Entrevista a Bárbara Barroso

Por Vera Dantas
3 de setembro de 2023
Bárbara Barroso é fundadora do laboratório de literacia financeira MoneyLab, especialista em finanças pessoais, investidora e palestrante internacional há mais de 15 anos. Ela sabe que, desde que nascemos criamos uma relação com o dinheiro, quer tenhamos ou não consciência disso. Com o tempo, desenvolvemos um mindset em relação ao dinheiro que nos pode ser muito prejudicial. Isso acontece porque passamos por más experiências ou simplesmente porque tal nos foi incutido.
O dinheiro diz muito mais da nossa identidade do que aquilo que se pensa. É também uma ferramenta que nos liga. O que faz mover os negócios são as pessoas: quem entender como se relacionar, tem uma via verde para o êxito financeiro.
Bárbara Barroso
Bárbara Barroso
Mas é preciso saber em que terreno nos movemos. Portugal padece de dois grandes males neste domínio: a iliteracia financeira e a penalização da falha e do erro. A solução não é nem depositar a nossa ideia de felicidade apenas no dinheiro, nem, muito menos, diabolizá-lo. Passa por mudarmos o nosso mindset, aprender a gastar bem e, depois disso, saber investir.

A autora, uma mulher empreendedora e aguerrida, falou connosco sobre o seu novo livro, Ponha o Seu Dinheiro a Trabalhar para Si. Convida todos os seus leitores a que o usem como um manual prático para a sua vida, porque só entrando em ação é que vemos os resultados, que vão muito além de implementar práticas de poupança, conselho a que muitos autores nesta área se limitam.

Ela mostra-nos um caminho com pistas claras para que não percamos o foco. Atreva-se a segui-la!  
 
«O dinheiro diz muito mais da nossa identidade do que aquilo que se pensa»


Portugal está nos últimos lugares da literacia financeira a nível europeu, segundo dados recentes que menciona no seu livro. Acredita que este cenário vai mudar para melhor?
São dados que nos preocupam, claramente, mas mostram também que há um longo caminho a fazer. Mesmo este livro, Ponha o Seu Dinheiro a Trabalhar para Si, é um contributo para mais e melhor literacia financeira. Os espaços que estão a ser dados pelas mais diversas instituições e instâncias são insuficientes para sair da cauda. Mas todos os passos são positivos quando pretendemos promover mais literacia financeira. Estamos menos mal do que há uns anos, mas os dados mostram que ainda estamos muito mal.


O seu livro [Ponha o Seu Dinheiro a Trabalhar para Si] começa com perguntas e exercícios destinados ao leitor. Faz-nos ver que todos temos uma relação com o dinheiro, embora essa não seja, na maior parte dos casos, a melhor. É uma relação com a qual crescemos e na qual somos educados. Nesse sentido, como vê o papel do ensino atual em Portugal neste processo, até em comparação com outros países?
A educação financeira, nomeadamente com jovens e crianças, é para mim um tema muito sensível. Tanto que, através do MoneyLab, nós já tivemos vários programas que abrangeram escolas e os nossos mais jovens formandos tinham 6 anos. Portanto, estivemos no terreno e conhecemo-lo. Cheguei a ter muitas reuniões com muitas entidades para fazer quase que um lobby para a integração da educação financeira na disciplina curricular. O que temos é uma parcela dentro da disciplina de Cidadania, que é sobejamente insuficiente. A literacia financeira tem que começar a ser vista como algo sério. Como tantas outras coias em Portugal, estamos preocupados mas ninguém faz nada. Se queremos ter cidadãos, no futuro, mais informados, temos que começar pela educação, que é a chave para o sucesso. A educação é o que rompe a pobreza entre gerações. São precisas várias gerações para quebrar esse ciclo. A educação financeira é fundamental porque todos nós temos que lidar com o dinheiro, mas ninguém nos ensina a fazê-lo.
 
«A educação é o que rompe a pobreza entre gerações.»


Ainda hoje falei com médicos que me disseram : «aprendemos coisas tão complexas na universidade, mas ninguém nos ensina a nossa saúde financeira». Outra crítica que eu faço é que ninguém nos ensina como fazer o IRS, o que é estranho porque somos obrigados a entregar uma coisas que ninguém nos explicou. Para conduzir tenho que ter carta, tenho que aprender. E não basta dizerem que «há mais informação», esta tem que ser clara!
Houve um trabalho com a CMVM e o Banco de Portugal que tem forçado as instituições a terem mais informação, nomeadamente com produtos bancários. Mas quem é que entende aquela linguagem? É preciso também saber comunicar a área financeira. Há duas premissas muito importantes para mim: um investimento na educação para a literacia financeira e comunicar, com uma linguagem próxima e clara. Só entendendo é que conseguimos fazer as transformações necessárias na nossa vida.


 
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Ponha o Seu Dinheiro a Trabalhar para Si – 7 passos para aprender a investir e atingir a liberdade financeira, o livro de estreia de Bárbara Barroso.
Para além da comunicação clara, que a Bárbara já está a fazer com este livro, é necessário saber pôr em prática o que se aprende. Por exemplo, em relação aos juros compostos, que descreve como «a oitava maravilha do mundo segundo Einstein», há vários riscos. Em termos institucionais, se formos aos bancos obteremos um aconselhamento com interesses próprios… Onde podemos, enquanto cidadãos, obter aconselhamento fidedigno?
Atualmente, as próprias pessoas que trabalham nos bancos precisam de literacia financeira. Muita gente que trabalha na banca vem fazer as nossas formações no MoneyLab, o que é um exercício de humildade, porque há muita coisa a mudar e estamos sempre a aprender. No que toca aos juros compostos, estão relacionados com o conceito de crescimento exponencial, explicado na Matemática. Quando nós utilizamos uma Matemática para o nosso dia a dia, compreenderemos o conceito «juros compostos».
Em relação ao aconselhamento, exatamente um dos pontos do livro, do podcast e dos cursos do MoneyLab, é capacitar as pessoas. Há um provérbio chinês que eu cito há 18 anos que diz «quando vês alguém com fome, não lhe dês uma cana, ensina-o a pescar». Desde o momento em que eu dou o peixe na boca, estou a criar uma dependência. Quando eu capacito as pessoas, mesmo que a ajuda não esteja lá, as pessoas conseguem tomas as suas decisões ou fazer as perguntas certas para tomarem as suas decisões.

A verdade é que as pessoas têm que ter cuidado, porque estamos a passar por um período economicamente desafiante, pós-pandemia e com pressão inflacionista.
Sempre que há crise há oportunistas. Há burlões que vêm vender sonhos irrealistas. E este também é um papel da literacia financeira, porque as capacita para serem «menos enganadas». Quando eu tenho literacia, eu tenho a noção, por exemplo, de qual é a referência de uma taxa de juro no mercado para eu questionar perante certas situações. Os meus alunos, quando vêm coisas irrealistas até fazem graças com elas, porque sabem que aquilo não é possível. As burlas estão cada vez mais sofisticadas, até com a questão do digital e das redes sociais. As pessoas com menos literacia financeira acabam por ser alvos fáceis. E porque tiveram uma má experiência, começam a ter uma má relação com o dinheiro, como explico no ponto 1 do livro. Vejo essa situação muitas vezes em casais.
O dinheiro diz muito mais da nossa identidade do que aquilo que se pensa. Bastam-me 10 minutos a conversar com uma pessoa sobre a sua vida financeira e a sua relação com o dinheiro, para eu perceber como ela é em termos de personalidade, carácter, o que valoriza e até descobrir qual será o seu tipo de comportamento profissional – só fazendo-lhe perguntas relacionadas com a área financeira. Descobrimos um determinado padrão, algo na família, um trauma, alguma valorização do seu próprio ambiente. Todos nós temos uma identidade financeira. Ela resulta das nossas crenças, do nosso ambiente, da forma como nós percepcionamos e queremos ser percecionados. O dinheiro revela muito de nós e acaba por exacerbar aquilo que nós somos. Se a pessoa é mal formada, se fizer muito dinheiro vai continuar a ser uma pessoa mal formada, que não vai fazer boas coisas. Uma pessoas bem formada, com muito dinheiro, vai ajudar outras pessas. Os homens e mulheres mais ricos do mundo são também os maiores filantropos, embora exija uma tendência de diabolizar os ricos, muito também por influência de Hollywood. Então como é que eu vou tornar em algo que eu repelo? Este ponto, da questão comportamental, é um ponto que também procuro trazer através do livro, por que quem entender por que motivo se relaciona de determinada maneira com o dinheiro, consegue grandes resultados.
 
«Ninguém nos ensina a gastar bem e é possível gastar bem.»


Podemos ver a falta de dinheiro como limitadora à partida. Se gostarmos muito de uma coisa e não a pudermos fazer por falta de dinheiro ficamos tristes…
Sim, isso é muito importante. Há uma corrente das finanças pessoais que é muito apologista do corte raso. Muitos especialistas em finanças pessoais insistem muito só em dizer «como é que poupamos?». Vai viver de latas de atum, corta aqui, corta ali… Mas eu costumo dizer que há mínimos olímpicos, um limiar a partir do qual já não é possível poupar. E esse ponto é a nossa felicidade. Temos que baixar a despesa naquilo que não nos interessa e aumentá-la naquilo que nos interessa e não há mal nenhum nisso. O livro vem retirar essa conotação de que é mau gastarmos o dinheiro naquilo que nos faz felizes – não há mal nenhum gastar o dinheiro em viagens, por exemplo. A questão é saber como organizar o nosso dinheiro para fazê-lo. Ninguém nos ensina a gastar bem e é possível gastar bem.


Pôr o dinheiro a trabalhar para nós requer um espírito algo empreendedor. A nossa mentalidade portuguesa de não apoiarmos o empreendedorismo, ao contrário do que acontece em países como os EUA, contribui para que haja uma percentagem tão pequena de nós que é capaz de fazer render o seu dinheiro?
Sim. O empreendedorismo é um ótimo caminho para a criação de rendimento e de riqueza. Culturalmente, nós penalizamos a falha e o erro.Na cultura norte-americana é exatamente o contrário. Para os shark tanks ou os business angels desta vida, apresentarem-lhes um projeto sem nunca ter falhado é motivo para eles não investirem, porque a pessoa ainda não tem experiência suficiente. No meu livro também menciono que para mim, não há insucesso, não há erro: há sucesso ou há aprendizagem. Todas as falhas são o nosso acelerador de aprendizagem. É preciso deixar de penalizar as falhas porque isso leva a que muita gente que tem fantásticos projetos os mantenha dentro da gaveta porque tem pânico de ser criticado pela falha. Mas eu também nunca vi um empreendedor criticar outro empreendedor. As pessoas que têm uma ideia, não se deixem abater, porque há sempre alguém que critica e que faz menos do que nós.
 
«É preciso mudar o mindset em relação ao dinheiro.»

A propósito, quer partilhar connosco alguma história de sucesso de alguém que tenha passado pelas suas formações e que, graças a elas, tenha conseguido concretizar um projeto?
Tantas!... Lembro-me de um caso de uma jovem que morava em casa dos pais e tinha feito a formação connosco. De repente, envia-me uma mensagem a dizer que estava a rentabilizar a garagem, obtendo assim um rendimento de 250 euros. Com esse rendimento, ajudou os pais a abaterem uma dívida que tinham. Como eu gosto de dizer, é «pôr os óculos da riqueza». Outra aluna transformou umas casas de família num alojamento local, que hoje é uma outra importante fonte de rendimento da família. Ela diz que se sentiu empoderada por isso, pois começou por simples vendas, num site de vendas online, de coisas que já não usava.


Esse arranque ajudou-a a mudar (como a Bárbara insiste no seu livro) o mindset que ela tinha em relação ao dinheiro?
Sim, mudou o seu mindset. Tornou a sua vida eficiente e conseguiu ganhar mais dinheiro. Ainda na semana passada um aluno meu partilhou que a sua mudança de mindset foi de tal forma que tudo o que ele implementou – já é um investidor de longo prazo – mudou a vida da família de uma forma inacreditável, porque, hoje, conseguem ter mais experiências sem se andarem a limitar; conseguiu ainda obter um aumento do seu rendimento (é trabalhador por conta de outrem) em 80%, porque o seu posicionamento dentro da empresa mudou completamente. É inacreditável! Quando as pessoas implementam – como insisto no livro, tem que se implementar as estratégias – as transformações acontecem.

E há outros autores a corroborarem essa afirmação. Quais são os que mais a inspiram?
Mais na ótica do investimento, Warren Buffett é claramente para mim uma inspiração, pelo caminho, longo, que faz nos mercados financeiros, há 80 anos, pelos ensinamentos, pela clareza em transmitir a simplicidade que há num investimento. É uma grande referência e acaba por ser uma inspiração para percebermos que é preciso investirmos o nosso dinheiro para o multiplicarmos e criarmos riqueza. E mantém-se ativo não porque precise, mas porque ama o que faz, e eu nisso revejo-me totalmente porque faço o que amo e amo o que faço.


Podemos terminar com algumas palavras de motivação suas destinadas aos leitores do seu livro Ponha o Seu Dinheiro a Trabalhar para Si ?
Acima de tudo, entrem em ação. O livro dá as ferramentas, dá uma estratégia, uma linha para seguir, mas nós temos que entrar em ação. Implementem, nem que seja pouco de cada vez. No final de cada capítulo do livro, apontem 2 ou 3 ensinamentos que retiraram dele e implementem-nos. Pode ser ir ao banco fechar uma conta que não faz sentido ter aberta, pode ser renegociar um contrato… façam! Tornem o livro num manual prático da vossa vida, porque só entrando em ação é que nós vemos os resultados.
 

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