima”, em que durante dez meses fui ao acaso pelo continente acima em transportes públicos sem ter qualquer itinerário planeado. Mas se o projecto for um documentário, com uma equipe de filmagens, autorizações que envolvem papelada burocrática com as embaixadas para filmar em certos dias e em certos lugares, etc, prefiro ter tudo planeado para que tudo corra bem. No caso do Nos Passos de Santo António”, fiz primeiro a viagem sozinho para escrever o livro, e foi muito mais “livre” do que quando a repeti acompanhado pela equipe de filmagens para realizar o documentário.

Qual foi a sua primeira viagem?
No livro “Encontros Marcados” descrevo com alguma ironia e o devido sentido das proporções o meu primeiro acampamento com os escuteiros quanto tinha sete anos. Foi a mais épica das minhas viagens, muito mais marcante do que aos trinta e seis anos ter atravessado o Afeganistão. Gosto de pensar que foi aí que começou a minha carreira de viajante. Na verdade, o bichinho de ver o mundo nunca mais me abandonou…

Wook foi mais emocionante: surfar aquela onda em Nias (Indonésia) ou ter chegado ao Estreito de Magalhães?
Na altura foi mais marcante ter chegado ao Estreito de Magalhães. Mas sabendo o que sei hoje, e compreendendo que me é muito mais fácil repetir a visita ao Estreito do que ter menos quinze anos e “sacar” o tubo completo que fiz em Nias, com toda a técnica e agilidade que isso implica, então eu diria que, numa perspectiva de olhar para trás e analisar o que já passou, essa madrugada na onda de Nias permanecerá como mais marcante no conjunto dos “feitos” que consegui realizar no arco da existência.

Para quem viaja tanto, ficou algum destino por ir?
UI, tantos. E Deus queira que nunca os visite. Ou porque não me interessam, ou porque são perigosos, ou porque já passaram o prazo de validade. Por exemplo, Seychelles, Suriname ou Arábia Saudita ou Coreia do Norte, são destinos que não me despertam qualquer interesse. Outros que são perigosos e que não irei querer visitar: Iraque ou Honduras. Com “prazo de validade”, refiro-me a destinos que em um dado momento da minha vida gostaria de ter conhecido mas que entretanto perdi a curiosidade. Sei lá…. Ibiza?

Há algum sítio onde não queira regressar?
Goa. Fui várias vezes por causa dos projectos de viagem ligados à História de Portugal e aquilo não tem interesse nenhum, em termos objectivos… só mesmo um português com o seu proverbial sentimento de melancolia por um passado idealizado onde éramos potentes e importantes é que pode ter curiosidade por visitar Goa.

Se pudesse levar apenas um objeto na mala o que escolheria: um caderno para tirar notas ou a máquina fotográfica?
A máquina fotográfica. Captura o instante muito mais depressa e com mais objectividade. Depois, em casa, ao rever as imagens, poderia então escrever, com calma, sobre tudo o que me chamou a atenção e dedicar-me a elaborar sobre essa realidade, que é, afinal, o trabalho do escritor de viagens.

Nomeie uma coisa que não gosta que lhe digam.
“Devias ter cá estado ontem”. É o pesadelo de qualquer surfista, ouvir essa frase. No surf as condições ideais para a prática do desporto são efémeras e irrepetíveis. Às vezes muda a maré ou levanta o vento ou a ondulação perde força e pronto, passou o momento. Como todos temos as nossas vidas, as nossas responsabilidades, os nossos compromissos, etc.. acontece com frequência não estarmos disponíveis e dentro de água, quando acontecem as condições perfeitas para o surf. É então que surge a frase fatídica, dita pelos outros surfistas, os que não falharam a oportunidade que o mar deu: "Ó pá, devias cá ter estado ontem…".

Escreveu mais de 15 livros. Também tem tempo para ler?
Ehehe muito dos livros que escrevo resulta dos livros que leio. Não apenas na pesquisa dos lugares e das situações históricas que deram origem ao meu projecto (penso por exemplo na pesquisa histórica para o livro “Nos Passos de Magalhães”), mas também na busca de inspiração para o meu modo de escrever. Já agora, sou fã e tento guiar-me pelo estilo de mestres como Raymond Carver (escrita seca e certeira), Haruki Murakami (capacidade de exposição clara dos seus raciocínios em Auto-Retrato de um Escritor, por exemplo), Raymond Carter (a forma inesperada como termina os seus breves contos.

Wook está na sua mesa de cabeceira?
“Prisioneiros da Geografia”, de Tim Marshal; “Timekeepers - how the world became obsessed with time” do Simon Garfield.

Wook tem vergonha de nunca ter lido?
Os clássicos russos e franceses do século XIX.

De que sítio não se quer sair? E aonde se pensa tantas vezes em voltar?
Da juventude. Ao que me for restando dela.

Tem apenas 100 euros no bolso. Para onde vai?
Para uma boa livraria.

Livros relacionados

Wook está a dar

Subscreva!