Entrevista a Alberto S. Santos

Estivemos à conversa com o autor de «A Escrava de Córdova» que nos contou que, desde que começou a escrever, vê "a vida, o mundo e outros com mais responsabilidade e respeito". Alberto S. Santos acaba de lançar um novo livro, uma coletânea de histórias, que promete fazer o deleite dos leitores. Leia já a entrevista e descubra tudo.
Em A Arte de Caçar Destinos troca o romance, a que nos habituou, pelos contos. Em que género literário se sente mais em casa?
A minha casa é a escrita, e tem muitas divisões. Na verdade, a forma de contar histórias depende da pulsão de cada momento. Escrevo sempre que sinto esse impulso. Quando não acontece, procuro-o. O próximo livro deverá ser um novo romance histórico, para o qual estou a investigar. Mas tenho ainda alguns contos inéditos já escritos que, um dia, poderão integrar outro livro do género. Ou não. Logo se verá.
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Alberto S. Santos
No seu novo livro encontramos tradições, crenças e costumes que “o tempo, impiedosamente, tenta apagar”, como escreveu Germano Silva no posfácio. A Arte de Caçar Destinos é também uma forma de preservar essa memória coletiva?
Admito que possa ser um pequeno contributo. A tradição mítica e mágico-religiosa portuguesa é muito rica em manifestações e simbolismos. Algumas da histórias deste novo livro procuram captar essa magia que percorreu gerações, onde e a real e o sobrenatural concorriam tanto para a perseguição como para a pacificação das almas.

Entre as várias histórias deste novo livro, existem situações que, hoje, nos parecem inacreditáveis. De que forma equilibrou a realidade, resultado das suas investigações, com a criatividade do autor?
As histórias deste livro são um misto de realidade, crença, imaginação, sobrenatural, procurando ambientes próximos do realismo fantástico, no jeito português. Neste jogo de sombras, cada um crê no que quer. Ou simplesmente sorri, de agrado ou desagrado.

Escolhe os temas dos livros ou os temas escolhem-no a si?
No início, tenho sempre algum domínio sobre o tema e sobre a história. Com o decorrer da escrita, vou negociando, ora aceitando, ora contraindo, os caminhos que ela sugere. É sempre uma aventura. O pior mesmo é quando entramos num beco sem saída, numa noite escura, e não encontramos a alavanca da marcha-atrás.

Além de escritor, foi Presidente da Câmara Municipal de Penafiel, e é também advogado e gestor público. Como concilia essas atividades?
São gavetas diferentes do mesmo móvel. Umas abrem-se, outras fecham-se. Umas guardam gente real, o concreto e os problemas que tenho de resolver no dia-a-dia; noutras vive a fantasia, imaginação e a abstração que permite engendrar histórias. No final do dia, durmo com as gavetas todas abertas. No fundo, a realidade e a imaginação são faces do mesmo rosto.

Qual é hoje a sua rotina de escrita?
Não tenho rotina, nunca tive. Escrevo nos entretantos, sempre que eles existem. Quando estou muito tempo sem escrever, penalizo-me. Sinto culpa e remorsos. E já sei que o divã da terapia é obrigar-me a encontrar novos entretantos para me sentar a escrever. Ler um livro, por exemplo, pode ser uma boa droga para acordar do torpor.

Sabemos que os seus livros implicam muita investigação. Considera-se um Sherlock Holmes?
Não, claro que não. A investigação é meia escrita. Só consigo começar a escrever uma nova história quando me sinto capaz de mergulhar num novo tempo e reconhecer os cheiros das suas ruas, a alcova das gentes que nele viveram e meter o nariz nos assuntos dos antepassados para os quais não fui chamado. Não é propriamente uma investigação policial, é talvez um pouco mais uma espécie de voyeurismo ao longo do espaço e do tempo.

Numa entrevista disse: “Gostaria que um livro fosse a máquina do tempo que ainda não foi inventada, permitindo ao leitor viajar literalmente no tempo e ser um observador direto, presencial, e que, no limite, pudesse vivenciar os factos”. Sente que tem cumprido esta missão?
Ando sempre à procura dessa máquina. Não me move um sentimento de nostalgia por um passado superior ou redentor, mas apenas contar boas histórias. E há boas histórias vividas pelos nossos antepassados que nunca foram contadas. É claro que isso também ajuda a compreender melhor coisas que acontecem no tempo em que nos é concedido viver.

Em 2008 publicou A Escrava de Córdova, o seu primeiro romance. Wook mudou na sua escrita desde a publicação desse livro?
Como autor, mudou tudo. Eu não existia nessa condição. Passei a existir. Esse primeiro livro chegou onde nunca imaginei e abriu o caminho para os que se lhe seguiram. Já são cinco. Como pessoa, também me transformou. Vejo a vida, o mundo e outros com mais responsabilidade e respeito.

Já houve algo que um leitor seu tenha dito ou feito que o tenha marcado para sempre?
Sim, os que disseram que a minha escrita não lhes dizia nada. Não descansarei enquanto não escrever o livro que os convença do contrário. Se não conseguir, paciência! Na viagem, terei certamente chegado a mais leitores e perdido outros. É assim a nossa vida. O nosso melhor livro é sempre o que vem a seguir.

Se o dinheiro não fosse uma condicionante, onde optaria por fazer a pesquisa do seu próximo livro?
Na Índia. Anda uma história a perturbar-me há algum tempo, nessas paragens. Gostava de a tirar tudo a limpo. E viveram por lá muitos portugueses com vidas extraordinárias por contar.

Se tivesse um superpoder, qual seria?
Viajar no tempo, é claro! Talvez ajudasse a melhorar as minhas histórias.

Se fosse transportado para a cena do livro que está a ler neste momento, quem estaria ao seu lado?
Um perigoso assassino que ainda não sei se vai ter o castigo que merece. O melhor é virar a página.

Que autores lhe colocam um brilhozinho nos olhos?
Não caberiam todos aqui, mas emociono-me com Garcia Márquez e outros latino-americanos, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Amin Malouf, Gonçalo M. Tavares e outros autores menos conhecidos que desbravam caminhos da ficção histórica. Mas os olhos brilham muito mais quanto encontro uma investigação exaustiva sobre o tema ou a personagem que quero romancear a seguir. É algo verdadeiramente extraordinário. Brilham os olhos e emagrece a carteira. Acabo de encomendar um desses livros que me custou 350 €, que aguardo ansiosamente que chegue do outro lado do mundo. Só espero não desistir da história.

Wook gostaria de ler sobre si?
Que dei um pequeno contributo para aumentar o gosto pela leitura e que diverti os meus leitores.

Primeiro pensamento perante uma página em branco.
Quem és tu e onde queres que te leve?

Planos para o futuro?
Escrever a história da personagem pela qual me apaixonei. E acender uma velinha à Nossa Senhora dos Escritores para que seja a melhor de todas as que já escrevi.

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