Entrevista a Ana Oliveira Cardoso

Vera Dantas
3 de março de 2026
Ana Oliveira Cardoso, autora açoriana que se estreou no romance com O Vento que me (E)Leva, acaba de lançar Ontem, um livro que nasce, segundo a autora, de «histórias contadas por familiares e amigos sobre o tempo em que se caçavam baleias, quando o mar era sustento e a paisagem da ilha (a neblina, o silêncio, a espera) moldava os dias».

Ontem, editado pela Letras Lavadas, é um romance que acompanha Madalena, nascida na freguesia das Capelas, na ilha de S. Miguel, e marcada pela vida das famílias ligadas ao mar e à baleação. A autora revisita um modo de vida que desapareceu, observando como esse fim atravessa uma mulher, a sua comunidade e a sua geração. Entre a infância da protagonista, partilhada com André, um menino da cidade, e a transformação da ilha, a narrativa segue o que se perde e o que resiste.
Um testemunho vivo da identidade açoriana.
 Ana Oliveira Cardoso
Ana Oliveira Cardoso
Que memórias, histórias familiares ou imagens dos Açores mais influenciaram a criação de Ontem?
O Ontem nasceu de memórias que não são apenas minhas: são histórias contadas por familiares e amigos sobre o tempo em que se caçavam baleias, quando o mar era sustento e a paisagem da ilha (a neblina, o silêncio, a espera) moldava os dias. A baleação interessou-me como facto histórico, mas também pelo seu lado humano: a vida medida pela coragem, pela perda e pela intimidade com o oceano.

O mar é presença física e simbólica neste romance. O que significa o mar para si?
Para mim, o mar é isso mesmo: presença. É vida. Lembra-me constantemente da minha fragilidade, mas também da minha força. Neste romance, ele existe como existe na vida: como mar (água) e como símbolo, que separa e une, que afasta e devolve. Quase como um espelho interior, revelando uma força que as personagens, às vezes, não sabem que têm.

O que mais a surpreendeu ou emocionou ao investigar sobre a baleação nos Açores?
O respeito. Os baleeiros caçavam por necessidade, mas tinham um profundo respeito pela baleia. A consciência do risco. A dependência absoluta do mar. A dimensão: um pequeno bote, os homens e um monstro, no território do próprio monstro. E a espera: tanto dos homens que querem sair no bote como dos que ficam em terra, à espera do seu regresso.
« Neste romance, o mar surge quase como um espelho interior, revelando uma força que as personagens, às vezes, não sabem que têm.»


De que forma é que a paisagem das Capelas e a memória da baleação moldaram a criação de Madalena e o tom do romance?
A paisagem campesina das Capelas e a sua proximidade do mar ajudaram-me a moldar a personalidade de Madalena, profundamente ligada à sua terra. Numa freguesia a alguns quilómetros da cidade, nos anos 60 e 70 do século passado, era normal nascer-se já com um destino “pré-estabelecido”. Foi a partir dessa inevitabilidade que criei os desafios: o confronto entre o que se esperava que ela fosse e o que ela realmente sonhava ser.

Madalena é filha e neta de homens do mar. Que aspetos dessa condição específica açoriana quis trazer à superfície através dela?
Através de Madalena, trago à superfície a herança de ser filha e neta de homens do mar: a ausência, o risco e a necessidade de amadurecer rapidamente. Ela carrega essa herança na forma como vive: sabe esperar, resistir e lutar. É nesse território, entre a força e a vulnerabilidade, que a sua personalidade se constrói.

A relação entre Madalena e André é feita de distância e marés. O que a interessava explorar neste amor que cresce entre dois mundos?
Interessava-me explorar a tensão entre o estar perto e o estar distante. O amor de Madalena e André cresce marcado pelo mar, que separa e aproxima; é um amor feito de pequenos gestos, de muitos silêncios e de sentimentos capazes de superar distâncias.

A ilha parece ter voz própria. Ontem é também um retrato da identidade açoriana contemporânea?
Embora se desenrole, na sua maior parte, em tempos passados, o Ontem é também um retrato da identidade açoriana contemporânea. Procurei dar a ver tradições, memórias e paisagens que ainda hoje vivem. Mas o mar transcende os Açores e o Ontem podia ser o retrato de muitas outras identidades. Sendo um livro sobre coragem e espera, fala de experiências universais de intimidade, de perda e de resistência.

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